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sábado, 14 de novembro de 2020

Evocação do Dia em Memória do Holocausto

 O Dia de Memória do Holocausto faz parte, desde 2009, do nosso calendário parlamentar, em sintonia com a iniciativa das Nações Unidas, que consagrou, em 2005, o dia 27 de janeiro como Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

Concebemos esta comemoração como um momento solene de reflexão sobre as causas e as consequências do Holocausto, lembrando e homenageando a memória das vítimas do nazismo e dos seus colaboradores.

Entendemos a celebração desta data como de afirmação da dignidade da pessoa humana e dos demais direitos fundamentais consagrados na Constituição, na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Convenção Europeia dos Direitos Humanos.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Ao assinalarmos, este ano, o 75.º aniversário da libertação do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, é importante reconhecer que o antissemitismo, o racismo e a xenofobia não começaram com nazismo e não terminaram com o fim da II Guerra Mundial.

Não podemos ignorar que ao longo dos séculos, e por toda a parte do globo, sempre se verificaram manifestações de ódio e atos de violência contra judeus.

O Holocausto é exemplo maior da barbárie nazi, com seis milhões de judeus mortos e um número indeterminado de outros seres humanos perseguidos, encarcerados, deportados ou mortos pelas suas crenças, opções políticas, orientação sexual, condições físicas ou origens, 

Mas não surgiu do vazio.

Foi um programa estabelecido e executado de forma planeada, por etapas, sustentado numa cultura de ódio e de preconceito, promovido e alimentado por uma forte e eficaz campanha de propaganda e desinformação, que soube explorar a crise financeira e social do pós I Guerra Mundial.

Foi um propósito que contou com a cumplicidade, a colaboração – ativa ou passiva – e a indiferença de parte significativa da população de vários Estados.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Recordar o Holocausto, e as suas consequências, é um imperativo moral. Para o prevenir é indispensável conhecer as suas causas, o contexto em que surgiu, a conjuntura que o tornou possível.

Não por acaso, a Resolução das Nações Unidas que estabeleceu o Dia Internacional insta os Estados Membros a desenvolverem programas educacionais dirigidos às novas gerações visando esse objetivo.

Portugal reforçou o seu compromisso nesta área ao tornar-se, em 2019, o 34.º Estado-Membro da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, organização que tem o intuito de dinamizar a cooperação internacional em matéria de Educação, Memória e Investigação do Holocausto.

O currículo escolar português aborda já esta temática em diversas disciplinas e em múltiplos anos, nomeadamente no domínio dos Direitos Humanos, de acordo com a Estratégia Nacional da Educação para a Cidadania.

Algumas das ações desenvolvidas contam mesmo com a participação de vários parceiros institucionais, nomeadamente o Mémorial de la Shoah, a Memoshoá, a Associação de Professores de História, entre outros.

Se a História é imprescindível para desvendar este período negro da Humanidade e nos avisar para as suas consequências, a Educação para a Cidadania, ao fomentar o respeito pelo Outro numa sociedade inclusiva, promotora da igualdade, da democracia e da justiça social, é essencial para frustrar as manifestações de xenofobia e de racismo, e a ocorrência de atos de violência com estas relacionados.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Na evocação do Dia de Memória do Holocausto é também justo recordar os que não assistiram passivamente à propagação do mal, tantas vezes com riscos para a própria vida, a sua liberdade ou sustento.

Aristides de Sousa Mendes foi um desses Homens.

Contrariando as instruções do Governo Português – a célebre circular n.º 14, de novembro de 1939 –, Aristides de Sousa Mendes emitiu vistos a todos os que o solicitaram, sem distinções e restrições.

Graças a este gesto, estima-se que centenas de vidas foram salvas.

Por este ato de coragem, em obediência aos seus princípios e consciência, Aristides de Sousa Mendes foi punido.

É, pois, com agrado que a Assembleia da República, Casa da Democracia, se associa, nesta cerimónia evocativa do Dia Internacional da Memória do Holocausto, à homenagem devida a este Homem, que honra todos os Portugueses, através da Exposição “Além do Dever” e da apresentação do documentário sobre a sua vida.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Ao terminar, gostaria de recordar, pelo seu significado, as palavras de Thomas Buergenthal, um sobrevivente do Holocausto e antigo Juiz do Tribunal Internacional de Justiça, retiradas do discurso que proferiu nas Nações Unidas, a 31 de janeiro de 2018, na celebração desta data:

«O Holocausto não foi apenas uma tragédia judaica; foi uma tragédia de significado universal. Toda a humanidade foi sua vítima. A menos que esta verdade seja reconhecida e aceite, o Holocausto será tratado apenas como um problema judaico, diminuindo assim o carácter universal e o significado da tragédia humana que foi».

Não podemos deixar que isso aconteça.

A todos agradeço a presença e a atenção.

Muito obrigado.

Eduardo Ferro Rodrigues

Presidente da Assembleia da República



13.02.2020 | Cerimónia de Evocação do Dia de Memória do Holocausto |

Salão Nobre da Assembleia da República, Palácio de São Bento



 

Portugal, a última Fronteira

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Sociedade Activa e Contestatária na I República

 


No período da I República, entre a sua criação, a 5 de Outubro de 1910, e a sua queda, a 28 de Maio de 1926, a sociedade portuguesa vai revelar um grande protagonismo político e cultural.
Portugal, desde 1820 (salvo a interrupção no período miguelista, de 1826 a 1834), vivia em regime parlamentar. A República faz-se não para acabar com esse regime, mas sim para eliminar a figura do rei, que do ponto de vista republicano era a causa da degradação moral da Nação. Refira-se, a título de exemplo, que nas palavras de Basílio Teles, famoso republicano, a monarquia tinha sido "a incompetência, o impudor, a opressão". A par do rei, os republicanos irão combater o "clericalismo", pois, segundo estes, os sacerdotes "eram símbolos do obscurantismo e opositores ao uso da livre razão". A grande maioria dos republicanos estava filiada na Maçonaria, organização semi-secreta, com ritos de iniciação e organização interna muito elaborada, para quem Deus era "o grande arquitecto", representado por um triângulo com um olho no seu interior. Apêndice importante da Maçonaria era a Carbonária, organização civil armada (na qual entravam também militares mas a título individual), sem preocupações esotéricas, destinada a servir de braço armado do Partido Republicano.

Entretanto, as ideias republicanas e maçónicas não esgotavam as propostas de reforma social, que incluíam também ideias socialistas, ou comunistas - já que por volta de 1910-1915 estas tinham grande proximidade - e as ideias anarquistas.

Os socialistas pretendiam a transformação da sociedade através da abolição da propriedade, que passaria para a posse da sociedade (donde o nome socialismo). As relações familiares, geradoras de egoísmo familiar, problemas de heranças, etc., seriam substituídas pelo amor livre, e o Estado, após o período revolucionário, acabaria.

Os anarquistas, com princípios sociais idênticos, põem a tónica na liberdade, negando todos os seus símbolos - a religião, a pátria, a escola e a família. A participação nas eleições é por eles desprezada. Rejeitam a intervenção do Estado nos problemas sindicais, defendendo, por exemplo, as "associações de socorros mútuos", afirmando que "a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores", e são partidários da acção imediata através de atentados aos símbolos de autoridade. Os anarquistas constituíam, entre o operariado, a força mais importante e numerosa, dominando os sindicatos (corrente denominada anarco-sindicalismo). Entre todas estas ideias e práticas ir-se-ão, como é compreensível, produzir choques, não só verbais - a linguagem utilizada nos comícios e jornais é agressiva - mas também confrontos físicos e armados. O pequeno burguês da cidade, bem pensante e de chapéu, convencido de que tinha feito uma revolução para o bem da Pátria, não cede facilmente às reivindicações do operário de boné e calças amarrotadas, que o ameaça com greves e lhe lança bombas. Assim, o Partido Democrático de Afonso Costa - partido hegemónico durante a República - vai travar uma luta especialmente em duas frentes: contra a Igreja como instituição, e contra a classe operária organizada em sindicatos (Afonso Costa tinha a alcunha de racha-sindicalistas), criando-se uma acentuada instabilidade no país, com greves e atentados bombistas, ao que os Governos vão ripostar com prisões e encerramento das sedes sindicais e jornais. Aliás, uma das primeiras medidas da República seria a de criar uma "Guarda Republicana" para defender o regime, isto atendendo a que a Polícia não dispunha de efectivos e armamentos para o fazer, e o Exército era "pouco fiel". A Guarda Republicana deveria ter uma postura imparcial, evitando imiscuir-se em problemas internos, o que foi esquecido muitas vezes. Paralelamente, a par dessas duas "frentes" principais, vai surgir uma outra: a luta contra os republicanos que pretendessem uma pacificação do país através de medidas restritivas da liberdade e do parlamentarismo.

Como episódios mais marcantes e notórios destas lutas poderemos falar de várias greves gerais reprimidas violentamente e a revolta de 14 de Maio de 1915, que se destinou a restabelecer a República (o Presidente Pimenta de Castro havia levado a cabo, quatro meses antes, um golpe de Estado "palaciano" para retirar o poder ao Partido Democrático), a qual causou centenas de mortos e feridos.

Nessa situação as forças tradicionais, monárquicas e católicas, iriam também reagir: por um lado, através de intentonas militares, chefiadas sobretudo por Paiva Couceiro, como as invasões do Norte de Portugal em 1911 e 1912. A um nível mais teórico surgiu a ideologia apoiada na revista "A Nação Portuguesa", fundada em Coimbra, em Abril de 1914. Os defensores desta teoria, como António Sardinha, Hipólito Raposo, Pequito Rebelo e outros, defendiam uma monarquia na qual o rei tivesse um poder efectivo, nomeando os seus ministros livremente, isto é, sem estar sujeito à composição do Parlamento, uma política firmemente nacionalista; isto enquanto faziam a crítica ao regime parlamentarista e propunham a representação corporativa e regional, bem como um lugar apropriado para a Igreja Católica. Os integralistas atacam os "estrangeiros do interior" e os "iberistas" (partidários da união política de Portugal e Espanha num só país). As ideias políticas do Integralismo Lusitano irão influenciar Salazar, o qual, entretanto, rejeita a ideia - que para os integralistas era básica - de restauração da monarquia.

No campo artístico, a República é quase contemporânea do Manifesto Futurista, escrito por um italiano, Marinetti, em 1909, manifesto esse que defende: a) desprezo pelo passado, para que de tal desprezo nasça a vontade de criar e construir o futuro; b) ódio aos museus, às academias, aos professores e a tudo o que é tradicional, clássico, pedante, estreito, estacionário e obscuro; c) amor à velocidade, à liberdade, à energia, ao perigo, à força física e à violência; d) desprezo do sentimentalismo e do luar; amor à vida frenética e moderna; e) desprezo de toda a forma de plágio; veneração da originalidade. Este manifesto, pelo seu altivo desprezo pela ordem estabelecida, anuncia claramente um mundo diferente. Em Portugal o seu eco foi pouco posterior, encontrando-se a sua expressão teórica na revista "Orpheu" (figura mitológica da antiga Grécia, que, segundo a lenda, tocava uma doce música para domar as feras) e isto muito embora dele só tenham sido publicados dois números, em Março e em Julho de 1915. Menos radical, entretanto, que os seus pais espirituais, declarava erguer-se "não contra o que há de bom no classicismo e no romantismo, mas sim contra o que se mascara apenas com o sinal externo da perfeição". O grupo de artistas que se reúne à volta de "Orpheu" incluía os pintores Amadeo de Souza-Cardoso, que, nascido em 1887, viria a falecer vítima da pneumónica em 1918, e Guilherme Santa-Rita, nascido em 1889 e falecido em 1918; o poeta Mário de Sá-Carneiro nascido em 1890 e que viria a suicidar-se em Paris em 1916 - um adolescente que nunca chegou a ser adulto, marcado pela perda da mãe aos 2 anos e da avó aos 9 anos; Almada Negreiros, nascido em 1893, pintor, escritor e poeta, que iria escrever o famoso "Manifesto Anti-Dantas", sátira brutal contra a superficialidade e o academismo; e Fernando Pessoa, nascido a 1888, sob um dos seus heterónimos. Um dos motivos do escândalo causado por esta revista foi a publicação no seu segundo número de um poema de Ângelo Lima, que estava internado no manicómio de Rilhafoles.

 As Consequências Económicas e Sociais da Grande Guerra

Em 1914, iniciou-se uma terrível guerra no Centro da Europa, a qual viria a envolver quase todas as nações europeias. Portugal, embora não directamente envolvido, acabou por entrar na guerra, sobretudo por fidelidade à sua velha aliada, a Grã-Bretanha - então a maior potência naval, e por tal motivo indispensável apoio a quem, como Portugal, tinha um Império tão repartido pelo Mundo. A somar a isto temeu o Governo vir a perder as suas colónias em África, caso não entrasse na contenda. A guerra em África começou mais cedo, logo a partir de 1914; a guerra na Europa, para Portugal, só começaria em Janeiro de 1917, data em que partiu o primeiro contingente português para França. A guerra propriamente dita teve custos elevados em vidas humanas e mesmo em capitais; mas também a população civil, embora poupada aos seus horrores - pois a guerra passava-se muito longe -, iria sofrer os seus efeitos, devido aos ataques alemães aos navios, impedindo, assim, o reabastecimento em géneros alimentícios, nos quais Portugal não era auto-suficiente. A carência de géneros provocou a alta de preços e situações de açambarcamento. O agudizar das tensões sociais aumentou e verificaram-se vários episódios de saques a mercearias e armazéns, com dezenas de mortos. As difíceis condições de vida, aliadas aos pesadelos sofridos nos campos de combate, destruíram a antiga ordem; e, enquanto uns procuram enriquecer a qualquer custo e outros apenas sobreviver, outros anseiam por um novo mundo. A esta luz podem entender-se vários movimentos culturais e sociais que irão nascer ou afirmar-se com mais força no pós-guerra: o Saudosismo, o grupo Seara Nova e a fundação do Partido Comunista, isto a par de um aumento das vocações religiosas.

O Saudosismo foi um movimento defensor dos valores tradicionais, populares, o neo-romantismo, a comunhão com a Natureza. As palavras-chave deste estilo eram "sombra", "ausência", "alma". É interessante notar que este grupo se reunia à volta da revista A Águia, fundada no Porto logo após a revolução de 5 de Outubro de 1910, e que havia começado por ser um órgão anticlerical, antijesuíta, que propunha a reforma do ensino como meio de rejuvenescimento moral e físico; os novos valores do Saudosismo que a revista passa a defender dizem bem da alteração de mentalidades entretanto verificada. Fernando Pessoa, que iniciou a sua vida literária colaborando nesta revista, caracterizou o Saudosismo por: vacuidade, subtileza, complexidade e por exprimir uma religiosidade nova. O iniciador deste estilo foi Teixeira de Pascoaes (pseudónimo de Joaquim Teixeira de Vasconcelos, 1879-1952), sendo outros nomes conhecidos os de Guerra Junqueiro, António Correia de Oliveira, Jaime Cortesão, Afonso Lopes Vieira, Mário Beirão, etc.

O grupo da "Seara Nova" vai defender um socialismo cooperativista - a par da apologia da imaginação criadora, do experimentalismo e da educação pela responsabilidade. A revista "Seara Nova" foi fundada em 1921 e o seu chefe-de-fila era António Sérgio, nascido em Damão em 1883, oriundo de famílias de oficiais da Marinha, sendo seus parceiros Raul Proença, Jaime Cortesão, Afonso Lopes Vieira e Aquilino Ribeiro. Os "seareiros" não pretendiam formar-se em grupo destinado a exercer o poder, mas sim a provocar uma transformação das mentalidades, "opondo-se ao espírito da rapina da oligarquias dominantes e ao egoísmo dos grupos, classe e partidos", bem como a "contribuir para formar, acima das pátrias, uma consciência internacional bastante forte, para não permitir novas lutas fratricidas".
Em 1921 é fundado o Partido Comunista Português. Fruto da tomada do poder pelos bolchevistas na Rússia - rebaptizada de União Soviética -, este partido surge a partir dos movimentos socialista e anarquista, tendo em relação a estes o carácter distintivo de privilegiar o aspecto organizativo - a criação de um partido disciplinado e forte - como requisito indispensável para a tomada do poder.

No campo religioso os constantes ataques dos republicanos, bem como as misérias criadas pela guerra, levam a uma maior reflexão e aprofundamento dos valores cristãos, de que são exemplo as obras do último período de Leonardo Coimbra, as conversões de Alfredo Pimenta e outras figuras da cena política e social e as aparições de Fátima.

As lutas políticas vão traduzir-se - entre muitos outros episódios - no assassinato do Presidente da República, Sidónio Pais, em Dezembro de 1918; nas greves de 1919 dos Caminhos-de-Ferro, que o Governo combateu obrigando a que o vagão que ia à cabeça das carruagens que circulavam fosse carregado de grevistas, guardados à vista por soldados armados, isto para evitar que estas sofressem atentados à bomba; na "noite sangrenta" de 19 de Outubro de 1921, em que vários dos fundadores da República foram fuzilados por soldados da Guarda Republicana e da Marinha, etc.

Contra todo este clima de desordem as reacções dos vários governos que se vão sucedendo, embora violentas, nunca são consequentes; os encerramentos das sedes da União Operária Nacional, fundada em 1914, ou da Confederação da União Geral do Trabalho, fundada em 1919, ambas de tendência anarquista, eram sempre por um período de tempo curto; as suspensões de professores, como a de Salazar e do "grupo de Coimbra", acusados de apoiar a "monarquia do Norte" de 1919, também se resumiram apenas a um período de dois meses, de Março a Abril; o assassino de Sidónio Pais foi libertado durante a "noite sangrenta"; o promotor que deveria acusar os revolucionários de 1925 fez, ao invés, a sua defesa política e os réus foram todos absolvidos.

No entanto, esse relativo apagar das autoridades face às convulsões sociais radica no facto de os republicanos serem herdeiros espirituais da Revolução Francesa, a qual se baseava na "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" e na rapidez com que os governos se alternavam, o que fazia com que as sucessivas políticas fossem inconsequentes.

É de notar que, enquanto o mundo actual caminha para a globalização, no período em que estamos, Portugal, embora esteja sujeito à penetração de ideias do estrangeiro, como o anti-clericalismo, o socialismo, e até, em parte, o próprio "integralismo lusitano", esse fenómeno não atingia as proporções a que estamos habituados; é, aliás, interessante notar que uma das críticas que o grupo da Seara Nova irá fazer aos integralistas é a de que estes, com as suas ideias nacionalistas, ignoravam o mundo exterior, já bem presente através do telégrafo e do telefone. Isso explica que as experiências sociais nos diversos países da Europa de então fossem diversas, pelo que os partidários das diferentes ideologias podiam ter uma esperança razoável de que, desde que fossem suficientemente fortes na defesa das suas convicções, a sua ideologia chegaria ao poder, o que muito contribuiu para a virulência das lutas sociais nessa época.

Mas todos estes movimentos afectavam, sobretudo, as cidades e vilas mais importantes, pois a maioria da população era analfabeta, não podendo votar nem participar em tertúlias literárias. De acordo com o Censo de 1911, 80% da população vivia no campo, muita dela analfabeta - o analfabetismo rondava os 75% da população e era maior nas áreas rurais; e pela legislação aprovada pelo Partido Democrático em 1913 havia sido retirado o voto aos analfabetos, considerados susceptíveis de seguir acriticamente as opiniões do clero.

Por isso, para muitos portugueses todas estas diferenças ideológicas se sentiam mais nos preços e escassez dos produtos do que nos ecos das bombas e das balas, quer verbais, quer propriamente ditas (será excepção, entretanto, o Alentejo, no qual há importantes greves dos jornaleiros) e a opção que lhes irá restar será a emigração para o Brasil, especialmente forte nesse período.



Sociedade Activa e Contestatária na I República.

 In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010.  [Consult.2010-09-12]. Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$sociedade-activa-e-contestataria-na-i>.


quarta-feira, 1 de maio de 2013

1º de Maio - Dia do Trabalhador

Primeiro 1º de Maio em liberdade - Portugal, 1974
 

No dia 1 de Maio de 1886, trabalhadores em greve desfilam em Chicago, sendo reprimidos. Nos dias seguintes, a violência policial aumenta e são presos 8 dirigentes do movimento – quatro deles seriam enforcados e os outros quatro condenados a prisão perpétua, sob a falsa acusação de autoria de um atentado bombista ... organizado pela polícia.
Em honra dos Mártires de Chicago, a II Internacional proclamou, no Congresso da sua fundação, em 1889, o dia 1 de Maio como Dia do Trabalhador.
Desde então, essa data é assinalada em todo o mundo como jornada de luta, sendo frequentemente reprimida. Por outro lado, vários regimes ditatoriais tentam aproveitar-se da data para as suas encenações “obreiristas”, organizando desfiles de apoio às respectivas orientações ideológicas e chefias.
Mas o certo é que a criação e a celebração do Dia do Trabalhador significa, antes do mais, que os proletários nada têm a perder a não ser as suas cadeias. Têm um mundo a ganhar (Karl Marx e Friedrich Engels).
Numa época em que a globalização ganhou dimensões e características gigantescas, em que países e povos se encontram dominados por estruturas anónimas do capital (os mercados são a sua última designação), parece evidente que o futuro dos trabalhadores está dependente, por um lado, do entendimento da natureza global da acumulação da riqueza nas mãos de privados e, por outro lado, da internacionalização das suas reivindicações e lutas e dos seus objectivos sociais e políticos.

in Fundação Mário Soares

domingo, 10 de março de 2013

Adelaide Cabete





Adelaide de Jesus Damas Brazão Cabete, nasceu em Alcáçova, Elvas, no dia 25 de janeiro de 1867 e faleceu em Lisboa a 14 de setembro de 1935.

Embora de origem humilde, fez um percurso extraordinário, quer ao nível da sua formação cultural quer cívica, destacando-se a sua militância republicana e feminista e a sua ação em prol dos mais desfavorecidos, particularmente as mulheres.  

Tal como o marido, o sargento Manuel Fernandes Cabete, participou ativamente na propaganda que antecedeu a mudança de regime em 5 de Outubro de 1910, tendo abraçado a causa republicana de forma ativa e exemplar e integrando, a este nível, a Liga Republicana das Mulheres, à qual também pertenceram Ana de Castro Osório, Carolina Beatriz Ângelo e Maria Veleda.

Destacou-se sempre pela sua ação reivindicativa a favor das Mulheres portuguesas, tão esquecidas e tão secundarizadas a todos os níveis, lutando particularmente pelo seu direito à dignidade, ao voto, à instrução e à igualdade perante a lei.

Além de republicana convicta, foi médica obstetra- ginecologista (a sua tese foi sobre a Proteção às Mulheres grávidas Pobres como meio de promover o Desenvolvimento físico das novas gerações), professora, pacifista, abolicionista e defensora dos animais, assumindo publicamente a sua luta contra as touradas.

Entregou-se sempre de corpo e alma a todas as causas em que acreditou.

Salienta-se, por exemplo, a sua luta pelo direito a um mês de descanso antes do parto, e a criação de organizações feministas nas quais exerceu diversos cargos, tendo sido Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, que fundou conjuntamente com outras mulheres republicanas de renome, fundando também com elas a Liga Portuguesa Abolicionista, entre outras.

Participou, como docente, em vários Congressos, caso do Congresso Internacional das Ocupações Domésticas (Gand, 1913), Congresso Internacional Feminino de Roma (1923), Congresso do Conselho Internacional das Mulheres (Washington, 1925), I e II Congressos Feministas e da Educação (1921 e 1928) e Congressos Abolicionistas (1926 e 1929).

Escreveu dezenas de artigos, de temática diversa, essencialmente de carácter médico – sanitário, manifestando frequentemente as suas preocupações sociais, apresentando soluções e medidas profiláticas de doenças e epidemias, publicando obras como O Papel que o Estudo da Puericultura, da Higiene Feminina, etc. Deve Desempenhar no Ensino Doméstico (1913), Proteção à Mulher Grávida (1924) e A Luta Antialcoólica nas Escolas (1924).

Também escreveu artigos de âmbito mais feminista onde mostrou as suas ideias progressistas e a força das suas convicções e da sua luta pela dignidade da Mulher.

Fundou e dirigiu a revista Alma Feminina (entre 1920 e 1929) e colaborou em numerosas publicações periódicas como Educação, Educação Social, O Globo, A Mulher e a Criança, Pensamento e O Rebate.
 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Protestantismo e Feminismo




Os Protestantes opuseram-se tanto quanto os Católicos ao activismo femino público e aos movimentos pela igualdade de direitos entre os sexos. No entanto, foi nas nações protestantes que primeiro se criaram as condições que permitiram a formação de movimentos de libertação, entre eles o da emancipação das mulheres. Nas nações onde a Igreja Católica manteve o domínio absoluto, as mulheres continuavam a ter a Virgem Maria e as santas como importantes ícones religiosos, cujos cultos absorviam grande parte da prática da religiosidade feminina.

O Catolicismo preservou intacto o estatuto de subordinação da mulher, expresso no papel de esposas e mães, como no de reclusas nos conventos.

As mulheres católicas que desejassem reivindicar direitos de igualdade legal, política e económica teriam de primeiro romper com a Igreja, por vezes completamente. Simone de Beauvoir, por exemplo, chamou à sua perda de fé “a minha conversão ao mundo real”, sentimento certamente partilhado por muitas mulheres católicas que se tornaram feministas, como as Três-Marias portuguesas.

Nas nações católicas, poucas foram as mulheres que se juntaram a movimentos feministas, antes dos movimentos generalizados de emancipação da mulher da década de 1970. O mesmo já não ocorreu nas nações que adoptaram a Fé protestante.

É verdade que as Igrejas Protestantes também preservaram a tradição patriarcal e que reduziram drasticamente as oportunidades de participação feminina na Igreja, com a eliminação do culto à Virgem e aos santos e o repúdio da vida em reclusão, em conventos e mosteiros. No entanto, a intensa prática religiosa doméstica, a leitura pessoal da Bíblia, a diferente leitura de algumas das doutrinas cristãs e as diferentes formas de disciplina eclesiástica abraçadas pelas diversas denominações protestantes criaram uma atmosfera mais propícia à rejeição das tradições culturais seculares que sublinhavam o estatuto de subordinação da mulher. A ênfase nas doutrinas da igualdade espiritual, na inviolabilidade da liberdade de consciência religiosa, e na responsabilidade de cada indivíduo pela sua própria salvação, estimulou o individualismo e a independência do pensamento, que levou as mulheres protestantes a cedo descobrirem a paradoxalidade do seu estatuto de subordinação social, e a começarem a questionar os papéis tradicionais que lhes eram socialmente impostos.

Foram esses factores que fizeram surgir mulheres de fortes convicções e grande poder de argumentação, como as britânicas e norte-americanas acima referidas, e que explicam o facto de ter sido nas nações protestantes que as mulheres primeiro conseguiram o direito de voto e outros importantes direitos civis.

A ética protestante foi igualmente instrumental na transição de uma sociedade aristocrática, baseada numa economia agrária feudal, para uma sociedade burguesa, baseada numa economia agrária capitalista, no comércio e na indústria, transição que, em termos políticos, se traduziu na transferência do poder da Coroa para o Parlamento e da aristocracia para a burguesia, estabelecendo a classe média como classe económica e política dominante.

O crescimento económico da classe média concorreu significativamente para a melhoria do estatuto das mulheres, especialmente o das mulheres da burguesia urbana, que começaram a receber melhor educação e, tal como as mulheres da aristocracia, a dispor de tempos livres para se dedicarem à leitura e à escrita. Por outro lado, a expansão das actividades económicas urbanas abriu novas oportunidades de trabalho para as mulheres, que lhes permitiram adquirir maior independência económica e, como consequência natural, maior poder reivindicativo.

Assim, embora até ao século XVIII as mulheres que abordaram a questão dos seus direitos tivessem as mais diversas origens sociais: mulheres tituladas, como a duquesa de Newcastle; bluestockings, como Lady Montagu; educadoras, como Bathsua Makin; ou simples mulheres da burguesia mercantil, como Mary Wollstonecraft, os movimentos pelos direitos da mulher do século XIX e início do século XX foram esmagadoramente compostos por mulheres pertencentes a famílias de riqueza moderada, seja de origem fundiária, comercial, industrial ou das profissões liberais. Foram, na verdade, especialmente as mulheres da classe média urbana que, durante o século dezanove, mais sentiram a privação dos direitos educacionais, económicos e políticos que os homens da sua classe social estavam a adquirir.

O sucesso do liberalismo político e do crescimento económico, em grande medida fomentado pela ética protestante, está, por conseguinte, na base da razão de ter sido em Inglaterra e nos Estados Unidos que a classe média primeiro ascendeu ao poder político em número expressivo, e onde primeiro ocorreram os maiores e mais bem organizados movimentos pelos direitos das mulheres, que serviram de paradigmas a outros movimentos feministas europeus.

Entre 1830 e 1920, milhares de mulheres pertencentes a famílias britânicas e norte-americanas da classe média liberal mobilizaram-se e lutaram pelo direito ao sufrágio, pelo direito ao controlo das suas propriedades e dos seus ganhos, e pelo direito à educação.

 

in LUTA DAS MULHERES PELO DIREITO DE VOTO, movimentos sufragistas na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, Zina Abreu.

 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Amistad



Grande filme! Grande obra!
Um contributo extraordinário para a História da Escravatura e para a defesa dos Direitos Humanos!
A não perder!




domingo, 20 de maio de 2012

Sociedade Activa e Contestatária na I República

 

No período da I República, entre a sua criação, a 5 de Outubro de 1910, e a sua queda, a 28 de Maio de 1926, a sociedade portuguesa vai revelar um grande protagonismo político e cultural.
Portugal, desde 1820 (salvo a interrupção no período miguelista, de 1826 a 1834), vivia em regime parlamentar. A República faz-se não para acabar com esse regime, mas sim para eliminar a figura do rei, que do ponto de vista republicano era a causa da degradação moral da Nação. Refira-se, a título de exemplo, que nas palavras de Basílio Teles, famoso republicano, a monarquia tinha sido "a incompetência, o impudor, a opressão". A par do rei, os republicanos irão combater o "clericalismo", pois, segundo estes, os sacerdotes "eram símbolos do obscurantismo e opositores ao uso da livre razão". A grande maioria dos republicanos estava filiada na Maçonaria, organização semi-secreta, com ritos de iniciação e organização interna muito elaborada, para quem Deus era "o grande arquitecto", representado por um triângulo com um olho no seu interior. Apêndice importante da Maçonaria era a Carbonária, organização civil armada (na qual entravam também militares mas a título individual), sem preocupações esotéricas, destinada a servir de braço armado do Partido Republicano.
Entretanto, as ideias republicanas e maçónicas não esgotavam as propostas de reforma social, que incluíam também ideias socialistas, ou comunistas - já que por volta de 1910-1915 estas tinham grande proximidade - e as ideias anarquistas.
Os socialistas pretendiam a transformação da sociedade através da abolição da propriedade, que passaria para a posse da sociedade (donde o nome socialismo). As relações familiares, geradoras de egoísmo familiar, problemas de heranças, etc., seriam substituídas pelo amor livre, e o Estado, após o período revolucionário, acabaria.
Os anarquistas, com princípios sociais idênticos, põem a tónica na liberdade, negando todos os seus símbolos - a religião, a pátria, a escola e a família. A participação nas eleições é por eles desprezada. Rejeitam a intervenção do Estado nos problemas sindicais, defendendo, por exemplo, as "associações de socorros mútuos", afirmando que "a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores", e são partidários da acção imediata através de atentados aos símbolos de autoridade. Os anarquistas constituíam, entre o operariado, a força mais importante e numerosa, dominando os sindicatos (corrente denominada anarco-sindicalismo). Entre todas estas ideias e práticas ir-se-ão, como é compreensível, produzir choques, não só verbais - a linguagem utilizada nos comícios e jornais é agressiva - mas também confrontos físicos e armados. O pequeno burguês da cidade, bem pensante e de chapéu, convencido de que tinha feito uma revolução para o bem da Pátria, não cede facilmente às reivindicações do operário de boné e calças amarrotadas, que o ameaça com greves e lhe lança bombas. Assim, o Partido Democrático de Afonso Costa - partido hegemónico durante a República - vai travar uma luta especialmente em duas frentes: contra a Igreja como instituição, e contra a classe operária organizada em sindicatos (Afonso Costa tinha a alcunha de racha-sindicalistas), criando-se uma acentuada instabilidade no país, com greves e atentados bombistas, ao que os Governos vão ripostar com prisões e encerramento das sedes sindicais e jornais. Aliás, uma das primeiras medidas da República seria a de criar uma "Guarda Republicana" para defender o regime, isto atendendo a que a Polícia não dispunha de efectivos e armamentos para o fazer, e o Exército era "pouco fiel". A Guarda Republicana deveria ter uma postura imparcial, evitando imiscuir-se em problemas internos, o que foi esquecido muitas vezes. Paralelamente, a par dessas duas "frentes" principais, vai surgir uma outra: a luta contra os republicanos que pretendessem uma pacificação do país através de medidas restritivas da liberdade e do parlamentarismo.
Como episódios mais marcantes e notórios destas lutas poderemos falar de várias greves gerais reprimidas violentamente e a revolta de 14 de Maio de 1915, que se destinou a restabelecer a República (o Presidente Pimenta de Castro havia levado a cabo, quatro meses antes, um golpe de Estado "palaciano" para retirar o poder ao Partido Democrático), a qual causou centenas de mortos e feridos.
Nessa situação as forças tradicionais, monárquicas e católicas, iriam também reagir: por um lado, através de intentonas militares, chefiadas sobretudo por Paiva Couceiro, como as invasões do Norte de Portugal em 1911 e 1912. A um nível mais teórico surgiu a ideologia apoiada na revista "A Nação Portuguesa", fundada em Coimbra, em Abril de 1914. Os defensores desta teoria, como António Sardinha, Hipólito Raposo, Pequito Rebelo e outros, defendiam uma monarquia na qual o rei tivesse um poder efectivo, nomeando os seus ministros livremente, isto é, sem estar sujeito à composição do Parlamento, uma política firmemente nacionalista; isto enquanto faziam a crítica ao regime parlamentarista e propunham a representação corporativa e regional, bem como um lugar apropriado para a Igreja Católica. Os integralistas atacam os "estrangeiros do interior" e os "iberistas" (partidários da união política de Portugal e Espanha num só país). As ideias políticas do Integralismo Lusitano irão influenciar Salazar, o qual, entretanto, rejeita a ideia - que para os integralistas era básica - de restauração da monarquia.
No campo artístico, a República é quase contemporânea do Manifesto Futurista, escrito por um italiano, Marinetti, em 1909, manifesto esse que defende: a) desprezo pelo passado, para que de tal desprezo nasça a vontade de criar e construir o futuro; b) ódio aos museus, às academias, aos professores e a tudo o que é tradicional, clássico, pedante, estreito, estacionário e obscuro; c) amor à velocidade, à liberdade, à energia, ao perigo, à força física e à violência; d) desprezo do sentimentalismo e do luar; amor à vida frenética e moderna; e) desprezo de toda a forma de plágio; veneração da originalidade. Este manifesto, pelo seu altivo desprezo pela ordem estabelecida, anuncia claramente um mundo diferente.
Em Portugal o seu eco foi pouco posterior, encontrando-se a sua expressão teórica na revista "Orpheu" (figura mitológica da antiga Grécia, que, segundo a lenda, tocava uma doce música para domar as feras) e isto muito embora dele só tenham sido publicados dois números, em Março e em Julho de 1915. Menos radical, entretanto, que os seus pais espirituais, declarava erguer-se "não contra o que há de bom no classicismo e no romantismo, mas sim contra o que se mascara apenas com o sinal externo da perfeição". O grupo de artistas que se reúne à volta de "Orpheu" incluía os pintores Amadeo de Souza-Cardoso, que, nascido em 1887, viria a falecer vítima da pneumónica em 1918, e Guilherme Santa-Rita, nascido em 1889 e falecido em 1918; o poeta Mário de Sá-Carneiro nascido em 1890 e que viria a suicidar-se em Paris em 1916 - um adolescente que nunca chegou a ser adulto, marcado pela perda da mãe aos 2 anos e da avó aos 9 anos; Almada Negreiros, nascido em 1893, pintor, escritor e poeta, que iria escrever o famoso "Manifesto Anti-Dantas", sátira brutal contra a superficialidade e o academismo; e Fernando Pessoa, nascido a 1888, sob um dos seus heterónimos. Um dos motivos do escândalo causado por esta revista foi a publicação no seu segundo número de um poema de Ângelo Lima, que estava internado no manicómio de Rilhafoles.

As Consequências Económicas e Sociais da Grande Guerra

Em 1914, iniciou-se uma terrível guerra no Centro da Europa, a qual viria a envolver quase todas as nações europeias. Portugal, embora não directamente envolvido, acabou por entrar na guerra, sobretudo por fidelidade à sua velha aliada, a Grã-Bretanha - então a maior potência naval, e por tal motivo indispensável apoio a quem, como Portugal, tinha um Império tão repartido pelo Mundo. A somar a isto temeu o Governo vir a perder as suas colónias em África, caso não entrasse na contenda. A guerra em África começou mais cedo, logo a partir de 1914; a guerra na Europa, para Portugal, só começaria em Janeiro de 1917, data em que partiu o primeiro contingente português para França. A guerra propriamente dita teve custos elevados em vidas humanas e mesmo em capitais; mas também a população civil, embora poupada aos seus horrores - pois a guerra passava-se muito longe -, iria sofrer os seus efeitos, devido aos ataques alemães aos navios, impedindo, assim, o reabastecimento em géneros alimentícios, nos quais Portugal não era auto-suficiente. A carência de géneros provocou a alta de preços e situações de açambarcamento. O agudizar das tensões sociais aumentou e verificaram-se vários episódios de saques a mercearias e armazéns, com dezenas de mortos. As difíceis condições de vida, aliadas aos pesadelos sofridos nos campos de combate, destruiram a antiga ordem; e, enquanto uns procuram enriquecer a qualquer custo e outros apenas sobreviver, outros anseiam por um novo mundo.
A esta luz podem entender-se vários movimentos culturais e sociais que irão nascer ou afirmar-se com mais força no pós-guerra: o Saudosismo, o grupo Seara Nova e a fundação do Partido Comunista, isto a par de um aumento das vocações religiosas.
O Saudosismo foi um movimento defensor dos valores tradicionais, populares, o neo-romantismo, a comunhão com a Natureza. As palavras-chave deste estilo eram "sombra", "ausência", "alma". É interessante notar que este grupo se reunia à volta da revista A Águia, fundada no Porto logo após a revolução de 5 de Outubro de 1910, e que havia começado por ser um órgão anticlerical, antijesuíta, que propunha a reforma do ensino como meio de rejuvenescimento moral e físico; os novos valores do Saudosismo que a revista passa a defender dizem bem da alteração de mentalidades entretanto verificada. Fernando Pessoa, que iniciou a sua vida literária colaborando nesta revista, caracterizou o Saudosismo por: vacuidade, subtileza, complexidade e por exprimir uma religiosidade nova. O iniciador deste estilo foi Teixeira de Pascoaes (pseudónimo de Joaquim Teixeira de Vasconcelos, 1879-1952), sendo outros nomes conhecidos os de Guerra Junqueiro, António Correia de Oliveira, Jaime Cortesão, Afonso Lopes Vieira, Mário Beirão, etc.
O grupo da "Seara Nova" vai defender um socialismo cooperativista - a par da apologia da imaginação criadora, do experimentalismo e da educação pela responsabilidade. A revista "Seara Nova" foi fundada em 1921 e o seu chefe-de-fila era António Sérgio, nascido em Damão em 1883, oriundo de famílias de oficiais da Marinha, sendo seus parceiros Raul Proença, Jaime Cortesão, Afonso Lopes Vieira e Aquilino Ribeiro. Os "seareiros" não pretendiam formar-se em grupo destinado a exercer o poder, mas sim a provocar uma transformação das mentalidades, "opondo-se ao espírito da rapina da oligarquias dominantes e ao egoísmo dos grupos, classe e partidos", bem como a "contribuir para formar, acima das pátrias, uma consciência internacional bastante forte, para não permitir novas lutas fratricidas".
Em 1921 é fundado o Partido Comunista Português. Fruto da tomada do poder pelos bolchevistas na Rússia - rebaptizada de União Soviética -, este partido surge a partir dos movimentos socialista e anarquista, tendo em relação a estes o carácter distintivo de privilegiar o aspecto organizativo - a criação de um partido disciplinado e forte - como requisito indispensável para a tomada do poder.
No campo religioso os constantes ataques dos republicanos, bem como as misérias criadas pela guerra, levam a uma maior reflexão e aprofundamento dos valores cristãos, de que são exemplo as obras do último período de Leonardo Coimbra, as conversões de Alfredo Pimenta e outras figuras da cena política e social e as aparições de Fátima.
As lutas políticas vão traduzir-se - entre muitos outros episódios - no assassinato do Presidente da República, Sidónio Pais, em Dezembro de 1918; nas greves de 1919 dos Caminhos-de-Ferro, que o Governo combateu obrigando a que o vagão que ia à cabeça das carruagens que circulavam fosse carregado de grevistas, guardados à vista por soldados armados, isto para evitar que estas sofressem atentados à bomba; na "noite sangrenta" de 19 de Outubro de 1921, em que vários dos fundadores da República foram fuzilados por soldados da Guarda Republicana e da Marinha, etc.
Contra todo este clima de desordem as reacções dos vários governos que se vão sucedendo, embora violentas, nunca são consequentes; os encerramentos das sedes da União Operária Nacional, fundada em 1914, ou da Confederação da União Geral do Trabalho, fundada em 1919, ambas de tendência anarquista, eram sempre por um período de tempo curto; as suspensões de professores, como a de Salazar e do "grupo de Coimbra", acusados de apoiar a "monarquia do Norte" de 1919, também se resumiram apenas a um período de dois meses, de Março a Abril; o assassino de Sidónio Pais foi libertado durante a "noite sangrenta"; o promotor que deveria acusar os revolucionários de 1925 fez, ao invés, a sua defesa política e os réus foram todos absolvidos.
No entanto, esse relativo apagar das autoridades face às convulsões sociais radica no facto de os republicanos serem herdeiros espirituais da Revolução Francesa, a qual se baseava na "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" e na rapidez com que os governos se alternavam, o que fazia com que as sucessivas políticas fossem inconsequentes.
É de notar que, enquanto o mundo actual caminha para a globalização, no período em que estamos, Portugal, embora esteja sujeito à penetração de ideias do estrangeiro, como o anti-clericalismo, o socialismo, e até, em parte, o próprio "integralismo lusitano", esse fenómeno não atingia as proporções a que estamos habituados; é, aliás, interessante notar que uma das críticas que o grupo da Seara Nova irá fazer aos integralistas é a de que estes, com as suas ideias nacionalistas, ignoravam o mundo exterior, já bem presente através do telégrafo e do telefone. Isso explica que as experiências sociais nos diversos países da Europa de então fossem diversas, pelo que os partidários das diferentes ideologias podiam ter uma esperança razoável de que, desde que fossem suficientemente fortes na defesa das suas convicções, a sua ideologia chegaria ao poder, o que muito contribuiu para a virulência das lutas sociais nessa época.
Mas todos estes movimentos afectavam, sobretudo, as cidades e vilas mais importantes, pois a maioria da população era analfabeta, não podendo votar nem participar em tertúlias literárias. De acordo com o Censo de 1911, 80% da população vivia no campo, muita dela analfabeta - o analfabetismo rondava os 75% da população e era maior nas áreas rurais; e pela legislação aprovada pelo Partido Democrático em 1913 havia sido retirado o voto aos analfabetos, considerados susceptíveis de seguir acriticamente as opiniões do clero.
Por isso, para muitos portugueses todas estas diferenças ideológicas se sentiam mais nos preços e escassez dos produtos do que nos ecos das bombas e das balas, quer verbais, quer propriamente ditas (será excepção, entretanto, o Alentejo, no qual há importantes greves dos jornaleiros) e a opção que lhes irá restar será a emigração para o Brasil, especialmente forte nesse período.


Sociedade Activa e Contestatária na I República. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-09-12].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$sociedade-activa-e-contestataria-na-i>.

terça-feira, 1 de maio de 2012

O primeiro 1º de Maio em Portugal e no Mundo


Chicago - Manifestação a 1 de Maio de 1886





1º de Maio de 1886. Manifestação operária em Chicago termina com mortes e detenções. Três anos depois nascia o Dia do Trabalhador.

No século XIX, a pujança da “Revolução Industrial” conduziu à sujeição dos trabalhadores a condições desumanas de laboração. A necessidade de se produzir o máximo ao mais baixo custo não respeitava idades nem sexos. As organizações sindicais eram incipientes e perseguidas pelas autoridades policiais.

Em 1864 é criada a Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores, em Londres. A iniciativa surge num contexto de união entre líderes sindicais e ativistas socialistas com vista a dar voz às lutas dos trabalhadores e às nações oprimidas. A esta associação se chamou mais tarde a Primeira Internacional Socialista que duraria sete anos. As divisões ideológicas entre as várias facões (sindicalistas, anarquistas, socialistas, republicanos e democratas radicais, entre outras) puseram fim à agremiação, mas deixaram mais explícitas as reivindicações e propostas pelas quais os trabalhadores se deveriam debater. A redução da jornada de trabalho para as 10 horas diárias era uma delas.

Os objetivos saídos desta Internacional tiveram eco no IV Congresso da American Federation of Labor, em Novembro de 1884. As negociações, sucessivamente falhadas com as entidades patronais, fizeram das cidades operárias um barril de pólvora pronto a explodir. Até que, em 1886, no dia 1 de Maio, teve início uma greve geral com a adesão de mais de 1 milhão de trabalhadores em todo o território norte-americano. A reação a esta paralisação foi violenta.

Na cidade de Chicago a repressão policial foi especialmente dura. Ao quarto dia de manifestações (dia 4 de Maio) explodiu uma bomba entre a multidão matando dezenas de trabalhadores e alguns polícias. Deste incidente resultou a prisão de oito líderes do movimento. Quatro foram condenados à morte por enforcamento e os restantes a prisão perpétua. Em 1890, o Congresso americano vota a lei que estabelece a jornada de oito horas de trabalho e três anos mais tarde, depois da reabertura do processo que levou à condenação dos oito operários, conclui-se que a bomba que explodiu em Chicago tinha sido colocada pela própria polícia.

O luto fortaleceu a luta

Três anos depois da condenação dos que ficaram conhecidos como os “Mártires de Chicago” as repercussões sentiram-se na Europa. Assim, em 1889, a Segunda Internacional Socialista decidiu, em Paris, proclamar o 1º de Maio como o Dia do Trabalhador em memória dos que morreram em Chicago.

Curiosos são os títulos de alguns jornais americanos a propósito das manifestações dos trabalhadores. O “Chicago Tribune” dizia na altura: “A prisão e os trabalhos forçados são a única solução adequada para a questão social”. O New York Tribune seguia a mesma linha: “Estes brutos só compreendem a força, uma força que possam recordar por várias gerações”. De sublinhar que nos EUA o chamado Labor Day festeja-se a 3 de Setembro e não a 1 de Maio.

Em Portugal

A decisão da Comuna de Paris, de decretar o 1º de Maio como o Dia Internacional do Trabalhador teve repercussões no nosso país. Diz-nos José Mattoso (in História de Portugal, vol. 5), que houve um reforço da luta do movimento operário português em finais do séc. XIX sendo "em torno da associação e da greve que gravita o próprio movimento operário". Entre 1852 e 1910 realizaram-se 559 greves no nosso país. A subida dos salários, a diminuição da jornada de trabalho e a melhoria das condições de laboração eram as principais exigências dos operários.

Mas, segundo o mesmo autor, o movimento operário alcançava grande força quando "aquelas (associações) a que hoje chamaríamos propriamente «sindicatos» se juntavam com as recreativas, as de socorros mútuos e os centros políticos". Tal ficou demonstrado no 1º de Maio de 1900 que juntou em Lisboa cerca de 40 mil pessoas, numa altura em que "as classes médias ainda viam as organizações de trabalhadores com alguma simpatia".

Durante a I República não se deixou de festejar o Dia do Trabalhador, mas sublinhe-se que um dos primeiros diplomas aprovados, com a instituição do novo regime, dizia respeito ao estabelecimento dos feriados nacionais e destes não constava o dia do trabalhador. Em 1933 é decretada a "unicidade sindical" e o "controle governamental dos sindicatos" esmorecendo um movimento operário que só ganharia novo ânimo na década de 40. Durante o Estado Novo as manifestações no Dia do Trabalho (e não do Trabalhador) eram organizadas e controladas pelo Estado.

O primeiro 1º de Maio celebrado em Portugal depois do 25 de Abril foi a maior manifestação alguma vez organizada no país. Só na cidade de Lisboa juntaram-se mais de meio milhão de pessoas. Para muitos, foi a forma dos portugueses demonstrarem a sua adesão ao 25 de Abril, que uma semana antes restituía ao país a democracia.

Por Liliana Filipa Silva - jpn@icicom.up.pt
Publicado: 30.04.2004