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Lenine proclama o Poder dos Sovietes. Pintura de V. A. Serov
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Fruto da Revolução Tecnológica, a
Inglaterra do Século XVIII, a maior potência comercial de então, sofre uma
profunda Revolução económica e social.
A máquina a vapor, a máquina de fiar algodão e o tear mecânico lançam as bases
da indústria. Os camponeses são expulsos da terra, os artesãos são arruinados.
Uma massa de trabalhadores livres aflui aos grandes centros urbanos. Estes
trabalhadores livres vendem o único bem que lhes resta: a sua força de
trabalho. O trabalho assalariado instala-se. Nasce o capitalismo. A burguesia
apropria-se da propriedade. O trabalho fica para o proletariado.
A classe agora nascida vive na mais profunda miséria. O quadro traçado por
Engels em 1845 é chocante: metade das crianças morria antes dos 5 anos; os
bairros eram aglomerados de barracas; o horário de trabalho atinge 17 horas;
não há férias, apoios em caso de doença ou acidente, nem direito à reforma; a
base da alimentação é a batata; o salário é o estritamente necessário para a
sobrevivência física do trabalhador e dos seus.
Nos modos de produção anterior, as classes trabalhadoras eram subjugadas
através de meios não económicos, e o mercado jogava um papel marginal. No
capitalismo, o mercado torna-se a espinha dorsal de toda a economia, e é no
mercado também que se estabelece as novas relações de dominação.
Lenta e dolorosamente a nova classe vai descobrindo que a única liberdade que
possui é a de aceitar a mais abjecta exploração em troca da sua sobrevivência
física.
O proletariado inicia a resistência contra
a exploração capitalista
Da falta de maturidade, desespero e
confusão da nova classe, surgem as mais inconsequentes formas de resistência à
exploração capitalista, desde o crime ao movimento luddista, que atacava as
máquinas, responsabilizando-as pela situação do proletariado.
Em 1824 o proletariado conquista pela primeira vez o direito de associação em
sindicatos. O sindicato e a greve afirmam-se como armas indispensáveis à nova
classe, na resistência à exploração capitalista.
Mas pronto surge a consciência que essa arma para resistir à exploração não
conseguiria acabar com ela. Na Inglaterra desenvolve-se o primeiro movimento
político do proletariado - o cartismo, reivindicando o direito de voto, então
negado aos pobres
Desde há séculos que pensadores avançados
sonhavam com uma sociedade comunista e fraterna. Estas ideias ganham força com
a Revolução Industrial em Inglaterra e com a Revolução Francesa de 1792.
Na denúncia da ordem social burguesa destacam-se os socialistas utópicos. Saint-Simon
(1760-1827) denuncia as "classes parasitárias" e
enaltece as "classes produtoras", e propõe a reconstrução da
sociedade. Fourier
(1772-1837) denuncia os absurdos da economia de mercado e
propõe a constituição de comunidades de trabalhadores. Owen (1771-1858)
contrapõe ao capitalismo a sociedade racional, fruto da livre federação de comunidades
socialistas autónomas. Os socialistas utópicos (do grego utopia, "em
nenhum lugar") apontam os males do capitalismo, pregam a sua superação,
chegam a imaginar em detalhe a sociedade futura. Mas limitam-se a apelar à
"razão humana", esperando convencer os exploradores a não mais
explorar.
Já Blanqui (1805-1881), e outros, escolhem a via da acção revolucionária, mas
confiam a revolução não às massas trabalhadoras mas a pequenos grupos
conspirativos.
Em 1848 estas teorias mostram já os seus limites, quando dois acontecimentos
quase simultâneos apontam uma alternativa. De um lado, surge o Manifesto do
Partido Comunista. De outro, explode em França e em toda a Europa o ciclo de
revoluções baptizado de Primavera dos Povos, naquela que Marx definiu como
"a primeira grande batalha entre as duas classes que formam a sociedade
moderna".
Em Fevereiro de 1848 é editado em Londres
o Manifesto do Partido Comunista, encomendado pela Liga dos
Comunistas , um círculo clandestino formado por meio milhar de
artesãos e operários, essencialmente alemães. Os seus autores eram Karl Marx e Friederich Engels .
O sucesso inicial do Manifesto foi tão modesto quanto a sua tiragem inicial,
1000 exemplares. Mas gradualmente os sectores mais avançados do proletariado e
muitos intelectuais progressistas tomam consciência da importância histórica
deste documento.
O Socialismo desenvencilhava-se das ilusões utópicas, armava-se com uma base de
classe bem definida e de um programa claro e revolucionário. Nasce o Socialismo
Científico.
Em 1852 a Liga dos Comunistas cessou a sua actividade. Em 1864 com a criação da
I Internacional (Associação Internacional dos Trabalhadores) inicia-se uma nova
fase no movimento comunista internacional, e o Manifesto prossegue nos seus
objectivos de consciencializar, unir e despertar para a luta milhões de
operários no mundo inteiro.
Em França, as transformações políticas
burguesas tinham seguido uma via radical e conturbada: a Revolução de 1792, as
guerras napoleónicas, as Revoluções de 1830 e 1848. Estes movimentos
anti-feudais e democrático-burgueses, contaram com uma maciça participação das
classes trabalhadoras, inclusive o jovem proletariado, formado como nenhum
outro em insurreições e barricadas.
Mas depois do Golpe de 1852 o processo desembocara na ditadura de Napoleão III.
Em 1870 o regime burguês envolve-se numa guerra desastrosa com a Alemanha. Com
o Exército Alemão às portas de Paris, os operários da Cidade armam-se para a
defender. O Governo Burguês capitula e assina um armistício com a
Alemanha.
A tentativa de desarmar os operários parisienses precipita a insurreição. A 26
de Março é eleito o Conselho da Comuna. A influência marxista é minoritária no
movimento, onde predominam os blanquistas. O movimento alastra a outras
Cidades, mas a grande massa camponesa mantêm-se apática. O Exército Francês e
Alemão entram em Paris a 21 de Maio. A resistência dos comunards é heróica, mas
são esmagados: 35.000 mortos e 7.500 deportados.
Termina assim, afogado em sangue, o primeiro ensaio de um poder político dos
trabalhadores: durara 74 dias. A burguesia europeia aplaude a carnificina, e
Thiers, o líder da burguesia francesa, proclama: "Agora o comunismo está
morto para sempre!".
Marx e a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) saúdam a ousadia dos
comunards por tentarem "Tomar o céu de assalto!". A onda repressiva
alastra a outros países. Em 1872, realiza-se ainda o importante Congresso de Haia
da AIT , mas esta rapidamente será dissolvida.
A fase entre a Comuna (1871) e a I Guerra
Mundial (1914) foi de desenvolvimento relativamente "pacífico" do
capitalismo. Uma burguesia cada vez mais poderosa enriquecia "pacificamente"
à custa de um proletariado cada vez mais numeroso. As guerras e revoluções
ficaram confinadas à periferia do sistema.
Para o movimento operário e socialista
esta foi uma fase de acumulação de forças. O crescimento numérico e a relativa
prosperidade industrial permitiram-lhe avanços económicos e políticos. Os
sindicatos cresciam em tamanho e prestigio. A luta popularizava e conquistava
direitos para os trabalhadores, destacando-se a luta pela jornada de 8 horas. A
extensão do direito de voto (embora quase sempre só aos homens) criava novas
condições para a participação política dos trabalhadores.
A I Internacional ainda realiza a sua
Conferência de Haia em 1872, caracterizada pela derrota do bakuninismo. Mas
virá a ser destruída pela repressão que se segue à Comuna de Paris.
A II Internacional nascia em 1889. Na sua
base estavam os Partidos Operários, sob forte influência marxista, em geral
adoptando o nome de social-democratas. Por decisão do Congresso da
Internacional, o 1º de Maio de 1890 é comemorado internacionalmente, tendo a
jornada das 8 horas como principal reivindicação.
No limiar do século XX, o clima entre os
socialistas era optimista: o proletariado continuava a crescer em número, a
avançar nos seus direitos, a elevar a sua consciência e organização.
Em 1899, o dirigente do Partido
Social-Democrata Alemão, Eduard Bernstein publica o livro "O Socialismo
Teórico e o Socialismo Prático", tornando visível o conflito entre
revolucionários e reformistas. Sem romper formalmente com o marxismo, Bernstein
pregava a revisão (donde o título de revisionismo) da sua essência
revolucionária: afirmava que o capitalismo era capaz de superar as suas crises,
que o socialismo seria fruto da acumulação gradual e pacífica de pequenas
conquistas. O seu lema "O movimento é tudo, o objectivo é nada!"
sintetizava as teorias reformistas no movimento operário.
As suas teses foram rechaçadas numa fase
inicial, e duramente criticadas no próprio SPD por Rosa Luxemburgo, e no plano
internacional, onde se destacou Lenine. Mas o desenvolvimento
"pacífico" do capitalismo levara o movimento operário a uma certa
acomodação, e quando a I Guerra inaugurou uma nova fase de crise
revolucionária, dá-se a primeira grande divisão no movimento operário: entre
revolucionários e reformistas.
No limiar do século XX, o mundo parecia
relativamente tranquilo, mas ocorriam transformações económicas de grande
vulto. O capital concentrava-se e centralizava-se. A livre-concorrência dava
lugar a uma economia de monopólios. Com a fusão entre o capital industrial e a
grande banca, surge o capital financeiro. Os monopólios actuam no mundo todo, e
para garantir maiores lucros, necessitam do domínio político sob os países
periféricos. Lenine caracteriza este capitalismo da época dos monopólios
como Imperialismo .
Chegou o momento em que o mundo inteiro estava dividido entre as potências
imperialistas. A expansão dos monopólios reclamava mais e mais domínios, mas a
expansão já só era possível para áreas com "dono". Fruto das
contradições inter-imperialistas, dá-se a I Guerra Mundial, que ceifaria 20
milhões de vidas.
O imperialismo e a guerra tiveram um
enorme impacto no movimento operário e socialista. Ao lado da contradição entre
capital e trabalho, duas novas contradições entravam na ordem do dia: a que
opunha os países imperialistas aos restantes; e as contradições inter-imperialistas.
A II Internacional há muito que previa a guerra, e a debatia, assumindo uma
postura internacionalista: os trabalhadores não se deveriam matar uns aos
outros na defesa dos interesses das "suas" burguesias, mas sim
opor-se à carnificina sob o lema "guerra à guerra".
Mas com o início da guerra, intensifica-se a pressão da burguesia sobre os
"seus" trabalhadores. E os Partidos da II Internacional dividem-se em
três tendências principais: A ala social-chauvinista (de chauvin, líder
nacionalista francês reaccionário, cujo lema era "A minha pátria, boa ou
má!"), a de centro e a internacionalista.
Em quase toda a parte a maioria dos sociais-democratas aderiu à febre
belicista, cada um com a sua desculpa: os alemães alegavam a necessidade de
combater o absolutismo russo; os franceses, a urgência de libertar os povos
oprimidos pelos impérios austríaco e otomano.
Uma facção de centro, minoritária mas com nomes importantes como Kaustsky,
pregava o regresso à paz, sem levar em conta as causas de fundo do conflito
inter imperialista.
E por fim, a ala esquerda, também minoritária excepto na Rússia, que manteve o
internacionalismo, propunha que os operários voltassem as armas contra os
"seus" burgueses, e transformassem a guerra imperialista em guerra
revolucionária.
A Rússia, um imenso império semi-asiático,
atrasado mas em rápida industrialização, vivia sob a tirania dos czares. Em 1905 passara
por uma grande revolução. O movimento operário e o partido
marxista eram jovens, muito perseguidos, mas vigorosos. A esquerda do movimento
operário era maioritária na Rússia, tanto que fora apelidada de bolchevique
(maioria). Tinha ligação de massas, imprensa actuante, tradição de luta em
condições difíceis, a experiência de 1905 e uma direcção muito firme, onde
avultava a figura de Lenine. A luta entre reformistas e revolucionários seguira
ali um caminho mais nítido e precoce. O choque de ideias já era aberto em 1902,
quando Lenine escreveu "Que fazer?". Desde 1910 os bolcheviques
tinham sua organização própria, separada dos mencheviques (minoria).
No início da guerra de 1914, os internacionalistas ficaram isolados. Uma
ensurdecedora propaganda belicista embriagava as massas. Militantes
bolcheviques foram linchados ao fazerem propaganda entre os soldados. Esse
clima foi mudando conforme o conflito se arrastava, com seu cortejo de mortes e
mutilações, fome e barbárie. A histeria dos primeiros anos transformou-se em
cansaço e a seguir em revolta.
Em Fevereiro de 1917 uma revolução popular derrubou o czar. Suas forças
motrizes foram os operários, camponeses e soldados (na maioria, camponeses
fardados); as formas de luta, greve geral, protesto de massas, rebelião na
tropa. A Rússia saiu da tirania czarista para uma fervilhante liberdade. Os
exilados retornaram. O governo passou ao partido liberal-burguês e em Maio aos
social-revolucionários e mencheviques.
Ao mesmo tempo, os trabalhadores criavam os sovietes (conselhos). Nascidos na
Revolução de 1905, eles eram uma organização revolucionária de massas, ágil,
desburocratizada, uma típica democracia directa, onde o trabalhador não só
elegia representantes, mas participava. Agiam como verdadeiro poder paralelo.
Os sovietes exprimiam a revolta dos trabalhadores com uma revolução que não
resolvera seus problemas. Em especial, exigiam o fim da guerra. Após novas
derrotas na frente, as enormes Jornadas de Julho mostraram que o ímpeto
revolucionário russo estava longe do fim.
Após a Revolução de Fevereiro, os bolcheviques ainda eram minoritários. Essa
correlação de forças inverteu-se com uma rapidez que só a crise revolucionária
permite. Lenine voltou do exílio, e defendeu, nas Teses de Abril, que a
revolução democrático-burguesa bem ou mal estava feita, era hora de passar à
revolução socialista, sob o lema "Todo o poder aos sovietes". Outro
lema, "Paz, pão e terra", exprimia as tarefas imediatas da revolução.
Em Agosto, Leon Trotsky, recém incorporado aos bolcheviques, foi eleito
dirigente do Soviet de Petrogrado. A ala esquerda dos social-revolucionários
aliou-se aos comunistas. Eram sinais de que os trabalhadores aprendiam com sua
experiência.
O general czarista Lavr Kornílov, chefe supremo do exército, rebelou-se em
Agosto visando restaurar o velho regime, fracassando devido à deserção de suas
tropas. O episódio da "kornilovada" desmoralizou de vez o governo,
que passara ao social-revolucionário de direita Alexandr Kerensky. Estavam
maduras as condições para transformar o lema "Todo o poder aos
sovietes", de palavra-de-ordem de agitação em palavra-de-ordem de acção, e
em realidade.
No dia 7 de Novembro (25 de Outubro no antigo calendário russo), os marinheiros
rebeldes do cruzador Aurora deram o sinal (uma salva de tiros). Houve
resistência na tomada do Palácio de Inverno, sede do governo, mas a insurreição
triunfou nas maiores cidades com relativa facilidade, após poucos dias e uma
centena de mortes. Seu primeiro decreto foi a reforma agrária entregando a
terra aos que a trabalham. Em seguida, começaram as conversações de paz em
separado com a Alemanha.
O verdadeiro enfrentamento veio depois: Kornílov e outros generais czaristas
reuniram os brancos (anti-bolcheviques, inclusive mencheviques e
social-revolucionários) e tropas de 14 países na Guerra Civil. Mas os
trabalhadores e o novo Exército Vermelho, exaustos e famintos, dessa vez tinham
por que lutar. Após três anos de sacrifícios e heroísmo, a revolução proletária
consolidava o seu triunfo no mais vasto país da Terra.
Em 1919 é fundada a III Internacional, na sequência da traição da II
Internacional, e impulsionada pela vitória na Rússia, e que viria a ter um
papel relevante no desenvolvimento de Partidos Comunistas por todo o mundo.
O único Estado Socialista que vingou, com
a situação revolucionária criada pela I Guerra Mundial, foi o soviético. A
Revolução Alemã foi derrotada em 1919, com os traidores da II
Internacional a assassinarem
Rosa Luxemburgo e Karl Liebchnet.
E em 1929 o capitalismo mergulha na Grande Depressão: falências em massa,
colapso do comércio, desemprego massivo. Mas a resposta à crise foi o fascismo.
O fascismo encontrou apoio de massas nas camadas médias empobrecidas pela crise
e nos trabalhadores desempregados e desorganizados, e contou com o apoio
decisivo das classes dominantes assustadas pelo fantasma do comunismo.
Três características fundamentais definem o fascismo: o chauvinismo,
exacerbando os sentimentos nacionais e dando-lhes uma forte componente xenófoba
e racista; o terrorismo, assente numa doutrina anti-democrática, exigindo
obediência cega ao chefe e utilizando a violência de Estado contra toda a
oposição; a sua ligação com os interesses das classes dominantes.
O 7º Congresso da
Internacional Comunista (1935) traçou a linha geral para
enfrentar esta ofensiva: a unidade anti-fascista, preconizando a frente única
no movimento operário e a frente popular, e o fim da fase de enfrentamento
entre comunistas e social-democratas, que facilitara a escalada fascista. Esta
linha levou à vitória da Frente Popular em França e orientou a resistência nos
países ocupados pelo fascismo depois de 39.
A Alemanha armara-se com o apoio de parte
do capital financeiro da Inglaterra, França e EUA, na perspectiva de um
esmagamento militar da União Soviética. Mas em 1939 lança os seus exércitos
sobre a Europa, que rapidamente ocupa. As potências do eixo tratam de impor uma
redivisão do mundo sob a sua hegemonia.
O movimento operário, os sociais-democratas e principalmente os comunistas eram
o alvo principal da fúria nazifascista. Fora-o assim na Alemanha e na Itália,
era-o agora nos países ocupados. Mas foram igualmente os primeiros, e os que
mais decididamente, se lançaram na resistência.
Em 1941 o grosso dos Exércitos Alemães avança sobre a URSS. Inicia-se a Grande
Guerra Patriótica, nome com que o Estado Socialista chamou ao combate toda a
população soviética. No início de 1943, com enormes perdas, o exército alemão
havia ocupado a parte mais rica e populosa da URSS, e encontrava-se às portas
de Moscovo e Leninegrado. O seu corpo de elite, o 6º Exército, avança sobre
Stalinegrado. Naquela que foi a maior, a mais sangrenta e a mais importante
batalha militar da história, o Exército alemão é derrotado e dizimado. A
correlação de forças mudara, e o nazifascismo entra na defensiva.
O Exército Vermelho e a Resistência por
toda a Europa lançam a contra-ofensiva. As guerrilhas anti-fascistas ganham
carácter de massas, principalmente na Jugoslávia, Albânia, Grécia, França e Itália,
com um papel destacado dos comunistas.
Em 1944, os EUA intervêm na Guerra na Europa, para participar na vitória sobre
uma Alemanha já derrotada, e em 1945 lançam a
arma atómica sobre um Japão já derrotado.
O quadro que irá marcar os anos sequentes está definido: por um lado, um novo e
formidável ascenso da luta pelo socialismo no mundo; por outro, as classes
dominantes da Europa a cederem aos EUA a hegemonia no quadro capitalista, em
troca da protecção contra o comunismo, e a lançarem as bases da Guerra Fria.
A União Soviética saiu do conflito como o
grande responsável pela vitória. O Povo Soviético, o PCUS e Stalin conquistaram
um enorme prestígio aos olhos das massas trabalhadoras e povos do mundo. Os
comunistas haviam desempenhado, em cada país, o papel de vanguarda na promoção
da luta e unidade anti-fascista. Estava aberto o caminho para um ascenso sem
precedentes na luta pelo socialismo.
Na Europa Oriental surgiram os regimes de democracia popular sob hegemonia
comunista. Transformações socialistas que beneficiaram sem dúvida da ajuda
propiciada pela libertação soviética, mas só possíveis pela real (ainda que
diferenciada de país para país) influência de massas dos comunistas e seus
aliados.
Na China, a luta armada continuou até 1949, opondo o Exército Vermelho sob
direcção comunista a Chiang Kai-Shek apoiado pelos EUA. O triunfo do Exercito
Vermelho colocou a mais populosa nação da Terra rumo ao socialismo. No Vietname
o povo prosseguiu em armas, lutando contra o colonialismo francês e depois
contra o neocolonialismo americano até 1975. Na Coreia, as guerrilhas
anti-nipónicas levaram a uma democracia popular na parte norte.
Criou-se assim o Campo Socialista. Um conjunto de países, com um terço da
população mundial, assumia a experiência de construção de uma sociedade
nova.
Nos países que permaneceram no campo capitalista, este ascenso fez-se sentir
igualmente: O PC Itália atinge os 30%, o Francês 27%. Os sindicatos iniciam uma
nova fase de expansão.
Em 1948 a imensa Índia sacode o domínio britânico. As lutas patrióticas ganham
nova força em Africa e no Mundo Árabe. Ainda que os comunistas não fossem a
força principal nestes movimentos, em todos se fazia sentir o impulso do
ascenso socialista. A luta pelo socialismo e a luta anti imperialista
convergiam num mesmo sentido
O discurso de Churchill contra a
"cortina de Ferro" em Março de 1946 marca formalmente o inicio da
Guerra Fria. Mas como vimos a sua preparação iniciou-se com a derrota da
Alemanha Nazi em Stalingrado. As potências capitalistas, sob a hegemonia dos
EUA, reagiram duplamente: por um lado lançam o Plano Marshall ajudando os regimes
europeus que mantinham a opção capitalista, e por outro fustigam económica,
politica e militarmente o campo socialista em formação. Em 1949 nascia a NATO.
No longínquo dia 1 de Maio de 1886 o sangue dos operários americanos que se
manifestavam pacificamente em defesa dos seus direitos correu pelas ruas de
Chicago.
Os seus dirigentes foram executados.
Em 1886 a II Internacional, no seu I Congresso, realizado em Paris, propôs que
o dia 1º de Maio passasse a ser o dia da solidariedade dos proletários de todos
os países, o dia em que "passariam em revista as suas forças".
E desde 1890 que, em cada 1º de Maio, no mundo inteiro, milhões de
trabalhadores saiem à rua para reivindicar e defender os seus direitos, fazendo
deste dia a Jornada Internacional dos Trabalhadores.
I
A solidariedade internacional entre os operários nasceu muito antes dos
trágicos acontecimentos de Maio do 1886 em Chicago. Surgiu ao mesmo tempo que o
movimento operário, expandiu-se à medida que os operários de diferentes países
iam tomando consciência da comunidade de interesses, da necessidade de se
entreajudarem na luta contra o inimigo comum.
Muito antes dos acontecimentos de Chicago, Marx e Engels no Manifesto Comunista
haviam proclamado já que os operários de todos os países tinham um mesmo inimigo,
o capital, e que a arma mais poderosa de que dispunham para o combater era a
solidariedade, a unidade revolucionária do proletariado de todos os países. Foi
preciso, porém, muito tempo e uma dura experiência para que a palavra de ordem
que encerra o Manifesto "Proletários de todos os países, uni-vos!" se
tornasse um dos princípios fundamentais das organizações operárias.
No Apelo inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores (I
Internacional) Marx escrevia: "A experiência do passado mostrou que todo o
desprezo pela aliança fraternal que deve existir entre os operários dos
diferentes países e os deve incitar na sua luta para se libertarem, a estender
as mãos uns aos outros, é punido pelo fracasso comum de todos os esforços
dispersos".
Foi, de facto, a I Internacional que, pela primeira vez na história, associou
estreitamente a força organizada da classe operária e o seu internacionalismo e
mostrou a necessidade de unir estes dois elementos do movimento operário. Foi
no quadro da I Internacional que se desenvolveu e aprofundou o princípio
fundamental da actividade revolucionária do proletariado e do seu partido: a
unidade numa base de classe, a unidade contra os exploradores. Foi assim que o
internacionalismo foi penetrando profundamente no movimento operário e se
tornou, simultaneamente, sua característica e parte integrante.
A jornada do 1º de Maio é assim, de certa forma, o símbolo desta transformação,
um marco histórico, uma data que traz para primeiro plano o nível de
consciência a que chegaram as forças mais avançadas da sociedade moderna.
("Onde estaríamos
nós hoje - escrevia Engels em l887 - se, de 1864 a 1873, nós tivéssemos
marchado sempre mão na mão unicamente com aqueles que se declaravam
publicamente partidários do nosso programa? Toda a nossa
actividade prática mostrou, parece-me, que se pode trabalhar em contacto com o
movimento geral da classe operária em cada etapa do seu desenvolvimento sem
sacrificar nem dissimular a sua própria posição claramente expressa e
conservando mesmo a sua organização".)
II
Sem dúvida que a unidade de acção da classe operária e dos trabalhadores à
escala intemacioal se tornou hoje mais complexa.
A tendência histórica para internacionalização da vida económica, da ciência e
da técnica, adquiriu um desenvolvimento extraordinário.
Todos, homens e coisas, dependemos cada vez mais uns dos outros, condicionam-se
e determinam-se reciproca mente.
Na hora da integração, quando surgem agrupamentos económicos como a CEE, com
todas as consequências de order política e ideológica que daí decorrem, os
capitalistas dos diferentes países são solidários apesar das contradições que
possam existir entre eles. Os monopólio internacionais decuplicaram o seu
poderio e apontam cada vez mais para criação de estruturas supranacionais que
forneçam um quadro mais conveniente para as actividades das transnacionais. O
conflito do Golfo veio comprovar, desfazendo algumas ilusões, que a intervenção
militar continua a ser componente essencial da política internacional do imperialismo.
E a desintegração da URSS operou uma brutal alteração na correlação de forças à
escala mundial, a favor do imperialismo e das forças reaccionárias e de
direita.
Muitas interrogações se colocam quanto ao futuro próximo. Está-se numa etapa de
convergência mundial dos interesses do capital ou, antes pelo contrário, é
previsível um acentuar das contradições imperialistas? Não exigirá a lógica da
competição capitalista reordenamentos que poderão ser foco de novos conflitos?
Em que medida a derrocada bloco socialista facilita esse processo?.
Na medida em que o avanço do capitalismo mundializa o seu domínio, ganham mais
relevo as realidades internacionais.
A expansão das relações das multinacionais exige a interligação dos interesses
entre os grupos capitalistas de diferentes países, a aceitação do domínio de
uns por outros, a comparticipação minoritária nos lucros como contrapartida.
Em que medida se reflectem estas novas condições na luta dos trabalhadores de
todo o mundo?
III
O internacionalismo proletário, a solidariedade internacional dos
trabalhadores, traduz uma realidade objectiva do mundo capitalista: o
antagonismo irreconciliável de interesses do proletariado e do capital em cada
país e a plena identidade de interesses e objectivos dos trabalhadores de todos
os países.
Mas o internacionalismo, hoje, tem de responder às novas questões que os
acontecimentos actuais e a experiência histórica colocam e que ultrapassam uma
reflexão que procurava dar resposta a um momento histórico diferente. Passou o
tempo em que a correlação de forças a nível mundial pesava a favor das forças
da paz e do socialismo e era determinada, antes de mais, pelo poderio
económico, político e militar dos Estados socialistas. Hoje, em condições
totalmente diferentes e particularmente adversas, sobre o
movimento operário em geral e dos comunistas em particular recaiem pesadas
responsabilidades: eles têm o dever de contribuir eficazmente para alterar uma
situação que a história demonstrará, sem dúvida, ser transitória e coordenar
todos os esforços que no mundo se desenvolvem no sentido do progresso e
da emancipação dos povos.
A classe operária, pela sua função estratégica na sociedade moderna, pela
coerência do seu internacionalismo, pela sua experiência histórica e pela sua
força organizada, está em condições de ser o promotor e o
motor dessa luta.
("O
internacionalismo consiste na solidariedade fraterna dos operários de todos os
países na luta contra o jugo do capital" Lénine em "A crise
amadureceu".)
Como já sublinhava Lénine, a condição económica (o assalariamento) da classe
operária não é nacional, mas internacional. As condições da sua libertação são
também internacionais.
A classe operária é internacionalista porque não usa o privilégio para si mesma,
mas sim o fim dos privilégios de todas as classes.
Esta identificação da classe operária com o internacionalismo resulta da sua
própria natureza e combina-se com o seu papel na luta de cada país. Para
analisar o factor internacional em qualquer questão, a classe operária tem
também de ser verdadeiramente nacional, tem de encabeçar em cada país a luta
contra a exploração do capita! nas suas múltiplas formas, tem de integrar nessa
luta a bagagem da luta operária internacional. O internacionalismo da classe
operária não reduz, antes alarga, a unidade de todos os trabalhadores e a sua
ligação às outras forças e sectores progressistas
de cada país.
Estará a classe operária em condições de continuar a desempenhar esse papel? A
classe operária continua a estar no centro da época que vivemos. As
modificações que se deram na sua própria estrutura, ao invés do que muitos
propagandeiam, não lhe retirou e sim reforçou o papel que lhe cabe no curso das
transfomacões históricas e de toda a evolução da vida da sociedade.
À classe operária, nas suas novas fronteiras e com as suas novas
características, bem como a todos os outros trabalhadores, com a força dos seus
movimentos organizados, cabe pois uma especial responsabilidade na articulação,
na orientação e no desenvolvimento da luta contra a nova ofensiva geral do
capitalismo.
Mas a crise do socialismo e as derrotas sofridas não afectam só o movimento
operário. O desmantelamento da URSS foi, para todas as forças progressistas e
os trabalhadores cie todo o mundo, mais importante retrocesso da nossa época.
As suas consequências atingem todas as forças que têm como objectivo a
emancipação dos homens.
Com o desaparecimento do contrapeso do campo socialista crescem a força e
arrogância do capital e a sua pressão económica, política e cultural. O
confronto com essa pressão e as suas consequências incorporam porém novos
sectores na luta pela libertação social e nacional. A par das dificuldades
presentes, não podem deixar de se ter em conta esses factores, para o
renovamento da luta contra o domínio mundial do capital.
IV
O marxismo-leninismo não tem do initernacionalismo proletário uma visão
estreita, sectária. Não considera o internacionalismo proletário como uma
solidariedade de classe interna, fechada, excluindo a cooperação do
proletariado com outras forças sociais e políticas que lutam contra o
imperialismo, os monopólios, a exploração colonial e neocolonial, o progresso
social, a democracia, a libertação nacional e social.
O nosso internacionalismo proletário, de comunistas, longe de excluir implica a
vontade e o acto de alargar, no plano social e político, todos os movimentos
internacionais solidários nas suas aspirações e nos seus objectivos
democráticos e progressistas.
O conteúdo do internacionalismo proletário, para nós, é determinado pelo facto
de se basear na concepção do mundo e numa política que são as da classe
operária revolucionária, política que tem um objectivo bem definido: substituir
o capitalismo pelo socialismo. Mas sempre no internacionalismo proletário os
objectivos socialistas estiveram associados aos objectivos democráticos.
O intemacionalismo proletário enriqueceu-se consideravelmente nos nossos dias,
as suas tarefas alargaram-se, devido precisamente à amplitude e dimensão
crescentes das tarefas democráticas.
O conteúdo principal do
internacionalismo proletário é, nas condições actuais, procurar a união de
todas as forças revolucionárias e de libertação do mundo inteiro. É trabalhar
para a criação de uma perspectiva comum e séria dos movimentos dos
trabalhadores, em diálogo e convergência com todas as outras força e correntes
de opinião que têm igualmente por objectivo a emancipação da humanidade e
visando uma cooperação internacional capaz de promover um actividade prática
solidária.
V
Será que, hoje, se toma necessário ainda demonstrar a necessidade e importância
da solidariedade dos proletários de todos os países? Não será isso mais do que
evidente?
Para responder a esta questão é preciso, antes de mais, ter em conta a
gigantesca ofensiva desencadeada pelo imperialismo, pelas forças de direita e
reaccionárias de todo o mundo contra o
socialismo, contra o movimento comumista e operário, contra a solidariedade
proletária.
Nunca tanta energia, tantos esforços foram dispendidos pelos nossos adversários
de classe, nunca tão agressivos ataques e calúnias foram lançado contra o
socialismo, contra os ideais do comunismo, na tentativa de deter o avanço dos
povos para uma sociedade mais justa e de progresso social. Um dos alvos desta
ofensiva são, precisamente, os ideais internacionalistas.
Procura-se persuadir os trabalhadores que o internacionalismo proletário está
ultrapassado, já não tem razão de ser, que a sua necessidade deixou de ter
sentido.
Difundem-se ou aceitam-se teorias sobre desaparecimento da classe operária, e
nessa base preconiza-se o apagamento da natureza de classe das organizações dos
trabalhadores e a substituição da sua luta por concertações de topo que afastam
os trabalhadores de uma participação directa na defesa dos seus direitos e
interesses. A pretexto da mundialização da economia aponta-se para a
transferência de poderes para estruturas supranacionais cada vez mais afastadas
das suas bases de representação. Com a difusão da "cultura de
consumo" capitalista, apoiada na crescente exploração dos países menos
desenvolvidos e no agravamento das desigualdades à escala mundial, procura-se
dar consistência ao domínio ideológico do capital. Proclamando o "fim do
comunismo", a "falência do socialismo", pretende-se matar a
esperança de uma alternativa à exploração capitalista.
Hoje, o internacionalismo proletário não pode ser apenas um princípio, uma
palavra de ordem. Tem de assentar numa concepção do mundo actualizada, que dê
resposta a inúmeros problemas cuja solução não é fácil. É por isso que,
respondendo à propaganda inimiga e aos oportunistas dos nossos tempos, é
fundamental aprofundar sem demora estes problemas, desenvolver a teoria do
internacionalismo proletário na base consequente do marxismo-leninismo.
Para muitas das questões que se colocam pode não ser ainda possível dar
resposta. Mas a própria formulação dos problemas é já uma contribuição para a
resposta.
("Há um e só um
internacionalismo de facto: o trabalho abnegado pelo desenvolvimento do
movimento revolucionário e da luta revolucionária no seu próprio país, e o
apoio (pela propaganda, a simpatia e a ajuda material) a esta luta, a esta
linha, e só a esta, em todos os países sem excepção" Lénine em
"As tarefas do proletariado na nossa revolução")
In "O Militante" - N.º 277Julho/
Agosto 2005