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domingo, 11 de setembro de 2016

Há 500 anos Leonardo da Vinci atravessou os Alpes de mula para chegar à sua última casa


O palácio

O quarto de Leonardo

O atelier de Leonardo

Levava consigo a célebre Mona Lisa e milhares de desenhos e outros manuscritos. O mestre da Renascença passava, assim, a ser o pintor do rei de França. O seu atelier no palácio de Francisco I já está aberto ao público.


Em Setembro faz 500 anos que Leonardo da Vinci, um dos mestres incontestados do Renascimento, chegou a casa do seu último mecenas, o monarca francês Francisco I. Foi no Palácio de Clos Lucé, no Vale do Loire, a escassos 700 metros do castelo real de Amboise, que o artista italiano viveu os últimos três anos, dividindo o seu tempo entre a arte e a ciência. Trabalhava nos jardins e no atelier, rodeado de algumas das pinturas que fez questão de manter até ao fim, entre elas a célebre Mona Lisa, o retrato que ainda hoje continua a intrigar académicos e curiosos, dando origem a um sem-número de teorias, umas mais fundamentadas do que outras. 

Diz-se que recebia com frequência o rei, que para ali chegar percorria um túnel subterrâneo que liga o castelo ao palácio de meados do século XV e assim mantinha discretas as suas visitas ao pintor.
As divisões que Leonardo (1452-1519) terá ocupado em Clos Lucé estão agora totalmente restauradas. Desde Junho, é possível percorrer três novas salas em que foi recriado o ambiente de trabalho do mestre, e que estavam até aqui encerradas. O seu atelier, a biblioteca e o gabinete de curiosidades (um espaço onde arte e ciências naturais se encontravam, “antepassado” daquilo a que hoje chamamos “museu”) foram recompostos com todo o cuidado, procurando reproduzir mobiliário, desenhos, frescos e até a luz ao mais ínfimo pormenor, recorrendo a documentação da época.
Sobre a mesa vêem-se agora pigmentos vários – sanguínea e terra de Siena, entre muitos outros – e utensílios para trabalhar em papel e metal: há compassos e réguas, penas de ganso e pontas de prata, mas há também velas, lupas e pontas-secas que usava, certamente, para a gravura. Nas prateleiras estão arrumadas reproduções dos livros que nunca deixava para trás, grossos volumes em papel velino de obras de cientistas-historiadores como Claudio Ptolomeu e Plínio, o Velho.
François Saint-Bris, presidente do Palácio de Clos Lucé, faz parte da família que em 1854 comprou esta propriedade carregada de história e abriu as suas portas ao público. Depois de 15 anos de trabalhos, que custaram 12 milhões de euros, inteiramente autofinanciados (este palácio-museu recebe 360 mil visitantes por ano), a última casa de Leonardo, a mesma onde o rei francês passou boa parte da infância, tem agora uma atmosfera muito próxima da que teria no Renascimento, disse ao diário francês Le Monde o presidente e proprietário: “Era preciso devolver a Leonardo o que lhe era devido – o espírito e a aparência do século XVI.”
As obras de conservação e restauro que permitem mostrar Clos Lucé como ele seria quando o mestre da Renascença ali viveu e trabalhou fazem parte de um ambicioso projecto de intervenção que começou em 2003 com o restauro das fachadas do palácio e da capela e a criação do Parque Cultural Leonardo da Vinci, com 20 modelos das suas máquinas à escala natural. Seguiram-se melhoramentos no exterior do edifício e nos jardins – em 2008 foi inaugurado um espaço com muitas das mais de 300 espécies botânicas desenhadas pelo artista – até que, nos últimos seis anos, os trabalhos passaram a concentrar-se no interior.
O quarto onde terá morrido e de onde se via muito bem o castelo do rei ficou terminado em 2011, enriquecido com preciosos móveis da época, escreve o diário francês, chamando a atenção para um contador napolitano em ébano e marfim que aparece em grande destaque nas fotografias do site oficial do palácio. Quatro salas na cave mostram o Leonardo-engenheiro em 40 modelos das suas máquinas construídos a partir dos esboços e das anotações que deixou. São aeroplanos, tanques, helicópteros, automóveis, máquinas visionárias que reflectem o génio de um homem que viveu sempre à frente do seu tempo e que, muito provavelmente, gostaria de ver instalado nos domínios de Clos Lucé, recentemente acrescentados, o centro de investigação em arte e ciência que a família Saint-Bris, segundo o jornal britânico The Telegraph, planeia ali ter construído até 2025.
Três pinturas na bagagem
Leonardo da Vinci tinha 64 anos quando atravessou os Alpes de mula, carregando três das pinturas em que trabalhou até morrer, a 2 de Maio de 1519. Segundo os relatos conhecidos, tê-lo-ão acompanhado nessa longa viagem o seu fiel criado milanês, Battista de Villanis, e Francesco Melzi, o discípulo dilecto a quem deixaria em testamento os seus manuscritos e desenhos. É que, além das pinturas – Mona Lisa, São João Baptista e A Virgem e o Menino com Santa Ana –, Leonardo levava consigo milhares de notas e esboços sobre astronomia, hidráulica, anatomia, arquitectura, cosmologia, geologia e até paleontologia reunidos nos seus famosos cadernos, hoje espalhados por várias instituições em todo o mundo, como as bibliotecas Britânica (Londres) e Ambrosiana (Milão), o Museu Victoria & Albert (Londres) e o Castelo Sforzesco (Milão), a impressionante casa dos duques de Milão (um deles, Ludovico Sforza, foi o grande patrono do mestre da Renascença).


sábado, 22 de agosto de 2015

Holocaust-Mahnmal (Memorial do Holocausto) em Berlim

Caminhando entre os blocos do Memorial do Holocausto
 Clicar nas imagens para as ver melhor

Blocos de tamanhos diversos

Holocaust-Mahnmal (Memorial do Holocausto)

Memorial aos Homossexuais Mortos pelos Nazistas

O Memorial aos Judeus Mortos da Europa ou, como é mais comumente chamado, Memorial do Holocausto, é, como o nome já indica, um memorial dedicado aos 6 milhões de judeus mortos durante o regime nazista. 
Está localizado no coração de Berlim, a um quarteirão do Portão de Brandenburgo, entre a Embaixada dos Estados Unidos, parque Tiergarten e mais adiante a Potsdamer Platz.
A ideia de construir um memorial para as vítimas do holocausto nasceu já em 1988 e nos anos seguintes foi discutido sobre a local onde deveria ser construído, a sua forma e mensagem que deveria transmitir. Uma licitação pública foi feita e centenas de propostas para um memorial foram recebidas. Somente em junho de 1999, o parlamento alemão aprovou a construção do Memorial do Holocausto próximo ao Portão de Brandenburgo. O projeto vencedor para o Memorial do Holocausto foi do arquiteto americano Peter Eisenman.  
A sua construção foi iniciada em abril de 2003 e em dezembro de 2004 foi concluída. Em 10 de maio de 2005 o monumento foi inaugurado, fazendo parte das celebrações dos 60 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, e dois dias depois foi aberto ao público.

O memorial foi construído numa área de 19.000 metros quadrados que antes fazia parte da “faixa da morte” quando o muro de Berlim existia.  
O monumento consiste de 2.711 blocos de concreto cinza escuro, quase preto, distribuídos em fileiras paralelas sob uma superfície ondulada. Estes blocos são sóbrios, não contém nenhum texto, nome ou foto. Os blocos são de 2,38m de comprimento por 0,95m de largura e a altura varia de 0,2m até 4,8 metros. 
Muitos dos caminhos formados também são ondulados, o que para algumas pessoas causa a sensação de instabilidade. E parece que de fato esta foi a intenção do arquiteto, que no texto do projeto descreveu que os blocos foram desenhados “para produzir uma atmosfera confusa e intranquila, e toda a escultura visa representar um sistema supostamente ordenado que perdeu o contato com a razão humana”.
Faz parte ainda do memorial, uma sala subterrânea com 800 metros quadrados chamada de “Local da Informação” (ou Ort der Information em alemão)  onde estão documentos sobre a perseguição e o extermínio dos judeus. A exposição mostra detalhes biográficos de pessoas e famílias que foram vítimas do holocausto.

A visita ao memorial é gratuita e os caminhos entre os blocos de concreto podem ser acessados por diversos lados e pode-se caminhar livremente entre eles. 
Esta parte do memorial é sempre acessível, ou seja, é aberta dia e noite. O “Local da Informação” é aberto das 10:00 as 20:00hs, nos meses de abril a setembro e das 10:00 as 19:00hs, de outubro a março. Às segunda-feiras fica fechado.

O Memorial do Holocausto é controverso. Muita gente não gosta da estética, diz que lembra um cemitério com lápides. Também já sofreu muitas críticas por causa do seu tamanho, forma e por só lembrar as vítimas judias do holocausto, esquecendo outras minorias que também foram perseguidas pelos nazistas, como por exemplo,os sinti e roma. Esta crítica levou a decisão de construir um pequeno memorial para estas vítimas. O memorial para os sinti e roma mortos pelos nazistas está sendo construído no Simsonweg, no parque Tiergarten (entre o Portão de Brandenburgo e o Reichstag) e é uma fonte onde diariamente uma flor natural será colocada. Também no Tiergarten, em frente ao Memorial do Holocausto há um memorial dedicado aos homossexuais perseguidos durante o regime nazista. Trata-se de um memorial simples (como se pode ver na foto acima), um único bloco de concreto (que lembra os blocos do Memorial do Holocausto) que tem 3,60 metros de altura e 1,90 de largura com um monitor embutido em uma janela e que mostra uma cena curta onde dois homens se beijam.


Endereço: Cora-Berliner-Straße 1 – Tiergarten, 10117 Berlim



quarta-feira, 2 de julho de 2014

Visita guiada à sinagoga do Porto


Conímbriga

Fabuloso trabalho sobre Conímbriga!
Montagem audiovisual com a reconstrução em 3D dos edifícios mais importantes desta cidade romana.
A Casa de Cantaber, a Casa dos Repuxos, o Fórum, Termas, Ínsula, os banhos romanos... Formidável!




domingo, 23 de dezembro de 2012

O mistério do Natal na Pintura portuguesa

Anunciação. Bento Coelho (c. 1655)

Anunciação. Josefa de Óbidos (1676)

Visitação. Vasco Fernandes (1506-1511)

Visitação. António Manuel da Fonseca (1855)

Visitação. Maria Aurélia Martins de Sousa (Séc. XIX-XX)

Natividade. Paula Rego (2002)

Adoração dos Pastores. Gregório Lopes (Séc. XVI, 2.º quartel)

Adoração dos Pastores. Bento Coelho da Silveira (Séc. XVII, 2.ª metade)

Adoração dos Reis. Vasco Fernandes, Francisco Henriques (1501-1506)

Circuncisão. Oficina de José do Avelar Rebelo (Séc. XVII)

Repouso na Fuga para o Egipto. André Gonçalves (Séc. XVIII)


Menino entre os Doutores. José do Avelar Rebelo (c. 1635)


O mistério do Natal encontra-se expresso com profundidade poética e teológica nas palavras do «Prólogo» do Evangelho de São João: «No começo a Palavra já existia: a Palavra estava voltada para Deus e a Palavra era Deus. [...] E a Palavra fez-se Homem e habitou entre nós.» (1,1.14) O Verbo/Palavra, que é o Filho no seio da Santíssima Trindade, armou a Sua morada entre nós, fazendo-se carne da nossa carne, homem para a morte como nós. É ainda São João que nos refere a finalidade desta vinda de Deus, em Jesus: «Ninguém jamais viu a Deus: quem nos revelou Deus foi o Filho único que está junto do Pai,» (1,18) Dar a conhecer o Pai, o Seu rosto bondoso e compassivo, o Seu coração cheio de verdade, é a razão para que o Filho venha ao nosso encontro e fale na nossa linguagem. Conhecer o Pai é a vida eterna: «a vida eterna é esta: que Te conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo». (João 17,3) Assim sendo, mostrar o Pai, transparente desde a Sua carne, do nascimento à morte na cruz, para fazer os homens participantes deste amor e da vida eterna, é a motivação do mistério do Natal de Jesus.

A manifestação do Senhor que faz Sua a nossa carne é uma realidade inaudita na história. Podemos compreender melhor esta novidade imensa se compararmos, por exemplo, o acontecimento cristão com o pensamento clássico grego em relação à epifania das divindades. Numa passagem significativa da Ilíada de Homero, em que se adensa dramaticamente a guerra entre os Aqueus e os Troianos pela entrada em cena de Aquiles e dos deuses do Olimpo, Hera, esposa de Zeus, indica que «tremendos são os deuses quando aparecem às claras». (XX, 132) Em contraposto ao pensamento grego, o Deus bíblico, ao aparecer às claras em Jesus de Nazaré, revela-Se não tremendo e terrível na Sua magnificência e poder, mas pequeno e próximo do ser humano, revelando o mistério de Deus e do homem e a vontade real de fazer este «participante da natureza divina». (2 Pedro 1,4)

O que São João expressava através das palavras da teologia e do silêncio podemos encontrar igualmente através das narrativas dos Evangelhos de São Mateus e de São Lucas. Foi sobretudo aí que os artistas se basearam para representarem o mistério do nascimento de Jesus Cristo, embora não possamos deixar de mencionar os evangelhos apócrifos, as homilias de São Bernardo, as Meditationes do Pseudo-Boaventura, as Revelationes de Santa Brígida da Suécia, e, sobretudo, a Legenda Aurea de Voragine. A Sagrada Escritura é, sem dúvida, a fonte principal de inspiração dos artistas que a tomam como uma espécie de «dicionário imenso» (P. Claudel) e de «atlas iconográfico» (M. Chagall) para as suas obras. Nos textos bíblicos vemos relatados os nove episódios principais relativos à Natividade e à infância de Jesus que foram representados pela arte: a Anunciação, a Visitação, a Natividade, a adoração dos pastores, a adoração dos Magos, a circuncisão, a apresentação no Templo, a fuga para o Egipto e o encontro do Menino entre os doutores em Jerusalém. É sempre o mistério do Verbo feito carne, em visibilidade histórica e salvífica, que é expresso pela arte e que veio a possibilitar a arte cristã.

A partir do século III, nos testemunhos ainda incipientes de uma arte cristã, encontramos já a representação dos temas relacionados com o ciclo da Natividade. É sobretudo a cena dos Magos que aparece a decorar as paredes das catacumbas romanas e os sarcófagos. No século IV, a Natividade toma-se, efectivamente, um dos temas mais frequentemente representados na arte religiosa, como o demonstra o díptico em marfim e pedras preciosas do século V conservado na Duomo de Milão ou os mosaicos do Baptistério de Veneza. A iconografia da Natividade centra-se, então, sob influência dos modelos bizantinos, numa gruta utilizada como abrigo para os animais, com Maria deitada, José absorto num ângulo, ao longe os anjos que trazem o anúncio aos pastores, e os Magos. O centro da composição é constituído pelo Menino Jesus, envolto em faixas, como um morto, deposto num berço em forma de sarcófago, a preanunciar simbolicamente a Sua morte e ressurreição. A representação é enriquecida com particulares traços dos evangelhos apócrifos, como o banho do Menino, a sublinhar a realidade da Encarnação do Verbo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Para o imaginário da Idade Média será determinante a iniciativa de São Francisco de Assis de fazer reviver dramaticamente o nascimento de Belém, convidando todo o povo de Greccio (Rieti) a adorar a Hóstia consagrada colocada numa manjedoura em tomo da qual estava um boi e um jumento. O costume espalhou-se por todas as catedrais, igrejas e mosteiros na Europa medieval, começando a ser montado também na casa dos reis e nobres desde o Renascimento, atingindo o auge, no contexto português, no século XVIII, a partir do qual se alicerçou essa tradição em cada casa. Devido ao influxo da espiritualidade franciscana, mas também das revelações de Santa Brígida da Suécia, a iconografia da Natividade mudou o seu esquema, sendo colocado em primeiro plano o Menino, frequentemente no chão, a sublinhar a humanidade, enquanto Maria, José, os pastores e os Magos encontram-se de joelhos, em posição orante diante da criança.

Em Portugal, apesar da presença de uma arte cristã desde os primeiros tempos, no que diz respeito aos temas que fazem o ciclo da Natividade só os encontramos, em primeiro lugar, no românico e no gótico, esculpidos nos tímpanos dos portais principais das igrejas ou adornando capitéis das colunas que sustentavam os templos. Um caso paradigmático é o dos capitéis da Igreja de Leça do Balio, do século XIV, que são o mais completo conjunto figurativo de um templo românico português. Num dos capitéis figura a adoração do Menino: a Virgem segura o Menino, encontrando-se um pastor imediatamente ao lado, apresentando a sua oferta. Sucedem-se então os reis Magos com as oferendas na mão. No campo da pintura figurativa, por seu lado, não existe em Portugal um único exemplo que possa ser atribuído ao românico, mesmo que tardio, e escassos ao gótico. Este facto não se deve certamente a uma não existência pictórica de cenas ligadas ao ciclo da Natividade de Jesus, mas tão-somente a uma ausência de testemunhos entre nós devido, provavelmente, ao desgaste e desaparecimento de obras com o passar dos séculos. O século XV será marcado pela presença de Nuno Gonçalves e da sua oficina, que se afirma com uma plena autonomia de valores em relação à pintura que em Portugal se fez no decurso do Quatrocentos.

Na viragem do século XV para o século XVI inaugura-se no campo da pintura portuguesa um período áureo, tanto na quantidade como na qualidade da produção nacional. Numa nova conjuntura nacional, possibilitada pelos Descobrimentos e pelo desejo de uma renovação estética, são produzidos ou renovados os retábulos de algumas sés portuguesas ou conventos, que proliferam. Esses retábulos de sabor renascentista são produzidos sobretudo nos primeiros decénios do século XVI, como os das Catedrais de Viseu e de Lamego, da autoria de Vasco Fernandes, o da Igreja do Convento de São Francisco, em Évora, empreitada de Francisco Henriques, ou ainda o retábulo de São Bento, obra atribuída a Gregório Lopes. Nestes retábulos, a representação pictórica do ciclo da Natividade é uma constante, espelhando a forte presença da devoção ao Senhor e a Maria, sua Mãe.

A partir de 1550 até cerca de 1620, Portugal sintonizou a sua linguagem pelos novos cânones do Maneirismo vindo de Itália. O impacto do Concílio de Trento será significativo nas artes, pois se por um lado as dinamiza e apoia, por outro introduz rígidos padrões iconográficos a fim de que sejam expressão da fé verdadeira e veículo de catequização num tempo de escassa alfabetização. Os retábulos renascentistas das igrejas já não expressam a mensagem de acordo com o sentido estético moderno, e, nesse sentido, serão substituídos por outros de sabor maneirista. O ciclo da Natividade é, então, um dos grandes temas privilegiados da pintura na medida em que expressava o centro da fé que é o mistério da Encarnação do Senhor, eixo em tomo do qual se vem a compreender o mistério da Igreja, dos Sacramentos, do Homem e da sua salvação. O decoro impõe, agora mais do que nunca, que as roupas escondam o corpo e até o Menino no Presépio deve figurar, ainda que desnudo, de um modo que não ofenda os ideais.

Os temas mais representados relativos à Natividade e à infância de Jesus são, sobretudo, a Anunciação, a adoração dos pastores e a dos Magos como momentos fulcrais deste ciclo enquanto decisivos pela densidade teológica e pela piedade que suscitam. Menos representado, no entanto, será o tema da circuncisão do Menino - pelas razões de decoro acima mencionadas - mas também o da fuga para o Egipto e o do encontro do Menino no Templo entre os doutores. Dentro da corrente maneirista devemos mencionar António Campelo que, apesar de uma escassa produção, representou a nível pictórico duas belíssimas Adorações dos Pastores, ou Simão Rodrigues, verdadeiro fa presto, que deixou importante obra por todo o país.

Os séculos XVII e XVIII serão marcados, em geral, a nível estético pelo Barroco. Os retábulos portugueses, em verdade, a partir de finais do século XVII, albergam uma estrutura escalonada a que se convencionou chamar de "trono". É o espaço para a adoração eucarística, promovida e renovada com o Concílio Tridentino. Mas a pintura de temática religiosa permanece, exposta nas paredes dos templos e nas casas religiosas com o intuito de catequizar pela cor e pelo exemplo o povo crente. Os temas religiosos continuam a dominar o horizonte dos artistas e dos mecenas que lhes encomendam trabalhos, e o ciclo na Natividade é continuamente recriado seguindo os padrões iconográficos já mencionados dentro de uma estética renovada. André Reinoso, Bento Coelho ou Josefa de Óbidos marcam o século XVII, enquanto André Gonçalves, Francisco Vieira de Matos (Vieira Lusitano), Pedro Alexandrino de Carvalho ou Domingos António de Sequeira, o século XVIII.

Os séculos XIX e XX são marcados por várias correntes estéticas e pelo abandono progressivo dos temas religiosos na pintura. A Revolução Francesa (1789), o liberalismo e o laicismo que dela decorrem, levaram a que os artistas se exprimissem não apenas dentro das temáticas religiosas, mas também dentro de outros temas e a partir de outras sensibilidades estéticas. Os episódios referentes ao ciclo da Natividade, no entanto, não são esquecidos pela forte carga humana que evocam e pela ternura e encanto que expressam. Assim, não podemos esquecer nomes como António Manuel da Fonseca, Aurélia de Sousa, Almada Negreiros, Jorge Barradas, mas também, e ainda entre nós, Emília Nadal, Sousa Araújo e Paula Rego, entre outros.

O ciclo da Natividade foi um dos principais temas representados pelos pintores portugueses ao longo dos séculos como testemunho eloquente deste amor português à Natividade do Senhor e à Sua Mãe. Neste livro não estão contempladas, dada a profusão de obras de excelente qualidade, todas as pinturas, nem talvez as mais significativas do contexto português. No entanto, a selecção que ousámos parece-nos ampla e intensa, dando também a conhecer alguns dos autores, estilos e iconografias. O nosso desejo é suscitar olhares contempladores da pintura religiosa como arte que diz o indizível.

As imagens da Natividade possuem um forte significado espiritual e teológico. Num famoso discurso, o Papa São Leão Magno convida a alegrarmo-nos pelo nascimento do Senhor enquanto o Natal é «uma alegria comum». É toda a humanidade, santa e pecadora, que aflora na representação da Natividade na arte. Todos estamos representados neste verdadeiro teatro do mundo, com a nossa história, as angústias e esforços.

Seguindo o método de oração de Santa Teresa de Jesus, que sugeria no seu Caminho de Perfeição fazer-se ajudar na oração por uma imagem do Senhor, representado na Sua humanidade ou aquele de Santo Inácio de Loyola, que nos Exercícios Espirituais recomendava fazer preceder cada meditação espiritual de uma "composição do lugar", imaginando nos mínimos detalhes a cena evangélica, possamos transformar a visão destas obras de pintura portuguesa em ocasião de oração e de contemplação.

Tiago Alexandre Asseiceira Moita
In
O Mistério do Natal na pintura portuguesa, ed. Paulus, 2009

 

sábado, 28 de julho de 2012

Os Jogos Olímpicos nasceram na Grécia



Um vídeo muito interessante sobre estes Jogos na Antiga Grécia...


...e outro com uma excelente reprodução do que seria a vida desses atletas olímpicos:



Informação geral sobre esses Jogos:


Em 776 a.C., após deixar para trás seis adversários, o grego Corobeu venceu a única prova daquela que ficaria conhecida como a primeira edição dos Jogos Olímpicos. Diferentemente do que se imagina, não foi uma corrida de longa distância: o cidadão da cidade de Elis percorreu apenas os 192 metros de extensão do estádio de Olímpia, na península do Peloponeso. A ideia de que a maratona foi o primeiro esporte olímpico, portanto, não passa de um mito.
Segundo esse mito, em 490 a.C., durante o período de guerras entre gregos e persas, um corredor chamado Fidípides teria atravessado quase 100 quilômetros entre Atenas e Esparta para buscar ajuda. Outra versão conta que um homem chamado Eucles percorreu a distância entre Atenas e acidade de Maratona para participar da batalha. Com a vitória dos gregos, ele retornou a Atenas para dar a notícia, um esforço de 40 quilômetros entre ida e volta que teria custado sua vida.

Nigel Spivey, professor de Artes Clássicas e Arqueologia na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e autor de The Ancient Ofympics (“As Olimpíadas antigas”, inédito em português), afirma que o equívoco pode ser esclarecido ao se analisar a formação social da Grécia antiga. “Isso que chamamos de corrida de longa distância nunca tinha sido considerado esporte, tendo em vista que o trabalho de levar mensagens entre as cidades era função de servos e escravos.”

Na democracia grega, apenas homens livres eram considerados cidadãos. Entre seus direitos estavam as decisões políticas e a participação no exército. Essa natureza bélica, enraizada na própria mitologia, também se relaciona com a atenção dada ao corpo. A prática constante de atividades físicas era a responsável por mantê-los preparados para as guerras – e acabou dando origem às Olimpíadas. As cidades-estados só alcançavam esse status se oferecessem para a população um local para a prática de esportes – o estádio. A partir do século 8 a.C., a Grécia estabeleceu um calendário de competições para motivar seus “atletas”.

A primazia de Olímpia sobre as demais cidades gregas na organização dos jogos está fundamentada na mitologia. Filho de Zeus, o herói Hércules teria inaugurado os Jogos Olímpicos como forma de comemorar o sucesso de um de seus 12 trabalhos: a limpeza dos estábulos de Audias, rei de Elis. Concretamente, sabe-se que essa lenda foi representada em Olímpia pelo escultor Fídias, que, em 440 a.C., foi o responsável pela construção do mais importante templo em homenagem a Zeus, que se transformou numa das Sete Maravilhas do mundo antigo. A estátua fez com que a cidade se tornasse o principal ponto de encontro dos festivais religiosos. E a proximidade do estádio fez com que Olímpia se destacasse como palco dos esportes.

Por mais de 40 anos, a participação foi restrita a atletas da região. Mas, entre 732 a.C. e 696 a.C., a lista de vitoriosos passou a incluir cidadãos de Atenas e Esparta. E, a partir do século 6 a.C., os jogos passaram a receber inscrições de qualquer homem que falasse grego, fosse ele da Itália, do Egito ou da Ásia. “Participar de torneios como aqueles não era, de fato, apenas competir”, afirma Nigel Spivey. “Os atletas dirigiam-se para as Olimpíadas antigas com o interesse de ganhar e ser reconhecidos como os melhores.”

Ao longo dos anos, diversas cidades-estados passaram a realizar suas próprias disputas, que também carregavam uni forte viés religioso. Como forma de homenagear a deusa Atena. os chamados Jogos Panatenáicos foram instituídos em Atenas em 566 a.C., mas acabaram ofuscados por outros torneios. Esse novo circuito de competições, conhecido como Jogos Sagrados, era sediado em Olímpia e Delfos – a cada quatro anos – e em Corinto e Nemea – a cada dois anos.
Embora a primeira Olimpíada tenha acolhido apenas uma disputa, novas categorias foram incluídas ao longo dos mais de mil anos do evento como forma de disputa política e militar. As corridas de biga, inicialmente com quatro cavalos, inauguraram um novo espaço de competições, o hipódromo, em 680 a.C., data da 25a edição dos jogos. Diversos personagens históricos protagonizaram embates nessa modalidade. O político Alcibíades, amigo e entusiasta de Sócrates, participou da corrida de 416 a.C. com nada menos que sete bigas. Segundo o historiador Tucídides, conquistou o primeiro, o segundo e o quarto lugares. Em 67 d.C., já sob o domínio romano, os gregos assistiram ao imperador Nero ser coroado vencedor mesmo sem ter cruzado a linha de chegada com sua biga puxada por dez cavalos. Embates corporais também fizeram parte do calendário olímpico da Antiguidade. Uma das modalidades, conhecida hoje como luta greco-romana, já fazia parte do treinamento físico dos jovens da Grécia desde o século 10 a.C. Os primeiros vestígios da inclusão dessa luta numa Olimpíada datam de 400 anos depois: foram encontrados em fragmentos de uma placa de bronze. Para vencer a luta, não havia contagem de tempo. As categorias eram divididas por idade. Era preciso jogar o oponente ao chão pelo menos três vezes — sem quebrar os dedos do adversário.

O boxe também foi disputado. Um busto representando um lutador de 330 a.C. dá conta da violência da modalidade – há inúmeras cicatrizes na imagem de bronze. Não havia luvas, rounds ou regras claras para aliviar o sofrimento dos competidores. O orador João Crisóstomo registrou em dois discursos que um tal Melancomas, morador de Caria (localizada na costa da Ásia Menor), teria sido o maior pugilista do primeiro século da era cristã.

A luta mais cruel da competição, porém, foi introduzida no calendário cerca de 100 anos depois da primeira Olimpíada. Para que se tenha ideia, os combatentes do chamado pancrácio eram punidos pelos juízes só em caso de mordidas ou quando um deles arrancasse o olho do adversário. O vencedor acabava venerado pela platéia mesmo quando provocava a morte do oponente.

Conjunto de cinco categorias, o pentatlo era disputado em provas de corrida, salto, luta, arremesso de disco e arremesso de dardo. Respectivamente, corridas e lutas abriam e encerravam o conjunto de provas – com algumas regras próprias, ambas categorias também eram disputadas fora do pentatlo. Na corrida, a distância mais curta envolvia um trajeto de cerca de 200 metros, equivalente ao comprimento dos estádios.
Na mais longa, os atletas disputavam a liderança em 24 voltas pelo perímetro do local ou 5 mil metros.

Os jogos da Antiguidade eram violentos. Muitas vezes, serviram para simular batalhas militares. A morte de atletas chegou a ser registrada. A despeito das condições climáticas e mesmo de higiene, sabe-se que os atletas competiam nus. Historiadores antigos registram que essa tradição teria começado em 720 a.C., quando um sujeito chamado Orsipos, de Megara, venceu uma prova de corrida ao notar que sua performance seria melhor se ele abandonasse suas roupas pelo trajeto. A própria palavra “ginástica” tem o termo “nudismo” em seu radical grego gymnos – o que explicaria a proibição de mulheres, fosse como atletas, fosse como espectadoras.

Por mais sangue que tenha sido derramado, os atletas jamais abriram mão de alguma ambição pela vitória. Nem mesmo durante as guerras, ou quando a Grécia esteve sob domínio dos macedônios e dos romanos, as competições esportivas deixaram de ser realizadas. Os jogos, contudo, entraram em declínio na segunda metade do século 4.

Durante o domínio do imperador Teodósio, em 380 o cristianismo foi anunciado como religião oficial do Império Romano, fazendo com que, 13 anos depois, todos os centros esportivos e religiosos que abrigavam festas pagãs fossem fechados. Era o fim dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, que só viriam a ganhar uma versão moderna cerca de l 500 anos mais tarde.

Há menos diferenças entre os Jogos Olímpicos atuais as competições organizadas pelos gregos na Antiguidade do que se imagina. Tudo que aparenta ter sido criado no esporte no século XX já era conhecido pelos filhos de Olímpia: treinamento intensivo, alimentação controlada, transferências, profissionalismo etc. E o dinheiro já ocupava um lugar central. Desde a organização dos primeiros Jogos os atletas foram remunerados. Quando tais competições se transformaram em disputas entre as cidades-estado, valendo o prestígio nacional ou local, elas assumiram o papel de verdadeiras patrocinadoras. Mantinham colégios de atletas e, quando não selecionavam um campeão, tratavam de comprá-lo no estrangeiro. Em Atenas, em 580 a.C., Sólon promulgou uma lei dispondo que cada vencedor olímpico .recebesse 500 dracmas. Levando em conta que um carneiro valia cerca de 1 dracma, a soma era considerável. À parte isso, os campeões adquiriam status e privilégios particulares como a dispensa de pagarem impostos.

A ambição das cidades passou a impelir os atletas à vitória. Eles contavam com a possibilidade de treinar continuamente e de se especializar a fim de multiplicar as chances de sucesso. E adotavam dietas especiais. Os lutadores sujeitavam-se a uma superalimentação perigosa. Muitos, como Mílon de Crotona, faziam uma dieta à base de carne. O corredor Astilo de Crotona preconizava, pelo contrário, alimentação leve. Treinadores célebres como Iço de Tarento (século IV) recomendavam tratamentos científicos e médicos.

Seguindo o exemplo de Atenas, as demais cidades começaram a oferecer aos seus campeões a soma considerável de 5 talentos (um talento valia 6 mil dracmas). O atleta laureado era sustentado vitaliciamente pela cidade. Na primeira metade do século IV a.C, o vencedor da corrida do estádio recebia 50 ânforas de azeite (que valiam aproximadamente R$ 12.500,00); o vencedor no pugilato (ancestral do boxe) ou no pancrácio (prova que combinava a luta com o pugilato) ganhava 30 ânforas (R$ 7.500,00); o vencedor no pentatlo (200 metros, 1.500 metros, salto em distância, lançamento de disco e de dardo), 40 ânforas (R$ 10 mil); e o vencedor da corrida de carros de dois cavalos, 140 ânforas (R$ 35 mil). Um campeão olímpico podia receber da cidade renda mensal de 200 dracmas.

QUATRO LENDAS SOBRE AS ORIGENS DOS JOGOS
Existem várias lendas sobre o nascimento dos Jogos Olímpicos. Contava-se que Zeus os criara quando de sua vitória sobre os titãs. Também se dizia que, no século IX a.C., a peste devastara o Peloponeso e Ifitos, rei de Elida, havia estabelecido os Jogos para apaziguar os deuses. Outros historiadores pretendiam que os Jogos tinham chegado de Creta pelas mãos do sacerdote Héracles, no século XV a.C. Héracles teria disputado a primeira corrida com seus três irmãos. Outros, enfim, consideravam Pélops o verdadeiro criador. Apaixonado por Hipodâmia, a filha do rei de Pisa, ele precisava escapar à desconfiança do rei, que matava todos os pretendentes da filha. Tendo subornado o cocheiro que sabotou o carro do rei, matando-o, instituiu os Jogos Atléticos em Olímpia para comemorar seu casamento.

A importância das recompensas transformou o espírito dos Jogos. A introdução das corridas de carros nas provas olímpicas e o sustento dos cavalos, particularmente oneroso, implicavam a criação de estrebarias de propriedade dos cidadãos ricos. Os próprios atletas se vendiam a quem pagasse mais. O cretense Sotades, que venceu a corrida de daulichos (4.700 metros) nos XCIX Jogos Olímpicos (384 a.C), aceitou correr por Éfeso quatro anos depois. Os cretenses o puniram, exilando-o. Astilo, de Crotona, cidade habituada a conquistar a maior parte dos prêmios olímpicos, ganhou, em 488 a.C., a corrida de 600 pés e o diaulo (corrida de 400 metros) e se apresentou nos Jogos seguintes como cidadão de Siracusa.

Com o desenvolvimento do profissionalismo, as escolas de esporte e os ginásios multiplicaram-se. Os pedótribas (professores de educação física) descobriam as qualidades dos futuros campeões a partir dos 12 anos de idade. Esses treinadores particulares, às vezes ex-atletas, í eram cada vez mais bem remunerados. Assim, Hippomachos cobrava l 100 dracmas pelo curso. Os atletas i eram criteriosamente selecionados, e todos cobiçavam o título de periodônico, de vencedor dos Jogos Olímpicos. E por ele se dispunham a tudo. Em 388 a.C., na XCVIII Olimpíada, constatou-se o primeiro caso de corrupção: o pugilista Eupolos comprou três adversários, dentre os quais o portador do título. O senado de Olímpia impôs uma multa aos quatro homens e, com o dinheiro obtido, mandou erguer seis estátuas de bronze de Zeus, as chamadas zanes, que foram dispostas no bosque de Altis. Na base da primeira, inscreveu-se: “Não é com dinheiro, e sim com pernas rápidas e um corpo robusto que se alcança a vitória de Olímpia”. Em 332 a.C., Calipo, atleta ateniense, subornou seus adversários. Como eles se recusaram a pagar a multa, todos os atenienses foram excluídos dos Jogos.
Milênios antes de se tomar um espetáculo televisivo, a inauguração dos Jogos Olímpicos já era objeto de suntuoso cerimonial. Os atletas admitidos em Olímpia caminhavam dois dias de Elis a Olímpia, guiados pelos helanódices (juízes).

O cortejo se detinha diante do altar de Zeus, o mais venerado dos deuses. Os sacerdotes lhe ofereciam uma hecatombe (o sacrifício de 100 bois). Depois os gregos cantavam e dançavam em torno ao altar. Nos arredores, os mercadores anunciavam seus produtos à multidão; os turistas acampavam em barracas ou ao ar livre; as personalidades se mostravam. Faziam-se as apostas enquanto os atletas prestavam juramento, erguendo a mão sobre o altar, comprometendo-se a combater com dignidade e respeito às leis. Na cercania do estádio, instalavam-se os vendedores de suvenires e bebidas, as mulheres encarregadas da administração e as prostitutas.

No começo, o festival durava apenas um dia. A festa foi crescendo e, em 520 a.C., o programa dos Jogos Olímpicos estava constituído. O primeiro dia dedicado às cerimônias; o segundo, às provas eliminatórias de corrida a pé. Quarenta mil espectadores se acomodavam nas arquibancadas. O terceiro dia dedicava-se ao pentatlo; o quarto, à luta, ao pugilato, e ao pancrácio; o quinto, às finais das corridas a pé; o sexto, às corridas de cavalos. Nos séculos V e iy o vencedor não era mais o cocheiro, e sim o proprietário dos cavalos. No sétimo dia, realizavam-se as cerimônias de encerramento, com um cortejo formado pelos juízes, os vencedores, as autoridades de Elis e de Olímpia, seguido pelas estátuas dos deuses carregadas ao som das flautas e dos cânticos. O arauto anunciava o nome, a pátria e as façanhas dos vencedores perante a estátua de Zeus esculpida por Fídias. Os juízes cingiam-lhes a cabeça com uma coroa de oliveira silvestre trançada com ramos da árvore. Um banquete reunia os membros do senado, os vencedores e as personalidades. Os olímpicos (participantes dos jogos) ofereciam sacrifícios.

JOGOS E PAZ
Durante as Olimpíadas, cessavam os combates entre os gregos. Uma vez proclamada a trégua, os spondophores (mensageiros) iam anunciar os Jogos no norte da Grécia, nas ilhas, na Ásia Menor, no Egito e na Sicília. Nenhum exército podia pisar o solo de Olímpia. Era igualmente proibido impedir os atletas de participarem das provas. De forma pacífica, os Jogos se transformavam no símbolo da luta entre as cidades.

COMPETIÇÕES

Dentre as provas das Olimpíadas, o pancrácio era a mais mortífera. Era uma luta na qual tudo se permitia, com exceção de golpes nos olhos. Os atletas combatiam na lama, e os perdedores erguiam a mão para interromper o combate.












Os Jogos Olímpicos incluíam a corrida de hoplitas (guerreiros gregos), na qual os participantes nus portavam capacete e escudo. Segundo o filósofo Filóstrato, essa prova simbólica que encerrava os Jogos indicava que “a trégua imposta aos gregos tinha chegado ao fim e cumpria retomar as armas”.
Durante sete dias, de oito a dez juízes presidiam os Jogos. Assumindo a função dez meses antes do evento, estabeleciam a escolha dos competidores, inspecionavam o estádio e o hipódromo e, se necessário, revisavam o regulamento. Excluíam todos os retardatários e todos os que haviam matado os adversários.

Ordenavam aos policiais que viam jogar do alto do monte Typée as mulheres que porventura pisassem o solo olímpico durante os jogos masculinos, já que seus próprios jogos, chamados Héréns, ocorriam no mês de setembro.

Entre as primeiras competições de 2500-2000 a.C. e as de 776 a. C., a história dos Jogos Olímpicos não passou, segundo o geógrafo Pausânias, de uma sequência ininterrupta de desaparecimentos e renovações. A partir de 776, sua periodicidade foi respeitada e mantida até 394 da era cristã. O intervalo de quatro anos passou a se chamar olimpíada. A partir dessa data, os gregos passaram a contar o tempo não por anos solares, mas sim por olimpíadas.

Nas primeiras 15 olimpíadas, todos os vencedores eram originários do Peloponeso. De 768 a.C. a 736 a.C., os messanenses, vindos da Sicília venceram regularmente, depois desapareceram da competição quando dominados pelos espartanos. A história dos Jogos era, pois, indissociável dos fatos políticos. De 720 a 576 a.C., Esparta participou ativamente deles. De 716 a 604 a.C., 29 espartanos venceram a corrida do estádio. Essa superioridade de Esparta coincidiu com sua hegemonia no Peloponeso. É verdade que a totalidade da educação espartana se centrava no desenvolvimento da capacidade física. O fim desse período arcaico ficou marcado pela superioridade dos atletas de Crotona, a começar pelo campeão Glaucos, e consagrou o início das vitórias das colônias. Os Jogos Olímpicos passaram a ser considerados uma festa nacional. Os atletas eram exaltados pelos poetas. Mílon de Crotona, cujas façanhas se estendem de 540 a 512 a.C., tornou-se uma celebridade – e uma lenda.

A Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.) teve graves repercussões nos Jogos Olímpicos, diminuindo-lhes o prestígio. Em 420 a.C., Esparta, acusada de violar a trégua sagrada, foi excluída dos Jogos. Os espartanos invadiram Elis e lhe tomaram a metade do território. Restou Olímpia aos eleenses, que estavam fadados a se submeter a Esparta até a batalha de Leuctra (371 a.C.), na qual os te-banos venceram os espartanos.
As cerimônias já não tinham o esplendor do século V. Os atletas já não eram considerados heróis. O período helenístico (300-80 a.C.) representou uma verdadeira decadência para os Jogos. Após as conquistas de Alexandre, o Grande, eles tiveram um novo ímpeto; ao mesmo tempo, desenvolveu-se o gosto pelo espetacular, anunciando os jogos romanos do circo. O pugilato, o pancrácio, as corridas de carros ficaram cada vez mais brutais e, pouco a pouco, foram substituindo os combates atléticos.

Em 313 a.C., Telésforo, general do príncipe Antígono, invadiu Elis e pilhou o tesouro do templo de Olímpia para recrutar mercenários. Em 210 a. C, Olímpia foi novamente saqueada. Naquela época, os romanos participavam dos Jogos. Sila chegou a pensar em transferi-los para Roma. Por fim, Augusto confiou Olímpia a governadores provinciais e mandou um funcionário vigiar magistrados e sacerdotes. Tibério e Nero chegaram a participar dos Jogos. Nero acrescentou concursos de música e de poesia.

O último vencedor conhecido dos Jogos da Antiguidade foi um príncipe armênio de origem persa, Varazdates (373 ou 369). Por influência de santo Ambrósio, bispo de Milão, o imperador Teodósio, o Grande, proibiu todas às comemorações pagãs. A estátua de Zeus foi levada a Constantinopla, onde desapareceu num incêndio. Em 395, Alarico e os godos devastaram Olímpia. Em 426, Teodósio II mandou incendiar os templos e, por volta de 550, um terremoto destruiu a cidade.
A partir de 400, o esporte deixou de participar da educação ou do lazer do aluno grego. Em torno 390, são Gregório de Nizianzo denunciou a vaidade dos atletas que perdiam tempo e dinheiro no esporte-espetáculo.

Era o fim dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, mas as competições esportivas parecidas com as Olimpíadas não chegaram a desaparecer totalmente. Na Gália havia competições parecidas: o bispo Sidônio Apolinário (430-489) explicou que os “hérulos triunfavam na corrida; os hunos, no arremesso; os francos, na natação”. Na Irlanda e na Escócia, sobreviveu um atletismo parecido com o dos antigos. No século XIV os escoceses criaram os Jogos de Ceres com lançamento de martelo, de pedra, de dardo e de tronco de lárix. Várias regiões tentaram restaurar as provas olímpicas com base no modelo antigo. Sem sucesso, até aparecer o barão de Coubertin, que em 1896 foi bem-sucedido ao criar, em Atenas, na mesma Grécia, os Jogos Olímpicos da Era Moderna.

CRONOLOGIA

·         2500/2000 a. C. – Primeiras competições olímpicas
·         580 a.C. – Sólon promulga uma lei em Atenas, dispondo que cada vencedor olímpico recebesse 500 dracmas
·         520 a. C. – O programa dos Jogos Olímpicos se estabiliza, com sete dias de duração
·         420 a. C. – Exclusão de Esparta dos Jogos Olímpicos
·         388 a. C. – Na XCVIII Olimpíada, o primeiro caso de alteração de resultado: o pugilista Eupolos compra três adversários para ganhar o título
·         313 a. C. e 210 a.C. – Saques contra a cidade de Olímpia
·         395 – Os godos destroem Olímpia
·         1896 – O barão de Coubertin recria em Atenas as Olimpíadas

Texto - in HistóriaBlog (Brasileiro)