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sábado, 11 de novembro de 2017

Banquete à moda brasileira (século XVI)



Foi o "costume bárbaro" que mais impressionou os europeus que aqui chegaram no século XVI... A morte ritualizada e a deglutição eucarística dos cativos representava o ponto culminante de uma cerimônia, cujo objetivo quase único era a vingança.
A vítima era capturada no campo de batalha e pertencia àquele que primeiro a houvesse tocado; triunfalmente conduzida à aldeia do inimigo, era insultada por mulheres e crianças (tinha de gritar "eu, vossa comida, cheguei!"). Após essas agressões, porém, era bem tratada, podendo andar livremente - fugir era uma vergonha impensável. O cativo passava a usar uma corda presa ao pescoço: era o calendário que indicava o dia de sua execução - o qual podia prolongar-se por muitas luas (e até por vários anos).
Na véspera da execução, ao amanhecer, o prisioneiro era banhado e depilado; mais tarde, o corpo da vítima era pintado de preto, untado com mel e recoberto com plumas e cascas de ovos, iniciando-se uma grande beberagem de cauim - um fermentado de mandioca.
Na manhã seguinte, o carrasco avançava pelo pátio dançando e revirando os olhos. Parava em frente ao prisioneiro e perguntava: "Não pertences à nação nossa inimiga? Não mataste e devoraste nossos parentes?" Altiva, a vítima respondia: "Sim, sou muito valente, matei e devorei muitos." Replicava então o executor: “Agora estás em nosso poder, serás morto por mim e devorado por todos."
Para a vítima esse era um momento glorioso, já que os índios brasileiros consideravam o estômago do inimigo a sepultura ideal. O carrasco desferia então um golpe de tacape na nuca; velhas recolhiam, numa cuia, o sangue e os miolos - o sangue deveria ser bebido ainda quente. A seguir o cadáver era assado e escaldado, para permitir a raspagem da pele, introduzindo-se um bastão no ânus para impedir a excreção. Os membros eram esquartejados e, depois de feita uma incisão na barriga, as crianças eram convidadas a devorar os intestinos. Língua e miolos eram destinados aos jovens; os adultos ficavam com a pele do crânio e as mulheres com os órgãos sexuais. As mães embebiam os bicos dos seios em sangue e amamentavam os bebês. Os ossos do morto eram preservados: o crânio, fincado em uma estaca, ficava exposto em frente à casa do vencedor; os dentes eram usados como colar e as tíbias transformavam-se em flautas e apitos.


In http://umprofessordehistoria.blogspot.pt/2011/11/banquete-moda-brasileira.html#links (acesso dia 7.11.2017)

Nota: Tentei contactar o autor deste artigo, que é professor, para me fornecer as fontes de informação, mas nada consegui até hoje. 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Corpo de Deus - um apontamento histórico


Corpo de Deus – um apontamento histórico
Um texto sobre a importância da procissão do Corpo de Deus para a definição do cerimonial político do absolutismo que escrevi em 1983 para o meu livro D. João V. Poder e Espectáculo (aqui ligeiramente adaptado).
A procissão do Corpo de Deus foi instituída para todo o mundo cristão em 1264 pelo papa Urbano VI. A festividade começou a ser celebrada em Portugal – sempre na primeira quinta-feira depois da oitava do Pentecostes – no reinado de D. Afonso III. Viria a ganhar um brilho invulgar a partir do governo de Manuel I, sendo sempre a sua procissão aquela que de maior luxo e aparato Lisboa conheceu. O rico espectáculo que habitualmente continha, as possibilidades que oferecia como momento de espetacular manifestação de fé, tornavam o dia da sua realização ansiosamente esperado pelo povo.
Porém, até ao século XVIII, o desfile religioso serviu de instrumento para a expressão combinada de crenças e tradições diversas. Sem qualquer ordem prevista, seguiam aí as autoridades municipais, os representantes dos ofícios com os seus antigos símbolos e bandeiras, as imagens sagradas, nessa altura ainda de grande sobriedade plástica. Mas também gente vestida das formas mais bizarras, figuras bestiais, indivíduos de toda a qualidade, sem qualquer distinção. Em 1493 seguiram no cortejo «o rei David, diabos, reis, imperadores, príncipes, gigantes, feiticeiros, verdadeiro concílio de cómicos e truões». E em 1669 ainda desfilavam «cervos, figuras de cavalo, invenções e danças».
A monarquia absoluta irá combater essa sorte de práticas, dispondo as procissões mais conformemente a mentalidade própria da cultura barroca e os objetivos propostos pelo Concílio de Trento, ao serviço ainda da construção da imagem de uma sociedade hierarquizada e desejavelmente quieta.
As disposições reguladoras do préstito do dia do Corpo de Deus vão suceder-se. Assim, em carta do secretário de Estado ao presidente da Câmara de Lisboa, aquele informa da vontade do rei.
«Sua Magestade, que Deus guarde, é servido que (…) não vão na procissão tourinhas, gigantes, serpe, drago e esparteira, carros e as mais cousas semelhantes, que costumavam dar os ofícios, nem dança alguma, nem os mouros que costumavam ir junto a S. Jorge; que na procissão não vá pálio de lã, mas outro mais rico; que o senado mande lançar cadeias nas bocas das ruas que vão sair às da procissão.»
Prescrevia-se ainda quem deveria seguir no desfile, quem o não deveria fazer (os negros, as mulheres, os estridentes charameleiros deveriam ser afastados), e em que ordem se disporiam ou como se deveriam vestir os todos os participantes. É ainda traçado o percurso obrigatório, vigiado por regimentos militares para impedir que alguém o subvertesse.
Este acontecimento, do qual diria José da Cunha Brochado que «para ver Lisboa de uma vez fui ver a procissão do Corpo de Deus», teve especial brilho em 1719 e no ano seguinte. A de 1719, combatendo decididamente os desvios de natureza pagã e servindo de modelo para os anos que se lhe seguiram, constitui festividade memorável nos fastos da Igreja portuguesa. Ao mesmo tempo, funcionou como paradigma na identificação das festividades eclesiásticas e monárquicas, coincidindo no centro da cena, no pálio, a totalidade dos poderes. O divino, o eclesiástico, o régio.
A arrumação processional era clara. As bandeiras dos ofícios mecânicos surgem à frente, seguidas de um grupo de sonantes trombeteiros. Vinham depois os cavalos de raça da Casa Real, a irmandade de S. Jorge, tímbales e mais trombeteiros, outras irmandades, as diversas confrarias, a generalidade dos cleros regular e secular, os párocos de toda a Lisboa e os cónegos. De seguida a Cúria patriarcal, a nobreza na sua ordem hierárquica, o Conselho de Estado, o Conselho da Fazenda, os representantes máximos dos tribunais, as ordens militares, os pagens e capelães do patriarca, os cantores da Igreja Patriarcal, o seu cabido, os mais altos dignitários eclesiásticos. Por fim, no vértice da cerimónia, o pálio, transportado pelo rei, situado à direita, e pelos seus irmãos que se revezavam com a principal nobreza, cobrindo a representação do Santíssimo Sacramento transportada pelo patriarca. Enquadrando cenicamente o desfile, sublinhando as suas caraterísticas dramáticas, dispunha-se um conjunto vasto de peças de arquitectura perecível de grande cuidado artístico e a mole imensa de gente claramente perturbada pelo estilo do acto.
A procissão do Corpo de Deus passaria, a partir dessa altura, a constituir um signo da grandeza da cidade e do seu real senhor, a  máxima expressão, dourada e sensível, da fé única. A sua importância na sequência do ano cívico da capital ganhou tal projeção que, no ano de 1737, os varredores da limpeza não encontraram melhor ocasião para fazerem uma greve pelo pagamento dos salários, há longo tempo atrasados. Tomás Pinto Brandão irá reconhecer em 1731, reconhecendo a estreita ligação entre o brilho das festas e as disposições nesse sentido mandadas tomar pelo rei, que «nada no Planeta quarto / se enxergava nessa hora, / por disposições do Quinto, / do qual estamos à sombra».


Professor Rui Bebiano - 26 de maio de 2016

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Experiências biológicas em nome do arianismo



Sob a doutrina racista do III Reich, cerca de 7,5 milhões de pessoas perderam a dignidade e a vida em campos de concentração, especialmente preparados para matar em escala industrial, episódios que ficaram conhecidos como Holocauto. Para os nazistas, aqueles que não possuíam sangue ariano não deveriam ser tratados como seres humanos.
A política anti-semita do nazismo visou especialmente os judeus, mas não poupou também ciganos, negros, homossexuais, comunistas e doentes mentais. Estima-se que entre 5,1 e 6 milhões de judeus tenham sido mortos durante o Holocausto, o que representava na época cerca de 60% da população judaica na Europa. Foram assassinados ainda entre 220 mil e 500 mil ciganos.
O Tribunal de Nuremberg estimou em aproximadamente 275 mil alemães considerados doentes incuráveis que foram executados, mas há estudos que indicam um número menor, cerca de 170 mil. Não há dados confiáveis a respeito do número de homossexuais, negros e comunistas mortos pelo regime nazista.
A perseguição do III Reich começou logo após a ascensão de Hitler ao poder, no dia 30 de janeiro de 1933. Ele extinguiu partidos políticos, instalou o monopartidarismo e passou a agir duramente contra os opositores do regime, que eram levados a campos de concentração -- em março de 1933 já havia 25 mil presos no campo de Dachau, no sul da Alemanha. Livros de autores judeus e comunistas -- entre eles Freud, Marx e Einstein -- foram queimados em praça pública. A intelectualidade, acuada, só assistia.
Os condenados sofriam torturas, eram obrigados a fazer trabalhos forçados ou acabavam morrendo por fome ou doença. Eram também considerados inimigos do III Reich os comunistas -- embora Hitler tenha se associado União Soviética para garantir a invasão da Polônia --, pacifistas e testemunhas de Jeová. Um ano após Hitler ter assumido o poder foram baixadas leis anti-judaicas iniciando o boicote econômico.
Após a expulsão dos judeus poloneses da Alemanha, um jovem repatriado, Herschel Grynspan, assassinou em Paris o secretário da embaixada alem, Ernst von Rath. Isso detonou entre os dias 9 e 11 de novembro de 1938 uma série de perseguições que ficaram conhecidas como a Noite dos Cristais. Centenas de sinagogas foram incendiadas, 20 mil judeus foram levados a campos de concentração e 91 foram mortos, segundo informações de fontes alemães. Cerca de 7 mil lojas foram destruídas e os judeus ainda foram condenados a pagar uma multa de indenização de 1,5 bilhão de marcos.

Processo de Exclusão
A partir de setembro de 1939, com a invasão da Polônia, o III Reich iniciou uma nova etapa, mais pragmática, na política de segregação racial. Em território polonês, onde a colônia judaica concentrava cerca de 3,5 milhões de pessoas, foram criados os guetos, espaços nos quais os judeus eram confinados e compelidos a usar um distintivo com uma estrela amarela em suas roupas, que identificava a religiosidade, e obrigados a trabalhar para o esforço de guerra alemão. Nessa etapa, as condições subumanas a que essas pessoas eram submetidas levaram milhares a morte. Não se sabe, contudo, se o confinamento em guetos já fazia parte de um plano que previa o genocídio do Holocausto. 
Três semanas após a invasão da Polônia o chefe do Escritório Central de Segurança do Reich, Reinhard Heydrich, ordenou que os judeus poloneses se mantivessem estreitamente agrupados. Para eles, o confinamento era justificado pela necessidade de excluir os judeus, tidos como uma praga.
O primeiro gueto foi estabelecido em Lodz, segunda maior cidade da Polônia, no início de 1940, e abrigou entre 160 mil e 200 mil pessoas em uma área de 3,2 quilômetros quadrados. O maior foi o de Varsóvia, formado no mesmo ano, onde foram confinados cerca de 500 mil judeus e ocorreu o mais significativo movimento de resistência judaica.
Nos guetos, a administração de assuntos da comunidade era de responsabilidade dos Jundenrte -- conselhos formados por judeus --, que se reportavam aos alemães. Essas organizações sofreram muitas críticas pela pouca resistência que ofereceram aos alemães. Integrantes dos Jundenrte acreditavam que, adotando uma conduta de colaboração com os nazistas, poderiam aliviar o sofrimento da população do gueto, onde suas condições eram precárias, sem comida, muitas doenças e  mortes se espalharam.
Outros guetos importantes foram os de Cracvia, com aproximadamente 72 mil judeus, Lublin, com cerca de 40 mil, e Vilna, com algo em torno de 60 mil.
A partir de 15 de outubro de 1941 uma nova ordem de conduta alemã passou a punir com pena de morte os judeus que deixavam os guetos. Nessa situação, os nazistas armados controlavam tudo. Difícil, então, imaginar que qualquer tipo de resistência seria possível.

Campos de Concentração Nazistas
Os campos nazistas do Holocausto eram localizados basicamente na Polônia, onde havia a maior concentração de judeus na Europa. Era para lá que seguiam os comboios ferroviários com prisioneiros deportados das regiões ocupadas.
Os campos de Sobibor, Belzec, Chelmno e Treblinka funcionaram entre 1941 e 1943. Auschwitz-Birkenau e Majdanek eram imensos, construídos ao redor de complexos industriais que também possuiam câmaras de extermínio mantidas em operação até 1944.
Para facilitar o transporte dos prisioneiros, os campos eram construídos nas proximidades das linhas ferroviárias. Os trens chegavam superlotados. Nos vagões de janelas minúsculas não havia comida, água e agasalhos, o que provocava a morte de muitos por frio, fome ou sede durante o transporte. Separados de suas famílias, os que chegavam vivos eram selecionados de acordo com o estado de saúde, para trabalhos forçados ou extermínio.
Campo de Auschwitz
No complexo de Auschwitz, no sul da Polônia, junto cidade de Oswiecim, na alta Silsia, as estimativas mais confiáveis indicam que tenham sido exterminadas entre 1,3 milhões e 1,5 milhões de pessoas em câmaras de gás.
Este foi o maior entre os dois mil campos de concentração e trabalhos forçados construídos pelos nazistas. Ali foram mortos cerca de 1,2 milhões de judeus (25% do total de judeus mortos na guerra), 150 mil poloneses, 23 mil ciganos e 15 mil soviéticos.
Quando as forças soviéticas libertaram o campo, na tarde de 27 de janeiro de 1945, encontraram gigantescas pilhas com cerca de 850 mil vestidos, 350 mil ternos, milhares de pares de sapatos e montanhas de roupas de crianças, além de oito toneladas de cabelos humanos que seriam utilizados como enchimento de travesseiros.
As tropas soviéticas libertaram 7.650 presos, a maioria dos quais mal podia se locomover. Alguns dias antes da chegada dos soviéticos, os alemães tiveram o cuidado de dinamitar as instalações de extermínio do Holocausto e de queimar quase todos os arquivos. Os documentos que sobraram foram divididos entre soviéticos e poloneses.
O campo de Auschwitz tornou-se o símbolo da barbárie nazista. Era uma linha de produção da morte desenvolvida de forma a envolver o maior número de pessoas, com a máxima economia de recursos, aproveitando os cadáveres como matéria-prima para a produto industrial de sabão.

Campos de Concentração Americanos
Os Estados Unidos também instalaram campos de concentração durante a Segunda Guerra. Após o ataque da marinha japonesa a base americana de Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, foram criados espaços chamados de "campos de internamento" para abrigar os japoneses e seus descendentes, basicamente imigrantes residentes na Califórnia.

Campo de Concentração Japonês
O médico japonês Ken Yuasa, cirurgião do Exército Imperial durante a Segunda Guerra, fez em 1994 denúncias que as autoridades de seu país evitaram comentar. Ele trabalhou na Unidade 731, a que se dedicava aos estudos da guerra bacteriológica e química que tentou aprimorar a medicina militar através de experiências em seres humanos vivos, realizando testes no norte da China, colocava japoneses aos efeitos do gás mostarda (mortífero) e injetava vírus igualmente mortíferos em prisioneiros de guerra ingleses, depois os observava e anotava todas as suas reações.
Os Estados Unidos tentaram fazer um acordo propondo o seguinte: se os japoneses entregassem os resultados dessas pesquisas o caso da Auschwitz japonesa seria esquecido de modo internacional (sem interferência da ONU) e seria problemas dele. Mas o Japão no concordou, pois estes dados são valiosíssimos para a corrida químico-tecnológica, e até hoje se estica a briga judicial.

Resistências
Enquanto muitas histórias contam que, durante o Holocausto, os judeus eram descritos como: sheep to the slaughter (carneiro para matar), a realidade é que a reação dos judeus diante da discriminação no foi assim tão dócil.
Entre as décadas de 30 e 40, os judeus da Polônia reagiram contra essa situação, fazendo boicotes aos europeus, porém, nazistas continuaram a fazer leis contra os judeus. No começo dos anos 30, os Ghettos foram criados, grupos de judeus tiveram que deixar suas casas para morarem em outra parte da cidade.
Resistência armada em Ghettos:
Apesar de pesarmos o contrário, resistências armadas de judeus ocorreram durante o Holocausto. Muitas pessoas que participaram desses movimentos foram procuradas e mortas. Alguns desses acontecimentos foram:
Tuchin Ghetto: em 3 de setembro de 1942, 700 famílias judias escaparam deste ghetto em Ukraine. Eles foram encontrados e apenas 15 sobreviveram.
Warsaw Ghetto: em 1943, os residentes desse ghetto tinham organizado um movimento com 1.000 deles sem armamento ou qualquer tipo de equipamento juntamente com jovens sem nenhuma experiência, sendo que nesse período, quase da metade da população estava doente, morrendo de fome e frio.
Em janeiro de 43, a S.S. entrou no ghetto para procurar por mais judeus que iriam para os campos de concentração, foram surpreendidos por bombas e alguma armas de fogo, vinte soldados morreram. Mas para controlar os habitantes foram chamadas 3.000 tropas alemães e 7.000 homens de reforço. O ghetto foi então destruído, e mais de 15 mil judeus foram mortos e a maioria levada para campos de concentração.
Bialystok Ghetto: organizações de parlamentares judeus formados dentro dos ghettos atacaram as tropas alemães quando estava determinado que os nazistas iriam liquidá-los. A batalha durou apenas um dia até que os residentes foram capturados e mortos.
Vilna Ghetto: alguns habitantes começaram a conspirar contra os nazistas em setembro de 43. Muitos foram mortos, mas alguns escaparam com sucesso.
Treblinka: 700 judeus tiveram sucesso em explodirem o campo em agosto de 43. Porém foram mortos durante a Guerra, apenas 12 sobreviveram.
Sobibor: prisioneiros judeus e russos montaram uma trajetória de fuga. Apenas 60 dos 600 prisioneiros sobreviveram, 10 soldados da S.S. foram mortos.
Aschwistz: dia 7 de outubro de 1944 uma das crematórias de Auschwitz foi explodida por sonderkommandos. Estes eram trabalhadores, a maioria judeus, cujo trabalho era jogar fora os corpos dos mortos em câmaras de gás.

Experimentos Biológicos
Os médicos trabalharam em conjunto com os agentes das SS no extermínio do Holocausto promovido pelo estado nazista, atuando como soldados biológicos. Na época estavam muito em evidência as teses sobre eugenia, ciência que estuda as condições mais propícias ao "melhoramento" da raça humana. Foi em nome dela que os médicos nazistas cometeram várias atrocidades.
Para os nazistas não eram os problemas sociais como as carências econômicas e sociais que causavam a marginalidade dos não-arianos. Ao contrário, a congênita "inferioridade racial" desses indivíduos que criava tais problemas. Dessa maneira, definiam as execuções como sendo de caráter humanitário, misericordioso, para aqueles "condenados pela seleção natural".
Como para a medicina nazista a boa saúde era característica da superioridade racial ariana, ela deveria ser mantida a qualquer custo. Por essa razão, de 1933 até o início da guerra os alemães considerados "doentes incuráveis" foram submetidos esterilização para que o "mal" que carregavam não fosse proliferado. "doentes incuráveis" que foram esterilizados estavam, conforme relato de Robert Lifton no livro The Nazi Doctors, "60 mil epiléticos, 4 mil cegos hereditários, 16 mil surdos hereditários, 20 mil pessoas com má formação no corpo, 10 mil com alcoolismo hereditário, 200 mil doentes mentais, 80 mil esquizofrênicos e 20 mil maníacos-depressivos".
Lifton cita em seu livro o caso do médico Eduard Wirths, de Auschwitz, que inoculava o bacilo do tifo em judeus sos, sob a justificativa de que estes, naturalmente condenados a morrer, poderiam servir de cobaias para testes de vacinas.
Muitos morreram em "experiências médicas" que incluam exposição a alta pressão e congelamento. Para reforçar o caráter médico das execuções, muitas vezes uma ambulância pintada com as cores da Cruz Vermelha acompanhava os assassinatos.
Muitos médicos se destacaram pela crueldade de seus métodos, entre eles Josef Mengele, de Auschwitz, que fazia experimentos genéticos especialmente em gêmeos. Segundo o professor Robert Proctor, autor de A Higiene Racial - A Medicina na época dos Nazistas, editado pela Harvard University Press, em Cambridge, Massachusetts, "o nazismo era nada mais do que a aplicação dos conhecimentos biológicos". Para ele, tanto a teoria quanto a prática da doutrina nazista tiveram como ponto central a aplicação de uma política biológica.

Conclusão
Sendo assim, o holocausto significou uma das maiores matanças da humanidade, visou principalmente os judeus, mas não poupou ciganos, negros, homossexuais, comunistas e doentes mentais.
Além disso, extinguiu os partidos políticos, implantando o monopartidarismo e levando para os campos de concentração todos que se opunham ao regime.



Por: Edna Maria Guimarães

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Protestantismo e Feminismo




Os Protestantes opuseram-se tanto quanto os Católicos ao activismo femino público e aos movimentos pela igualdade de direitos entre os sexos. No entanto, foi nas nações protestantes que primeiro se criaram as condições que permitiram a formação de movimentos de libertação, entre eles o da emancipação das mulheres. Nas nações onde a Igreja Católica manteve o domínio absoluto, as mulheres continuavam a ter a Virgem Maria e as santas como importantes ícones religiosos, cujos cultos absorviam grande parte da prática da religiosidade feminina.

O Catolicismo preservou intacto o estatuto de subordinação da mulher, expresso no papel de esposas e mães, como no de reclusas nos conventos.

As mulheres católicas que desejassem reivindicar direitos de igualdade legal, política e económica teriam de primeiro romper com a Igreja, por vezes completamente. Simone de Beauvoir, por exemplo, chamou à sua perda de fé “a minha conversão ao mundo real”, sentimento certamente partilhado por muitas mulheres católicas que se tornaram feministas, como as Três-Marias portuguesas.

Nas nações católicas, poucas foram as mulheres que se juntaram a movimentos feministas, antes dos movimentos generalizados de emancipação da mulher da década de 1970. O mesmo já não ocorreu nas nações que adoptaram a Fé protestante.

É verdade que as Igrejas Protestantes também preservaram a tradição patriarcal e que reduziram drasticamente as oportunidades de participação feminina na Igreja, com a eliminação do culto à Virgem e aos santos e o repúdio da vida em reclusão, em conventos e mosteiros. No entanto, a intensa prática religiosa doméstica, a leitura pessoal da Bíblia, a diferente leitura de algumas das doutrinas cristãs e as diferentes formas de disciplina eclesiástica abraçadas pelas diversas denominações protestantes criaram uma atmosfera mais propícia à rejeição das tradições culturais seculares que sublinhavam o estatuto de subordinação da mulher. A ênfase nas doutrinas da igualdade espiritual, na inviolabilidade da liberdade de consciência religiosa, e na responsabilidade de cada indivíduo pela sua própria salvação, estimulou o individualismo e a independência do pensamento, que levou as mulheres protestantes a cedo descobrirem a paradoxalidade do seu estatuto de subordinação social, e a começarem a questionar os papéis tradicionais que lhes eram socialmente impostos.

Foram esses factores que fizeram surgir mulheres de fortes convicções e grande poder de argumentação, como as britânicas e norte-americanas acima referidas, e que explicam o facto de ter sido nas nações protestantes que as mulheres primeiro conseguiram o direito de voto e outros importantes direitos civis.

A ética protestante foi igualmente instrumental na transição de uma sociedade aristocrática, baseada numa economia agrária feudal, para uma sociedade burguesa, baseada numa economia agrária capitalista, no comércio e na indústria, transição que, em termos políticos, se traduziu na transferência do poder da Coroa para o Parlamento e da aristocracia para a burguesia, estabelecendo a classe média como classe económica e política dominante.

O crescimento económico da classe média concorreu significativamente para a melhoria do estatuto das mulheres, especialmente o das mulheres da burguesia urbana, que começaram a receber melhor educação e, tal como as mulheres da aristocracia, a dispor de tempos livres para se dedicarem à leitura e à escrita. Por outro lado, a expansão das actividades económicas urbanas abriu novas oportunidades de trabalho para as mulheres, que lhes permitiram adquirir maior independência económica e, como consequência natural, maior poder reivindicativo.

Assim, embora até ao século XVIII as mulheres que abordaram a questão dos seus direitos tivessem as mais diversas origens sociais: mulheres tituladas, como a duquesa de Newcastle; bluestockings, como Lady Montagu; educadoras, como Bathsua Makin; ou simples mulheres da burguesia mercantil, como Mary Wollstonecraft, os movimentos pelos direitos da mulher do século XIX e início do século XX foram esmagadoramente compostos por mulheres pertencentes a famílias de riqueza moderada, seja de origem fundiária, comercial, industrial ou das profissões liberais. Foram, na verdade, especialmente as mulheres da classe média urbana que, durante o século dezanove, mais sentiram a privação dos direitos educacionais, económicos e políticos que os homens da sua classe social estavam a adquirir.

O sucesso do liberalismo político e do crescimento económico, em grande medida fomentado pela ética protestante, está, por conseguinte, na base da razão de ter sido em Inglaterra e nos Estados Unidos que a classe média primeiro ascendeu ao poder político em número expressivo, e onde primeiro ocorreram os maiores e mais bem organizados movimentos pelos direitos das mulheres, que serviram de paradigmas a outros movimentos feministas europeus.

Entre 1830 e 1920, milhares de mulheres pertencentes a famílias britânicas e norte-americanas da classe média liberal mobilizaram-se e lutaram pelo direito ao sufrágio, pelo direito ao controlo das suas propriedades e dos seus ganhos, e pelo direito à educação.

 

in LUTA DAS MULHERES PELO DIREITO DE VOTO, movimentos sufragistas na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, Zina Abreu.

 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O vestígio judaico mais antigo da Península Ibérica


A decifração da inscrição na placa de mármore encontrada no sítio das Cortes ainda está em curso
A decifração da inscrição na placa de mármore encontrada no sítio das Cortes ainda está em curso (Dennis Graen)

Descoberto perto de Silves o vestígio judaico mais antigo da Península Ibérica                           

Trata-se de uma placa de mármore que, ao que tudo indica, terá sido uma lápide funerária e que data, no mínimo, do fim do século IV da nossa era.

Quem terá sido Yehiel? Talvez um escravo judeu que viveu - e morreu - há mais de 1600 anos numa sumptuosa vila romana (uma casa senhorial) perto de Silves, no Algarve? Talvez nunca venha a saber-se. Mas o que parece estar garantido é que a descoberta agora anunciada por arqueólogos alemães, realizada em colaboração com arqueólogos portugueses, representa o mais antigo vestígio cultural judaico jamais encontrado na Península Ibérica.

A equipa de Dennis Graen, da Universidade Friedrich Schiller de Jena, na Alemanha, anda há três anos a escavar as ruínas de uma vila romana descoberta em 2005 por Jorge Correia no sítio das Cortes, próximo de São Bartolomeu de Messines e da Estrada Nacional 124. Na altura, este arqueólogo da Câmara Municipal de Silves encontrara cerâmicas e mosaicos romanos à superfície.

O concelho de Silves é rico em vestígios históricos. A descoberta foi há quase um ano, mas só agora viu confirmada a sua importância. "Isto é uma paixão", diz-nos o arqueólogo português, que, embora não tenha feito parte da equipa que procedeu à escavação, acompanhou de perto os trabalhos. "Conheço bem o terreno, e estava aqui todos os dias."

À vista encontram-se as estruturas da vila romana, com mais de cem metros quadrados, que teriam sido destinadas ao curral e outras instalações de apoio aos animais. A parte principal da vila continua por descobrir e, em Setembro, as escavações vão ser retomadas. Mas enquanto o proprietário do terreno onde decorreram até aqui as escavações não levantou qualquer obstáculo, o vizinho das terras ao lado não as autorizou, conta Jorge Correia.

Contactado pelo PÚBLICO, Graen explica de onde veio o interesse da equipa alemã por aquele local: "Em 2008, estávamos à procura de um sítio interessante para começar um projecto." O objectivo inicial era estudar o modo de vida dos habitantes do interior da província romana da Lusitânia. Enquanto a costa portuguesa já tinha sido bastante explorada, o mesmo não acontecera no interior algarvio.

Para a presidente da Câmara de Silves, Isabel Soares, a universidade alemã pode contribuir para despertar ainda mais o valor histórico do município, pois a comunidade local "não dá muitas vezes valor ao património". A importância de Silves na época do domínio árabe faz com que, a cada passo, se encontrem sinais históricos a lembrar esse passado. A propósito do novo achado na vila romana, diz Isabel Soares: "A comunidade judaica não deixará certamente de se identificar com este local."

O contacto entre especialistas alemães e portugueses "foi estabelecido por Pedro Barros, responsável pela Extensão do Algarve do Igespar" (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico), salienta Graen. "Após termos localizado com técnicas de prospecção geofísica a posição das estruturas soterradas, começámos a escavar em 2009."

Mas naquela altura os cientistas não estavam de todo à procura de sinais da cultura judaica. "Na realidade", diz Henning Wabersich, um dos elementos da equipa de escavação, em comunicado da universidade, "estávamos à espera de encontrar alguma inscrição em latim, quando demos com a lápide." Os cientistas demorariam algum tempo a determinar em que língua estava inscrita.

A placa, de mármore, mede 40 centímetros por 60 e nela lê-se o nome "Yehiel" (um nome mencionado na Bíblia), seguido de uma série de letras cuja decifração ainda está em curso. Hastes de veado descobertas junto da lápide, que foram entretanto datadas por radiocarbono, remontam ao ano 390 da era cristã, o que sugere que a lápide não pode ser posterior a essa data.

Bênção do céu

Até aqui, o vestígio arqueológico mais antigo deixado por judeus no actual território de Portugal era uma lápide funerária com uma inscrição em latim e uma gravura de uma menorá (candelabro de sete braços) datada de quase cem anos mais tarde: 482 d.C. "Essa lápide foi encontrada na basílica paleocristã de Mértola, no Sudeste do Alentejo", diz-nos ainda Graen. Há também duas inscrições em hebraico que, salienta o investigador, "datam provavelmente dos séculos VII ou VIII e foram descobertas em Espiche (Lagos) no século XIX".O novo achado tem uma outra particularidade absolutamente inédita, para além da sua idade, como frisa Graen: "Em todo o Império Romano, nunca foi encontrado até aqui qualquer outro vestígio hebraico/judaico numa vila romana."

Perguntamos-lhe: poderá Yehiel ter sido um escravo a viver na casa de Cortes naquela altura? "Sim, seria uma possibilidade", responde. "Mas talvez o dono da casa fosse judeu - ou, mais provavelmente, talvez tenha havido um cemitério na proximidade da casa e a lápide veio dali."

Por que é que ainda não foi possível decifrar toda a inscrição? "A má qualidade dificulta a decifração", diz Graen. "Mas fui contactado ainda hoje [ontem] por mais um perito que me garante que consegue ler "O judeu recebeu a bênção do céu"."

Porém, Graen frisa que a inscrição não estará em hebraico: "Foi provavelmente escrita em aramaico ou noutra língua semita." Mas de uma coisa ele não tem dúvidas: "É a lápide do túmulo de um homem da Judeia e, portanto, é o mais antigo vestígio deixado por um judeu na Península Ibérica."

PÚBLICO, 30.05.2012 - Por Ana Gerschenfeld, Idálio Revez.

domingo, 8 de abril de 2012

Saúde e Doença na Idade Média: entre o castigo e a redenção


"A extração da pedra da loucura" (1485), do pintor italiano Hieronymus  Bosch (1450-1516), retrata a conceção medieval que supunha a loucura como uma pedra no cérebro. Bosch, na sua imaginação, no momento da extração da doença, coloca no lugar da dureza da pedra a delicadeza de uma flor. A imagem que se tinha da loucura era de algo místico, desconhecido, considerado o lugar imaginário da passagem da vida à morte.


Na Idade Média, o espetáculo da doença e da morte atingia a todos. Para ludibriar a morte, evitava-se o contato, a proximidade, o toque e, ao mesmo tempo, buscava-se neutralizar com perfumes e com máscaras os odores que corrompiam o ar. Por isso, os médicos que cuidavam de doentes com a peste negra usavam máscara como uma forma de proteção. O formato de um bico de pássaro era para distanciar ainda mais o contato com o ar pestilento.


O Navio dos Loucos, pintura de Hieronymus Bosch (1450 - 1516), apresenta, de forma alegórica, a devassidão e a profanidade presentes em todos os grupos sociais da Idade Média, incluindo o Clero, como se pode ver na imagem onde são retratados uma freira e um frade franciscanos que se encontram tão distraídos, tentando fincar os dente num pedaço de pão pendurado por um fio, que nem reparam que um ladrão tenta roubar o pouco que lhes resta. Na imagem, mais uma vez, a morte é representada pela caveira na árvore.

(Fonte: www.wikipedia.org - em junho de 2010)

Carlos Batistella

Com a queda do Império Romano e a ascensão do regime feudal, por volta do ano 476 d.C., evidenciaram-se o declínio da cultura urbana e a decadência da organização e das práticas de saúde pública. As instalações sanitárias tanto na sede como nas províncias do antigo Império foram destruídas ou arruinaram-se pela falta de manutenção e reparos (Rosen, 1994).

Enquanto no Ocidente a desmantelação da máquina do governo e o declínio económico fazia o Império agonizar, no Oriente, em Bizâncio (hoje Istambul, Turquia), onde as invasões bárbaras não chegaram a ameaçar, foram mantidas várias das conquistas do mundo clássico e a herança da tradição médica greco-romana.

A Idade Média (500-1500 d.C.) foi marcada pelo sofrimento impingido pelas inúmeras pestilências e epidemias à população.

A expansão e o fortalecimento da Igreja são traços marcantes desse período.

O cristianismo afirmava a existência de uma conexão fundamental entre a doença e o pecado. Como este mundo representava apenas uma passagem para purificação da alma, as doenças passaram a ser entendidas como castigo de Deus, expiação dos pecados ou possessão do demónio.

Consequências desta visão, as práticas de cura deixaram de ser realizadas por médicos e passaram a ser atribuição de religiosos. No lugar de recomendações dietéticas, exercícios, chás, repousos e outras medidas terapêuticas da medicina clássica, são recomendadas rezas, penitências, invocações de santos, exorcismos, unções e outros procedimentos para purificação da alma, uma vez que o corpo físico, apesar de albergá-la, não tinha a mesma importância.

Como eram poucos os recursos para deter o avanço das doenças, a interpretação cristã oferecia conforto espiritual, e morrer equivalia à libertação (Rosen, 1994).

A difusão da igreja católica e da sua visão tornou marginal qualquer explicação racional que pretendesse aprofundar o conhecimento a partir da observação da natureza.

As ciências, e especialmente a medicina, eram consideradas blasfémias diante do evangelho. A especulação científica era, portanto, desnecessária (Scliar, 2002). Assim, o desenvolvimento da medicina só teve continuidade entre os árabes e judeus, onde a tradição de Hipócrates e Galeno de Pérgamo foi acrescida de importantes estudos em farmacologia e cirurgia. Destacam-se nesse período Avicena (980-1037) e Averróis (1126-1198).

O medo das doenças era constante nos burgos medievais. Dentre as inúmeras epidemias que aterrorizavam as populações (varíola, difteria, sarampo, influenza, ergotismo, tuberculose, escabiose, erisipela, etc.), a lepra e a peste bubónica foram, sem dúvida, aquelas de maior importância e preocupação.

Caso emblemático, a lepra era tida como manifestação evidente da impureza diante de Deus, e os seus portadores deveriam ser condenados ao isolamento, conforme descrição bíblica. Considerados mortos, rezava-se uma missa de corpo presente antes dos mesmos seguirem para o leprosário. Aqueles que vagueassem pelas estradas deveriam usar vestes características e fazer soar uma matraca para advertir os outros da sua perigosa ameaça. Todo o estigma e as consequências do seu diagnóstico fizeram da lepra a doença mais temida nesse período (Rosen, 1994; Scliar, 2002).

A peste bubónica, por sua vez, marcou o início e o ocaso da Idade Média. Causada por uma bactéria, Pasteurella pestis, transmitida pela pulga de ratos, a doença foi responsável pela morte de cerca de ¼ da população europeia em 1347. Dentre as principais causas apontadas estavam as viagens marítimas e o aumento da população urbana, que, somados aos conflitos militares, aos intensos movimentos migratórios, à miséria, à promiscuidade e à falta de higiene nos burgos medievais, tornaram o final deste período histórico digno da expressão muitas vezes evocada para descrevê-la: a idade das trevas.

Ainda que limitadas, algumas ações de saúde pública foram desenvolvidas na intenção de sanear as cidades medievais. A aglomeração crescente da população – que chegava trazendo hábitos da vida rural, como a criação de animais (porcos, gansos, patos) –, o acúmulo de excrementos nas ruas sem pavimentação, a poluição das fontes de água, a ausência de saneamento e as péssimas condições de higiene, produziam um quadro aterrador. Buscou-se então garantir o suprimento de água aos moradores para beber e cozinhar; pedia-se que não fossem lançados animais mortos ou refugos na corrente do rio; proibia-se a lavagem de peles e o despejo de resíduos dos tintureiros nas águas que serviam à comunidade.

Somente no final da Idade Média é que, pouco a pouco, foram sendo criados códigos sanitários visando normalizar a localização de chiqueiros, matadouros, o despejo de restos, o recolhimento do lixo, a pavimentação das ruas e a canalização de dejetos para poços cobertos (Rosen, 1994). Ainda assim, é preciso lembrar que os hábitos culturais dos habitantes tornavam boa parte das medidas inócuas.

Também na Idade Média é que surgem os primeiros hospitais. Originados da igreja, nas ordens monásticas, inicialmente estavam destinados a acolher os pobres e doentes.

Para Foucault (1982a: 99-100), antes do século XVIII, o hospital era essencialmente uma instituição de assistência aos pobres. Instituição de assistência, como também de separação e exclusão. O pobre como pobre tem necessidade de assistência e, como doente, portador de doença e de possível contágio, é perigoso. Por estas razões, o hospital deve estar presente tanto para recolhê-lo quanto para proteger os outros do perigo que ele encarna. O personagem ideal do hospital, até ao século XVIII, não é o doente que é preciso curar, mas o pobre que está morrendo. É alguém que deve ser assistido material e espiritualmente, alguém a quem se deve dar os últimos cuidados e o último sacramento. (...) E o pessoal hospitalar não era fundamentalmente destinado a realizar a cura do doente, mas a conseguir a sua própria salvação.

Outra importante contribuição deste período foi a instituição da prática da quarentena para deter a propagação das doenças. O êxito da experiência do isolamento de leprosos – embora proposta por razões religiosas – reforçou a ideia da sua utilização para outras doenças comunicáveis. Diante da epidemia da peste, em meio a outras práticas baseadas na compreensão miasmática e no misticismo (como uso de perfumes, fogueiras purificadoras etc.), a retirada das pessoas da convivência e a sua observação até à garantia de que não estivessem doentes já apontavam uma preocupação com a natureza contagiosa de algumas doenças.

Surgida em 1348 em Veneza, principal porto de comércio com o Oriente, a quarentena consistia na notificação de casos suspeitos às autoridades e no isolamento e observação rigorosa de pessoas suspeitas, embarcações e mercadorias por quarenta dias, numa ilha situada na laguna. Posteriormente, outros locais foram designados com a finalidade de promover a reclusão quarentenária.

Como síntese desse período, parece-nos importante lembrar que, embora a natureza comunicável de algumas doenças fosse cada vez mais nítida - como a lepra e a peste –, a teoria miasmática ainda persistia como modelo explicativo. Ou seja, não havia evidência do elemento comunicável que não aqueles já sugeridos por Hipócrates: uma alteração atmosférica, onde águas estagnadas e matéria orgânica em decomposição corrompiam o ar. Naturalmente que, sob o poder da igreja, foram desautorizadas todas as iniciativas de avanço no conhecimento das causas das doenças e até mesmo de sugestão de qualquer explicação que estivesse além da fé. Aqueles que insistissem enfrentariam os tribunais da Inquisição.

FIOCRUZ

Postado por Eduardo Marculino http://historianovest.blogspot.pt/2012/02/saude-e-doenca-na-idade-media-entre-o.html

Nota: Expressões a bold da minha iniciativa (Nazaré Oliveira)