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terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Trabalho escravo nos arrozais de Alcácer do Sal durante o salazarismo

 


A estranha gente dos arrozais 

Um excelente artigo publicado no blogue O SAL DA HISTÓRIA.


Em plena ditadura, um jornal lisboeta dedica três grandes reportagens às gentes do Vale do Sado. Com uma abertura inesperada, fala de exploração, miséria e trabalho escravo, da gente de Alcácer; dos algarvios e beirões, a “malta”, que todos os anos vinha aos milhares trabalhar esta terra.

Em outubro de 1945, como todos os anos por esta altura, decorria a colheita do arroz, maduro já nos vastíssimos campos do Vale do Sado. Em pleno Estado Novo, o Diário de Lisboa traça, em três longas reportagens, um retrato singular da “estranha gente dos arrozais”, autênticos escravos da terra, que têm em comum mais do que se possa pensar com a atual gente das estufas. Mas não vinham da Índia ou do Nepal, migravam sobretudo do Algarve e das Beiras.


Arregimentados por “sotas”, que lhes retinham parte dos míseros salários, a “malta” fazia os trabalhos mais pesados, juntando o seu esforço aos braços alentejanos, que os patrões entendiam ter menor rendimento. Chegaram a ser sete mil a cada ano.


As mulheres – e as crianças - ombreavam em empenho e horas, mas não no pagamento, recebendo metade do que auferiam os homens: seis escudos por uma jornada que podia chegar às 15 horas.


Mondavam, ceifavam, faziam o que fosse preciso, quase sempre vergadas sobre si próprias. Descalças e com água até meio da perna, mal tinham ordem de levantar os olhos, quanto mais a cabeça, que o capataz estava à espreita, de vara na mão.

Poucos eram os momentos de pausa – quando vinha a aguadeira ou almoçavam – e era nessa faina incessante que, por vezes, se ouviam as vozes entoar a cadência repetitiva e interminável do Ladrão do Sado, onde cantavam as suas mágoas e esperanças ou simplesmente relatavam um pouco das suas sofridas existências.


Para se abrigarem do sol inclemente e outras agruras, inventaram a curiosa indumentária que junta saias – arregaçadas – e calças – que protegiam do restolho áspero e das sanguessugas, mas não do “mal da monda”, as bolhas e feridas deixadas pelos pesticidas, tratadas depois com pomadas e mezinhas. Lenço na cabeça, tapando parte do rosto, manga comprida ou meias de senhora a cobrir os braços.



E chapéu. Este, artigo de luxo mais do que de utilidade, era “obrigatório” e chegava a custar cinco dias de trabalho. Constituía o orgulhoso rasgo de vaidade feminina, tantas vezes decorado com fitas, flores, objetos leves e a fotografia do moço eleito pelos seus corações.

Estas mondinas, como por aqui, genericamente, são conhecidas, eram raparigas envelhecidas, caras tisnadas e mirradas, vítimas fáceis das sezões que lhes tiravam a cor do rosto, amareleciam os olhos e enegreciam as bocas.

A “malta” e a gente de Alcácer viviam em mundos paralelos, que raramente se tocavam, apesar de partilharem espaços e tarefas. Em comum, a total dependência do patrão, que definia as regras do jogo, alterando-as de acordo com o que lhe era mais conveniente, e a vulnerabilidade ao mosquito, que transmitia as febres e contribuía para que, por norma, morressem cedo.

Os de fora vinham em setembro e abalavam pelo São João. “Eram ainda mais miseráveis que os da terra”, vítimas de um “comércio afrontoso, imagem de negócio de carne humana”.

 



Viviam inevitavelmente sob o telhado do dono da herdade, em imensos "casões", “aos cem de cada vez e mais, sobre uma faixa de palha de arroz ou de mato, cobertos com a sua manta” ou, na melhor das hipóteses, dormiam em esteiras de junco suspensas das paredes. Camas eram raras.

No campo, os do Alentejo tinham cada um o seu púcaro, que traziam de casa com comida. A coque – a cozinheira de serviço – dispunha-os ao lume, em fila, para estarem prontos à hora da refeição (na imagem).

Para alimentar os da “malta” havia apenas um enorme tacho, à roda do qual se organizavam, fazendo circular uma solitária colher que, à vez, servia a todos.

 


Ao sábado largavam o trabalho com luz e acorriam à vila a gastar a rala semanada. Folgavam ao domingo e era neste dia ou quando o patrão consentia numa adiafa – a comemorar o fim da colheita, por exemplo - que se entregavam a um bailarico, que era o único divertimento conhecido.

Apesar de homens e mulheres terem labutas e alojamentos apartados, ocasionalmente, mesmo no meio de tanto trabalho e esforço, há dois pares de olhos que se cruzam, um sinal com um lenço, um interesse que cresce…quando se dava por isso, iam pedir autorização ao capataz para “erguer palhoça ou barraca”. Era sinal de que havia mais um casal no rancho.


 Nasceram assim autênticas aldeias, que faziam lembrar terras africanas e que já não existem. Também assim se criaram e fixaram muitas famílias que se tornaram alcacerenses.

Hoje, o arroz está totalmente mecanizado. A população de Alcácer do Sal tem vindo a diminuir drasticamente, dizem os censos, ocupando-se ainda na agricultura, mas já também nos serviços. Os migrantes são outros.

 À margem

Alcácer do Sal é uma terra de fronteira e de encontros. Embora geograficamente localizada na região alentejana, está mais próxima do litoral do que do Alentejo profundo. Talvez por isso, os costumes tenham um sabor especial e regras próprias. É assim com o Ladrão do Sado.

Diferente do tradicional cante, é uma moda de improviso, cantada à desgarrada, típica deste concelho e única no País.

Tem a particularidade de tanto poder ser cantado na taberna, como no baile de roda, mas era sobretudo durante o trabalho que era ouvido. É, além disso, o único canto de improviso do sul de Portugal, que pode ser entoado, em simultâneo, por homens e mulheres.

Cantavam em diálogo os temas do quotidiano, os namoros, as bebedeiras, “com troças irónicas e críticas”.

Devemos ao etnomusicólogo francês Michael Giacometti uma recolha efetuada em 1984 neste concelho, com modas tocadas e cantadas e especial enfoque no Ladrão do Sado.

Às novas gerações já pouco diz, remetendo para o tempo dos seus avós ou para os festivais de folclore. Talvez sejam poucos os que ainda saibam o que representava, como alento, companhia e recriação daqueles trabalhadores que pouco ou nada tinham.

É também chamado Ladrão de Palma ou Ladrão dos Pretos, pois a sua origem é atribuída aos trabalhadores escravos africanos trazidos para o Vale do Sado a partir do século XV e que, como todos os que se lhes seguiram, acabaram por se cruzar com a população local, fazendo parte das suas raízes peculiares.

 Mas isso é outra história…


Agradeço a Maria Antónia Lázaro, que me deu a conhecer estes textos publicados em 1945.

 

Fontes

Diário de Lisboa, 01.10.1945, 03.10.1945, 04.10.1945.

 António José Serra Carqueijeiro (Tona) e Elísio Baracinha (Acordeão) - O Ladrão do Sado - YouTube

Cortesia de Miguel Ângelo Catarino Vaquinhas

Município e Direcção Regional da Cultura apostados em preservar canto de improviso em risco (rtp.pt)

Isabel Castro Henriques, Os pretos do Sado – História e memória de uma comunidade alentejana de origem africana, Lisboa, Edições Colibri, 2020.

 

Imagens

Arquivo Municipal de Alcácer do Sal

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Disponível em https://osaldahistoria.blogs.sapo.pt/a-estranha-gente-dos-arrozais-12377


 


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Visita Guiada pela história da escravatura em Portugal




A partir do século XVI encontramos em Lisboa escravos negros em todas os tipos de trabalhos, muitas vezes lado-a-lado com assalariados livres. O escravo é visto, nesta altura, como uma comodidade que se compra, vende ou aluga, havendo senhores que arrendam os seus cativos para o desempenho de actividades pontuais ou sazonais.



sábado, 11 de novembro de 2017

Banquete à moda brasileira (século XVI)



Foi o "costume bárbaro" que mais impressionou os europeus que aqui chegaram no século XVI... A morte ritualizada e a deglutição eucarística dos cativos representava o ponto culminante de uma cerimônia, cujo objetivo quase único era a vingança.
A vítima era capturada no campo de batalha e pertencia àquele que primeiro a houvesse tocado; triunfalmente conduzida à aldeia do inimigo, era insultada por mulheres e crianças (tinha de gritar "eu, vossa comida, cheguei!"). Após essas agressões, porém, era bem tratada, podendo andar livremente - fugir era uma vergonha impensável. O cativo passava a usar uma corda presa ao pescoço: era o calendário que indicava o dia de sua execução - o qual podia prolongar-se por muitas luas (e até por vários anos).
Na véspera da execução, ao amanhecer, o prisioneiro era banhado e depilado; mais tarde, o corpo da vítima era pintado de preto, untado com mel e recoberto com plumas e cascas de ovos, iniciando-se uma grande beberagem de cauim - um fermentado de mandioca.
Na manhã seguinte, o carrasco avançava pelo pátio dançando e revirando os olhos. Parava em frente ao prisioneiro e perguntava: "Não pertences à nação nossa inimiga? Não mataste e devoraste nossos parentes?" Altiva, a vítima respondia: "Sim, sou muito valente, matei e devorei muitos." Replicava então o executor: “Agora estás em nosso poder, serás morto por mim e devorado por todos."
Para a vítima esse era um momento glorioso, já que os índios brasileiros consideravam o estômago do inimigo a sepultura ideal. O carrasco desferia então um golpe de tacape na nuca; velhas recolhiam, numa cuia, o sangue e os miolos - o sangue deveria ser bebido ainda quente. A seguir o cadáver era assado e escaldado, para permitir a raspagem da pele, introduzindo-se um bastão no ânus para impedir a excreção. Os membros eram esquartejados e, depois de feita uma incisão na barriga, as crianças eram convidadas a devorar os intestinos. Língua e miolos eram destinados aos jovens; os adultos ficavam com a pele do crânio e as mulheres com os órgãos sexuais. As mães embebiam os bicos dos seios em sangue e amamentavam os bebês. Os ossos do morto eram preservados: o crânio, fincado em uma estaca, ficava exposto em frente à casa do vencedor; os dentes eram usados como colar e as tíbias transformavam-se em flautas e apitos.


In http://umprofessordehistoria.blogspot.pt/2011/11/banquete-moda-brasileira.html#links (acesso dia 7.11.2017)

Nota: Tentei contactar o autor deste artigo, que é professor, para me fornecer as fontes de informação, mas nada consegui até hoje. 

sábado, 30 de julho de 2016

Vila Viçosa - século XVI - "criação de escravos como se fossem cavalos para reprodução"

Reprodução de “Chafariz d’el Rey no séc. XVI” (pintura flamenga, 1570-80, de autor desconhecido, óleo sobre madeira, 93 x 163 cm, Coleção Berardo), onde são visíveis vários africanos a desempenhar diferentes tarefas. Na imagem mais pequena, reprodução da primeira página do documento que está na Biblioteca Nacional da Ajuda, cópia do século XVIII do original de Venturino, que relata o episódio dos escravos reprodutores de Vila Viçosa.
Ao lado, imagem atual do espaço onde existiu a “ilha” no paço ducal da Casa de Bragança, então habitado por escravos. Ainda hoje os trabalhadores se referem à zona pelo mesmo nome.



Desumanização.

Documento pouco conhecido do século XVI relata criação de escravos, em Vila Viçosa, como se fossem cavalos para reprodução.


A passagem foi escrita em italiano, no século XVI, e é assim que surge no espólio da Biblioteca da Ajuda. Traduzida, revela um português estranho aos leitores contemporâneos e uma realidade difícil de acreditar. “Tem criação de escravos mouros, alguns dos quais reservados unicamente para fecundação de grande número de mulheres, como garanhões, tomando-se registo deles como das raças de cavalos em Itália. Deixam essas mulheres ser montadas por quem quiserem, pois a cria pertence sempre ao dono da escrava e diz-se que são bastantes as grávidas. Não é permitido ao mouro garanhão cobrir as grávidas, sob a pena de 50 açoites, apenas cobre as que o não estão, porque depois as respetivas crias são vendidas por 30 ou 40 escudos cada uma. Destes rebanhos de fêmeas há muitos em Portugal e nas Índias, somente para a venda de crias.”
O relato da existência de escravos reprodutores no Paço Ducal de Vila Viçosa, a mais importante casa nobre portuguesa, foi feito por João Baptista Venturino da Fabriano, secretário do cardeal Alexandrino Miguel Bonello, enviado papal à corte portuguesa em 1571 para propor Margarida de Valois como noiva de D. Sebastião. A união do rei de Portugal com a filha de Henrique II e Catarina de Médici — que acabaria por casar-se no ano seguinte com Henrique IV e tornar-se a rainha Margot de França, célebre pela morte de milhares de protestantes —, não se concretizou. E quanto aos escravos, nada mais se soube.
No século XVI viveriam 350 pessoas no paço ducal e a criação de escravos teria lugar num terreno ao lado da casa principal, uma zona ainda hoje conhecida pelos trabalhadores locais como a “ilha”. Atualmente só resta o chão, coberto de pedras, nas imediações do picadeiro e do local onde terá estado o torreão onde, em 1512, foi degolada D. Leonor, de 23 anos, pelo seu marido, o quarto duque de Bragança, D. Jaime, acusada de ter um pajem de 16 anos por amante.
O paço era então liderado pelo sexto duque de Bragança, D. João I, que três anos mais tarde acompanhou D. Sebastião na primeira incursão em África, levando com ele 600 cavaleiros e dois mil infantes. Não participou, contudo, na desastrosa expedição de 1578 devido a violentas febres, tendo enviado o primogénito D. Teodósio II, que com dez anos foi ferido em Alcácer-Quibir e viria a ser pai de D. João IV, aclamado rei de Portugal em 1640.
O “segredo”, com mais de 400 anos, continua a ser desconhecido por muitos dos investigadores da escravatura em Portugal. Os historiadores que o conhecem defendem que o episódio tem de ser estudado para que se compreenda se foi um caso único ou se representa a ponta de um novelo espesso.
O primeiro a ficar incomodado com o relato foi Alexandre Herculano, no século XIX. Nos “Opúsculos”, volume VI, refere o texto de Venturino, com pudor: “Falando dos escravos, a linguagem do autor é bastante solta, e por isso não transcreveremos esta passagem. Basta saber que estes desgraçados eram considerados e tratados como as raças de cavalos em Itália, e pelo mesmo método, que o que se buscava era ter muitas crias para as vender a trinta e quarenta escudos”.
Foram as lacunas de Herculano que levaram Jorge Fonseca, estudioso da escravatura, a procurar o documento original. Encontrou-o na Biblioteca da Ajuda, traduziu a passagem e publicou-a em 2010 no livro “Escravos e Senhores na Lisboa Quinhentista”. Um ano depois, Isabel Castro Henriques, a maior especialista portuguesa da área, cita-a em “Os Africanos em Portugal, História e Memória, séculos XV-XXI”. E é ela quem mais se insurge com a inexistência de estudos: “Impõem-se investigações rigorosas. Este é um documento de extrema violência, em que os escravos são tratados como cavalos. A investigação é difícil mas tem de ser feita”, afirmou recentemente numa conferência sobre a escravatura, na Biblioteca Nacional, em Lisboa.
SINAIS DE ALERTA                      

Antes de Venturino, Nicolau Clenardo escrevera cartas em que, embora não tão explícita, é referida uma estrutura de produção com fins comerciais: “Os mais ricos têm escravos de ambos os sexos e há indivíduos que fazem bons lucros com a venda dos filhos das escravas nascidos em casa. Chega-me a parecer que os criam como pombas para levar ao mercado. Longe de se ofenderem com as ribaldias das escravas, estimam até que tal suceda.” Testemunha do Portugal do século XVI, Clenardo chegou ao país em 1533 para ser mestre do infante D. Henrique, irmão do rei D. João III e sem meias-palavras, relatou: “Mal pus os pés em Évora, julguei-me transportado a uma cidade do inferno: por toda a parte topava negros.”
Na publicação “A herança africana em Portugal”, Isabel Castro Henriques explica que “desde o início de quinhentos, os autores sobretudo estrangeiros davam conta de uma atividade de produção, marcada por um carácter insólito e cruel: a criação de escravos, como se de animais se tratassem, destinada a abastecer o mercado nacional, mas também para exportação”. E transcreve uma passagem da Collecção da Legislação Portuguesa (1763-1790), que denunciava a existência de pessoas “em todo o Reino do Algarve, e em algumas províncias de Portugal (que tinham) escravas reprodutoras, algumas mais brancas do que os próprios donos, outras mestiças e ainda outras verdadeiramente negras, (designadas) ‘pretas’ ou ‘negras’, pela repreensível propagação delas perpetuarem os cativeiros”.
Questionada sobre as razões da falta de estudos sobre os escravos, Mafalda Soares da Cunha, professora da Universidade de Évora e considerada a mais importante estudiosa da Casa de Bragança, não tem dúvidas: “A investigação histórica mais recente, incentivada pelas novas agendas historiográficas internacionais, começa a tratar de forma mais sistemática e menos dependente ideologicamente da questão da presença dos escravos na história de Portugal. Os resultados são manifestamente insuficientes, mas o tema deixou de ser maldito e silenciado como o foi no passado mais recente. Creio mesmo que desperta interesse entre as gerações mais jovens de historiadores que, de certa forma também entendem o estudo da escravatura como uma forma de participação nas lutas pelos direitos humanos. Mas ainda estamos num estádio muito embrionário.”
Fantasmas históricos, os escravos não são personagens principais. “O estudo de populações com pouco acesso à escrita e aos recursos de poder é sempre difícil. Não sendo atores reconhecidos pelo sistema político, pouco falam por si, a menos que colidam com o sistema instituído. As referências de época são muitas vezes indiretas e distorcidas e os conhecimentos desses grupos, e em particular dos escravos, exige sempre um esforço grande de desconstrução das visões dominantes da época e dos contextos em que se produziram as referências”, explica a especialista.
Há pouca informação, por exemplo, sobre os escravos agrícolas porque a sua existência não tinha outro interesse para a época senão como parte dos equipamentos de uma qualquer exploração agrícola. Mas como sublinha Mafalda Soares da Cunha, “eles existiam e agiam”. Num artigo na revista “Callipole”, Jorge Fonseca relata que o duque D. Teodósio I, em 1564, teria 48 escravos, dos quais 20 serviam na estrebaria, quatro na cozinha e na copa e quatro eram varredeiros, entre outras funções. A contabilização parece ser o mais longe que se consegue ir.
Quanto ao episódio dos reprodutores, relatado por Venturino, Mafalda Soares da Cunha desconhecia-o antes do contacto do Expresso e alerta ser necessário perceber o contexto do relato para compreender a intencionalidade da narrativa e a sua veracidade, mas conclui: “Não excluo evidentemente a possibilidade. A documentação que conheço da Casa de Bragança é totalmente omissa quanto a isso, mas a probabilidade de acontecer parece-me evidente.”

PERGUNTAS & RESPOSTAS

Quando chegaram a Portugal os primeiros escravos africanos?
Os primeiros escravos negros entraram em Portugal ainda no século XV, através de Marrocos, havendo registo de apreensões desde 1441, embora o uso de mão de obra escrava fosse largamente difundido desde o século XIV. Em 1444 teve lugar o primeiro carregamento de 235 escravos, trazidos do Golfo de Arguim, atual Mauritânia. O próprio Infante D. Henrique terá estado presente no primeiro leilão de escravos em Lagos, o passo inaugural para um importante negócio de exportação sobretudo para Sevilha, Cádis e Valência.

Quantos escravos existiam em Portugal no século XVI?
Lisboa abrigava quase dez mil escravos, o que equivaleria a cerca de 10% da população da capital na altura. A maior parte dos escravos encontrava-se no Algarve, região seguida pelo Baixo Alentejo, Vale do Tejo e pelo distrito de Évora. No século XVII, o número diminuiu substancialmente devido ao desvio para o cultivo de açúcar no Brasil.

Qual a influência da procura de escravos no continente americano no seu preço?
A partir de 1540, o aumento da procura de escravos para as plantações de açúcar nas Antilhas, primeiro, e depois no Brasil, fez com que o preço dos escravos aumentasse exponencialmente, tendo sido registada uma valorização de mais de 500% em três décadas, segundo o historiador António de Almeida Mendes.

Quais os escravos mais cobiçados pelo tráfico negreiro?
Os escravos “minas”, originários da Costa da Mina, no Golfo da Guiné (Gana, Togo, Benim e Nigéria), eram os mais procurados nos mercados consumidores, devido à maior resistência física. Os “angolas” eram considerados mais frágeis e com uma maior tendência a cometer suicídio. Em 1644, um decreto do D. João VI autorizaria os comerciantes a comprarem diretamente a mão de obra àquela região, como explica o historiador João Pedro Marques no livro “Portugal e a Escravatura dos Africanos”.

Quantos escravos morriam nas viagens nos navios negreiros? 
Cerca de um quarto dos escravos morria durante o transporte transatlântico. Outros, cujo número é difícil de precisar, morriam nas viagens do interior até aos portos de embarque. Alguns, ainda, não resistiam à espera pelo embarque nos navios. Chegados ao destino, a vida nas colónias também os matava, o que permitiria totalizar a morte acumulada em todo o processo num patamar superior a 70%.

Qual o maior destino mundial de escravos?
O Brasil, entre meados do século XVI e até cerca de 1850, quando 42% do tráfico negreiro, o equivalente a cinco milhões de pessoas, terá partido de África em direção ao território brasileiro. Estima-se que atualmente cerca de um terço da população brasileira descenda de angolanos. Os maiores traficantes mundiais de escravos foram os portugueses radicados no Brasil.

Portugal foi o primeiro país a acabar com a escravatura?
Não. Em 1761, o marquês de Pombal, através de um alvará régio, acabou com o tráfico de escravos para a metrópole. A 10 de dezembro de 1836, uma lei proibiu o tráfico de escravos nos domínios portugueses ao sul do Equador. A escravatura continuou no Brasil até 1888, quando o país já era independente. Portugal só a aboliu totalmente em 1875. Em 1794, o Haiti foi o primeiro país a abolir a escravatura na sequência de uma revolta de escravos, seguindo-se a Dinamarca em 1804.

  
Christiana Martins
Texto publicado na edição do Expresso de 5 dezembro 2015




sábado, 7 de dezembro de 2013

O regime de apartheid na África do Sul


Para que ninguém esqueça!









 



A África do Sul foi uma região dominada por colonizadores de origem inglesa e holandesa que, após a Guerra dos Boeres (1902) passaram a definir a política de segregação racial como uma das fórmulas para manterem o domínio sobre a população nativa. Esse regime de segregação racial - conhecido como apartheid - começou a ficar definido quando se decretou a lei sobre Terras Nativas e as Leis do Passe.

A primeira forçou o negro a viver em reservas especiais, criando uma gritante desigualdade na divisão de terras do país, já que esse grupo formado por 23 milhões de pessoas ocuparia 13% do território, enquanto os outros 87% das terras seriam ocupados pelos 4,5 milhões de brancos. Essa lei proibia que negros comprassem terras fora da área delimitada, impossibilitando-os de ascender economicamente ao mesmo tempo que garantia mão-de-obra barata aos latifundiários brancos.

Nas cidades, era permitido que os negros executassem trabalhos essenciais, embora tivessem que viver em áreas isoladas (guetos).

As "Leis do Passe" obrigavam os negros a apresentar o passaporte para se poderem movimentar dentro do território e para conseguirem emprego.

A partir de 1948, quando os Afrikaaners (brancos de origem holandesa) através do Partido Nacional assumiram o controle hegemónico da política do país, a segregação consolidou-se com a catalogação racial de todas as criança recém nascidas, com a Lei de Repressão ao Comunismo e com a formação dos Bantustões em 1951, que eram uma forma de dividir os negros em comunidades independentes, ao mesmo tempo que se estimulava a divisão tribal e se enfraquecia a possibilidade de guerras contra o domínio da elite branca.

Mesmo assim, a mobilização das populações negras em organizações tendeu a crescer, como aconteceu em 1960, quando cerca de 10.000 negros queimaram os seus passaportes no gueto de Sharpeville e foram violentamente reprimidos.

Eclodiram greves e manifestações em todo o país, combatidas pelo exército nas ruas, deu-se a  rutura com a Comunidade Britânica (1961) e fundou-se a Lança da Nação (braço armado do CNA).
Em 1963 Mandela foi preso e condenado a prisão perpétua.

Durante a década de 70 a radicalização aumentou, tanto com os atos de sabotagem por parte da guerrilha como por parte do governo, vivendo-se uma forte e violenta repressão.

Na década de 80, o apoio interno e externo à luta contra o Apartheid intensificou-se, destacando-se nesta luta Winnie Mandela e o bispo Desmond Tutu.

A ONU, apesar de condenar o regime sul-africano, não interveio de forma efetiva (o boicote realizado por grandes empresas deveu-se à propaganda contrária que o comércio com a Africa do Sul representava).

A partir de 1989, após a ascensão de Frederick de Klerk ao poder, a elite branca começa as negociações que determinariam a legalização do CNA e de todos os grupos contrários ao apartheid e à libertação de Nelson Mandela.
 


Nelson Mandela
Nelson Mandela e Winnie Mandela

Nelson Mandela na prisão

P. Botha 
 

F. De Klerk 


Nelson Mandela e Frederik de Klerk
 

  

 
Uma cronologia a não esquecer:

A África do Sul, governada pela minoria branca durante mais de três séculos, viveu durante 46 anos sob o regime do apartheid antes da chegada ao poder de Nelson Mandela em 1994.

- 1948: Vitória nas eleições legislativas do Partido Nacional (NP), defensor da minoria afrikaner (descendentes dos primeiros colonos holandeses).

Uso oficial da palavra apartheid (palavra afrikaans que significa "viver separadamente").
O governo passou a institucionalizar uma política baseada no "desenvolvimento separado das raças" que oficializava a segregação existente desde o século XVI.

- 1949: Proibição dos casamentos mistos.

As relações sexuais fora do casamento entre brancos e negros eram proibidas desde os anos 1920.

- 1950: Adoção de leis raciais consideradas os pilares do apartheid.

A lei de classificação ("Population Registration Act"), define três grupos raciais (brancos, negros e mestiços). A lei sobre moradia separada ("Group Areas Act") atribui aos sul-africanos um local de residência de acordo com suas raças.

As leis sobre a terra ("Land Acts") atribuíram aos brancos, desde 1913, a propriedade de 87% das terras. As 13% restantes, destinadas aos negros, eram divididas em reservas (que mais tarde seriam chamadas bantoustans).

Proibição do Partido comunista sul-africano (SACP).

- 1952: Lei do "pass", que obriga os negros a terem um passe para circular dentro do país.

O Congresso Nacional Africano (ANC) criado em 1912 lança uma campanha de desobediência civil.

- 1953: Adoção de uma lei sobre locais públicos separados ("Reservation of Separate Amenities Act"), que define as regras do apartheid no dia a dia.

- 1957: Lei sobre a imoralidade, que proíbe relações sexuais entre pessoas de raças diferentes.

- 1959: Criação do Congresso pan-africano (PAC) por dissidentes da ANC.

Criação dos bantustões para negros (rebatizados "homelands" em 1971)

- 1960: A polícia atira em manifestantes negros que protestam contra os "pass", provocando 69 mortos.

Proibição da ANC e do PAC. A oposição negra entra na clandestinidade.

- 1961: Criação de Umkhonto weSizwe (MK), "Lança da Nação", braço armado da ANC. Início da luta armada.

- 1964: Nelson Mandela, preso em 1962, é condenado à prisão perpétua por sabotagem em conspiração contra o Estado, com outros dirigentes da ANC, como Walter Sisulu e Govan Mbeki.

- 1976: Manifestações violentas no Soweto e noutros guetos negros. Milhares de alunos de colégios negros protestam contra a obrigação de ensino do afrikaans (575 mortos em três meses).

- 1977: Steve Biko, fundador do Movimento da Consciência Negra, morre na prisão.

- 1978: Pieter Botha assume o cargo de primeiro-ministro. "Temos que nos adaptar ou morrer", afirmou o político num alerta à comunidade branca.

No início da década de 1980, iniciou uma reforma política "de pequenos passos".

- 1983: Criação da Frente democrática Unida (UDF, nas siglas em inglês), coligação anti-apartheid liderada pelo arcebispo anglicano Desmond Tutu, prémio Nobel da Paz.

- 1984: Pieter Botha assume a Presidência do país.

Uma reforma constitucional instaura três parlamentos separados (branco, mestiço e indiano). Os negros, maioritários, continuam excluídos do sistema parlamentar, o que provoca uma onda de protestos nos townships.

- 1985: Pieter Botha anuncia a instauração de uma sociedade "pós apartheid". Abolição da lei sobre imoralidade "Immorality Act".

Início da guerra entre a ANC e o seu rival negro, o partido da Lubertade Inkhata (IFP), da etnia zulu, liderada por Mangosuthu Buthelezi: 12.000 mortos em dez anos.

- 1986: Abolição das leis sobre os "pass" e diminuição progressiva da discriminação nos locais públicos.

Instauração do estado de emergência em todo o território devido a protestos violentos.

- 1987: Abolição das leis raciais nas minas, que vigoravam desde 1911.

- 1989: Pieter Botha reúne-se com Mandela na sua residência na Cidade do Cabo. Frederik de Klerk sucede a Botha na presidência, depois de meses de crise política.

Compromete-se a criar "uma nova África do Sul", sem discriminação racial e anuncia o fim do apartheid nas praias.

Libertação de Walter Sisulu e de outro seis membros da ANC.

- 1990: Legalização da ANC, do PAC e do SACP.

Nelson Mandela é libertado a  11 de fevereiro, depois de 27 anos de detenção.

O estado de emergência é cancelado. Abolição da lei sobre locais públicos separados. De Klerk e Mandela iniciam um processo de negociação. ANC suspende a luta armada.

- 1991: Abolição das últimas grandes leis raciais: leis sobre a terra, sobre a moradia separada e a classificação da população. Fim oficial do apartheid em 30 de junho de 1991. Inicio do cancelamento das sanções internacionais.

Mandela é eleito presidente da ANC.

- 1993: De Klerk e Mandela recebem o prémio Nobel da Paz.

- 1994: O ANC vence folgadamente as primeiras eleições democráticas do país e Nelson Mandela torna-se o primeiro presidente negro da África do Sul.




Nota:

Já aqui falei, em 2011, deste grande filme que é GRITA LIBERDADE.

A não perder!  Do realizador Richard Attenborough.

http://www.interfilmes.com/filme_18839_Um.Grito.de.Liberdade-(Cry.Freedom).html
 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Amistad



Grande filme! Grande obra!
Um contributo extraordinário para a História da Escravatura e para a defesa dos Direitos Humanos!
A não perder!




domingo, 16 de outubro de 2011

Escravos e plantações de açúcar

Registos de leituras que fiz sobre este tema: 

cana-de-açúcar




 Escravatura e plantações de açúcar
(…) são inseparáveis. Cada engenho de açúcar exigia no mínimo 80 escravos, além das centenas que tinham de trabalhar nos campos. A região por excelência foi sem dúvida o Nordeste brasileiro, que designa os estados de Piaui, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Baía. (…) onde viviam em condições miseráveis e eram cerca de 1/3 da população brasileira (…). A importação maciça de africanos foi de tal modo brutal que chegavam aos milhares como gado (…).

Os navios de escravos
O armador encomendava embarcações que apresentassem duas características contraditórias: uma quilha bastante ampla, onde se pudessem acumular o máximo de víveres e negros e a capacidade desenvolver boa velocidade. (…) eram embarcações pequenas, de 100 a 300 toneladas em média. A duração da viagem dependia dos ventos e das transacções que se realizavam na costa africana. Uma viagem triangular de 16 meses de duração representava uma boa média. (…)

Teresa Mesquitela, A escravatura no Brasil e a sua abolição.

Um navio de escravos era um espectáculo asqueroso e lancinante. Amontoada no porão, quando o navio jogava batido pelo temporal, a massa de corpos negros agitava-se como um formigueiro de homens, para beber avidamente um pouco desse ar lúgubre que se escoava ela escotilha gradada de ferro.  Havia lá no seio do navio balouçado pelo mar, lutas ferozes, gritos, uivos de cólera e desespero.
Os que a sorte favorecia nesse ondear de carne viva e negra, aferravam-se à luz e olhavam a estreita nesga do céu. Na obscuridade do antro, os infelizes promiscuamente arrumados a monte, ou caíam inânimes num torpor letal ou mordiam-se desesperados e cheios de fúrias, estrangulavam-se, a um saíam-lhe as entranhas, a outro quebravam-se-lhe os membros no choque dessas obscuras batalhas, e a massa humana, cujo rumor selvagem saía pela escotilha aberta, revolvia-se no seu antro, afogada em lágrimas e imundície.
(…) Como o afogamento dependia do acordo do companheiro, pois encontravam-se amarrados nas pernas (os ferros não eram tirados nunca), o mais frequente era a tentativa de greve de fome. Tentativa, porque o suicida acabava sempre por ser forçado a abrir a boca e a comer: o capitão mandava que um dos homens da sua tripulação se aproximasse do rosto do rebelde com um carvão em brasa ou um ferro quente, e ele era obrigado a ingerir o alimento que tinha recusado.

Oliveira Martins, O Brasil e as colónias portuguesas.
Como se contavam os escravos
De tal modo se comercializou esta indústria assassina – eram quase tantos os negros mortos no trânsito como os desembarcados – que se fazia a conta da gente viva não por número de pessoas mas por medida linear e volume em toneladas, como qualquer fazenda inerte. A unidade era a “peça da Índia”, de 7 quartas (de vara) 1,75m, estatura regular do negro adulto. Três peças faziam uma tonelada, supondo-se ocuparem a bordo outro tanto espaço de carga ordinária. Para a conta mediam-se os negros, somando as alturas e dividindo o total pela craveira, 5,25m, e tinham-se as toneladas.

Lúcio de Azevedo, Época de Portugal Económico.
“As peças”
Os escravos eram designados por peças. Entendia-se por peça o escravo de 15 a 25 anos, cuja altura ideal era de 1,8om. Um negro de 8 a 15 anos (molecão) ou de 25 a 35 anos não fazia uma peça inteira: eram necessários três para fazerem duas peças. As crianças de menos de 8 anos (moleques) e os adultos de 35 a 40 anos, contavam-se por meia peça.

Carlos de Sousa Miguel, art. “escravatura”, Dicionário de História de Portugal.

Como se transportavam
É lamentável ver como se amontoavam esses pobres diabos, metendo 600 a 700 escravos em cada barco. Os homens de pé, nos porões, atados, as mulheres  nas entrepontes e, as que levavam crianças na câmara grande.
Os negros viajavam 2 a 2. A cadeia da perna esquerda ligada à da perna direita do outro, e estendidos nus no porão.
A altura deste não passava de 1,70m, ás vezes menos. Para aumentar o espaço, dividia-se essa altura ao meio, colocando em toda a volta uma espécie de plataforma suficientemente forte para suportar o peso de numerosos corpos.
(…) cada escravo dispunha de 83cm de altura.

J.D.Page, A Short History of Africa.

(…) chegados ao seu destino, eram vendidos em leilão. Os casados eram a maior parte  das vezes separados para sempre das suas mulheres ou dos    seus filhos. A partir desse momento viam iniciar-se verdadeiramente o seu cativeiro. (…)

Oliveira Martins, obra citada.

Como se castigavam
Era necessária uma vigilância constante para conter aquelas criaturas desesperadas e nem sempre dóceis. A menor falta era punida com algemas e açoites. Nos casos mais graves recorria-se à tortura: esfregava-se limão e pimenta sobre as feridas sangrentas deixadas pelo chicote, apertavam-se os polegares entre os dedos, suspendiam-se os rebeldes pelas mãos e deixavam-se pendurados algum tempo no mastro ou sobre a água. Alguns infelizes enlouqueciam, mas eram conservados vivos para serem vendidos nalgum momento de lucidez. Outros, ou mesmo os loucos, tentavam o suicídio.

Teresa Mesquitela, obra citada.

O dia de trabalho nos engenhos
Começava ás 5 da manhã e terminava ás 7 da noite, com uma interrupção de cerca de duas horas por volta do meio dia para o almoço. Durante a colheita o trabalho era ininterrupto.
Nus ou cobertos de farrapos, manejando a foice ou enxada,  era necessário que o ritmo de trabalho fosse acelerado e constante, para não correr o risco da chibata. Nos engenhos de açúcar, os negros empurravam a  cana para a moenda, temendo a todo o instante terem as mãos esmagadas , sobretudo à noite, quando o cansaço os obrigava a cantar para não adormecerem e  não caírem num tacho fervente.

O “código negro”
Determinava que o senhor fornecesse semanalmente a cada escravo 2,5 litros de farinha de mandioca, 2 libras carne salgada ou 3 de peixe. Na realidade, porém, os senhores limitavam-se a permitir que aos sábados os negros cultivassem um pedaço de terra e se alimentassem com o que colhessem. Como não dispunham de tempo para cozinhar, esgotados ou improvidentes, não chegavam a plantar o suficiente. Era frequente o roubo de alimentos durante a noite. (…)

A Alimentação dos escravos e suas consequências
Os senhores davam aos escravos feijão cozido com angú, um bocado de toucinho, jerimumou ou abóbora cozida, esta comida rala a homens que tinham de levantar-se ás 3 da madrugada para trabalharem até ás 9 ou 10 horas da noite. (…) Verdadeiras máquinas de fazer dinheiro.

(…) os defeitos apresentados pelos negros – as pernas tortas, os braços finos, os joelhos tronchos, as cabeças encalombadas – manifestações de raquitismo, consequência da sua alimentação. (…).

Gilberto Freyre, Casa-Grande e Senzala.


(…) com as reservas de vitaminas totalmente gastas. As perturbações mostradas pelos escravos eram consequência da falta de sol e da sua alimentação insuficiente. E continuavam a receber uma dieta carente do factor D. Este, encontra-se nas gorduras de origem animal: manteiga, ovos, óleos de peixe, leite…todas estas substâncias não existiam na dieta dos escravos que também não continha cálcio.

Rui Coutinho, Estudos afro-brasileiros.

As crianças negras andavam totalmente nuas até aos 5 anos, e isso contribuía para a disseminação de doenças como a desinteria, varíola, chagas, lepra, sífilis e tétano. Muitas morriam cedo devido a esta falta de higiene.

A vida do senhor do engenho
Ociosa mas alagada de preocupações sexuais, a vida do senhor do engenho tornou-se uma vida de rede. Rede andando, com o senhor em viagem ou a passeio por baixo de tapetes ou cortinas. Rede rangendo, com o senhor descansando, dormindo, cochilando ou copulando dentro dela . Da rede não precisava afastar-se o escravocrata para dar as suas ordens aos negros, mandar escrever as suas cartas pelo caixeiro ou pelo capelão. Da rede não precisava sair para jogar gamão com algum compadre que aparecesse (…). Depois do almoço ou do jantar, era na rede que fazia a longa digestão, palitando os dentes, fumando charutos, cuspindo no chão, deixando-se abanar pelas mulatas. (…)

Gilberto Freyre, Casa-Grande e Senzala.

A mulher do senhor do engenho
Refreada pelas rígidas leis da sociedade patriarcal, sufocada por uma vida aborrecida e ociosa, a mulher do senhor prepara-se para o encontro com o marido, geralmente mais velho, sexualmente viciado por uma longa relação solitária. A consequência normal é um desequilíbrio nervoso que se traduz num sadismo exercido pelo homem sobre a mulher, pelo patrão sobre os servos, pela senhora sobre as criadas, pelo miúdo branco sobre o moleque.
(…) Uma sociedade onde abundam os bastardos que se inserem normalmente na vida e onde os filhos de padres são uma realidade quotidiana.

Gilberto Freyre, Sobrados e Mucambos.

O filho do senhor do engenho
Imitando os adultos, o miúdo serve-se dos seus companheiros de jogos, negros, nos primeiros exercícios sexuais (…) a sua aprendizagem culmina numa prostituta negra, quase sempre portadora de doenças venéreas.
Tudo isto se desenrola sob os olhos benévolos dos adultos que vêem em tudo isto uma afirmação de maturidade.

Giorgio Marotti, Profillo Sociológico della Letteratura Brasiliana.

O negro na família do seu senhor
É desde o início que o negro está presente na vida da família patriarcal nordestina: é dado aos filhos dos senhores como companheiro de jogos um miúdo negro, o “moleque leva pancadas” que será a sua vítima e que o iniciará na sua vida sexual. E quando o amo for adulto, serão outras negras que lhe darão a sua primeira sensação de homem.
À filha do patrão, pelo contrário, é dada uma mucama, criada, amiga, confidente e vítima, que partilhará os seus segredos e a ajudará nas suas intrigas amorosas ocasionadas pela severidade do pai, dos seus irmãos ou do seu marido. E, enquanto a ama preta amamenta o bebé branco, a cozinheira negra prepara um prato africano, os filhos do patrão vivem conjuntamente com os criados negros, nos campos, a força e a resistência do negro tornar-se-ão indispensáveis para a cultura da terra.
E o negro identificar-se-á, ora com o açúcar ora com o café ora com o cacau, os grandes produtos da monocultura latifundiária brasileira.
(…) a presença negra não se limitou apenas ao trabalho agrícola e ás actividades eróticas do senhor. As cozinheiras e a sua maneira de preparar a comida com fortes e acentuadas maneiras africanas, as criadas, as amas, as companheiras das meninas e as primeiras amantes dos filhos dos senhores, eram negras. Pouco a pouco, um estilo de vida negra ia-se introduzindo na vida branca: era a ama que contava à criança as fábulas africanas, era a primeira amante, a companheira de cama apaixonada e impúdica. E o homem branco, uma vez adulto, acabava por ter, muitas vezes sem o saber, uma forte percentagem negra na sua educação.

Teresa Mesquitela, obra citada.





Pesquisa de Maria Nazaré Oliveira (obras citadas)