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segunda-feira, 25 de março de 2019

BREVE HISTÓRIA DA LUTA PELO SOCIALISMO

Lenine proclama o Poder dos Sovietes. Pintura de V. A. Serov


Fruto da Revolução Tecnológica, a Inglaterra do Século XVIII, a maior potência comercial de então, sofre uma profunda Revolução económica e social.
A máquina a vapor, a máquina de fiar algodão e o tear mecânico lançam as bases da indústria. Os camponeses são expulsos da terra, os artesãos são arruinados. Uma massa de trabalhadores livres aflui aos grandes centros urbanos. Estes trabalhadores livres vendem o único bem que lhes resta: a sua força de trabalho. O trabalho assalariado instala-se. Nasce o capitalismo. A burguesia apropria-se da propriedade. O trabalho fica para o proletariado.
A classe agora nascida vive na mais profunda miséria. O quadro traçado por Engels em 1845 é chocante: metade das crianças morria antes dos 5 anos; os bairros eram aglomerados de barracas; o horário de trabalho atinge 17 horas; não há férias, apoios em caso de doença ou acidente, nem direito à reforma; a base da alimentação é a batata; o salário é o estritamente necessário para a sobrevivência física do trabalhador e dos seus.
Nos modos de produção anterior, as classes trabalhadoras eram subjugadas através de meios não económicos, e o mercado jogava um papel marginal. No capitalismo, o mercado torna-se a espinha dorsal de toda a economia, e é no mercado também que se estabelece as novas relações de dominação.
Lenta e dolorosamente a nova classe vai descobrindo que a única liberdade que possui é a de aceitar a mais abjecta exploração em troca da sua sobrevivência física.

O proletariado inicia a resistência contra a exploração capitalista
Da falta de maturidade, desespero e confusão da nova classe, surgem as mais inconsequentes formas de resistência à exploração capitalista, desde o crime ao movimento luddista, que atacava as máquinas, responsabilizando-as pela situação do proletariado.
Em 1824 o proletariado conquista pela primeira vez o direito de associação em sindicatos. O sindicato e a greve afirmam-se como armas indispensáveis à nova classe, na resistência à exploração capitalista.
Mas pronto surge a consciência que essa arma para resistir à exploração não conseguiria acabar com ela. Na Inglaterra desenvolve-se o primeiro movimento político do proletariado - o cartismo, reivindicando o direito de voto, então negado aos pobres

Desde há séculos que pensadores avançados sonhavam com uma sociedade comunista e fraterna. Estas ideias ganham força com a Revolução Industrial em Inglaterra e com a Revolução Francesa de 1792.
Na denúncia da ordem social burguesa destacam-se os socialistas utópicos. Saint-Simon (1760-1827) denuncia as "classes parasitárias" e enaltece as "classes produtoras", e propõe a reconstrução da sociedade. Fourier (1772-1837) denuncia os absurdos da economia de mercado e propõe a constituição de comunidades de trabalhadores. Owen (1771-1858) contrapõe ao capitalismo a sociedade racional, fruto da livre federação de comunidades socialistas autónomas. Os socialistas utópicos (do grego utopia, "em nenhum lugar") apontam os males do capitalismo, pregam a sua superação, chegam a imaginar em detalhe a sociedade futura. Mas limitam-se a apelar à "razão humana", esperando convencer os exploradores a não mais explorar.
Já Blanqui (1805-1881), e outros, escolhem a via da acção revolucionária, mas confiam a revolução não às massas trabalhadoras mas a pequenos grupos conspirativos.
Em 1848 estas teorias mostram já os seus limites, quando dois acontecimentos quase simultâneos apontam uma alternativa. De um lado, surge o Manifesto do Partido Comunista. De outro, explode em França e em toda a Europa o ciclo de revoluções baptizado de Primavera dos Povos, naquela que Marx definiu como "a primeira grande batalha entre as duas classes que formam a sociedade moderna".

Em Fevereiro de 1848 é editado em Londres o Manifesto do Partido Comunista, encomendado pela Liga dos Comunistas , um círculo clandestino formado por meio milhar de artesãos e operários, essencialmente alemães. Os seus autores eram Karl Marx e Friederich Engels .
O sucesso inicial do Manifesto foi tão modesto quanto a sua tiragem inicial, 1000 exemplares. Mas gradualmente os sectores mais avançados do proletariado e muitos intelectuais progressistas tomam consciência da importância histórica deste documento.
O Socialismo desenvencilhava-se das ilusões utópicas, armava-se com uma base de classe bem definida e de um programa claro e revolucionário. Nasce o Socialismo Científico.
Em 1852 a Liga dos Comunistas cessou a sua actividade. Em 1864 com a criação da I Internacional (Associação Internacional dos Trabalhadores) inicia-se uma nova fase no movimento comunista internacional, e o Manifesto prossegue nos seus objectivos de consciencializar, unir e despertar para a luta milhões de operários no mundo inteiro.

Em França, as transformações políticas burguesas tinham seguido uma via radical e conturbada: a Revolução de 1792, as guerras napoleónicas, as Revoluções de 1830 e 1848. Estes movimentos anti-feudais e democrático-burgueses, contaram com uma maciça participação das classes trabalhadoras, inclusive o jovem proletariado, formado como nenhum outro em insurreições e barricadas.
Mas depois do Golpe de 1852 o processo desembocara na ditadura de Napoleão III. Em 1870 o regime burguês envolve-se numa guerra desastrosa com a Alemanha. Com o Exército Alemão às portas de Paris, os operários da Cidade armam-se para a defender. O Governo Burguês capitula e assina um armistício com a Alemanha.
A tentativa de desarmar os operários parisienses precipita a insurreição. A 26 de Março é eleito o Conselho da Comuna. A influência marxista é minoritária no movimento, onde predominam os blanquistas. O movimento alastra a outras Cidades, mas a grande massa camponesa mantêm-se apática. O Exército Francês e Alemão entram em Paris a 21 de Maio. A resistência dos comunards é heróica, mas são esmagados: 35.000 mortos e 7.500 deportados.
Termina assim, afogado em sangue, o primeiro ensaio de um poder político dos trabalhadores: durara 74 dias. A burguesia europeia aplaude a carnificina, e Thiers, o líder da burguesia francesa, proclama: "Agora o comunismo está morto para sempre!".
Marx e a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) saúdam a ousadia dos comunards por tentarem "Tomar o céu de assalto!". A onda repressiva alastra a outros países. Em 1872, realiza-se ainda o importante Congresso de Haia da AIT , mas esta rapidamente será dissolvida.

A fase entre a Comuna (1871) e a I Guerra Mundial (1914) foi de desenvolvimento relativamente "pacífico" do capitalismo. Uma burguesia cada vez mais poderosa enriquecia "pacificamente" à custa de um proletariado cada vez mais numeroso. As guerras e revoluções ficaram confinadas à periferia do sistema.
Para o movimento operário e socialista esta foi uma fase de acumulação de forças. O crescimento numérico e a relativa prosperidade industrial permitiram-lhe avanços económicos e políticos. Os sindicatos cresciam em tamanho e prestigio. A luta popularizava e conquistava direitos para os trabalhadores, destacando-se a luta pela jornada de 8 horas. A extensão do direito de voto (embora quase sempre só aos homens) criava novas condições para a participação política dos trabalhadores.
A I Internacional ainda realiza a sua Conferência de Haia em 1872, caracterizada pela derrota do bakuninismo. Mas virá a ser destruída pela repressão que se segue à Comuna de Paris.
A II Internacional nascia em 1889. Na sua base estavam os Partidos Operários, sob forte influência marxista, em geral adoptando o nome de social-democratas. Por decisão do Congresso da Internacional, o 1º de Maio de 1890 é comemorado internacionalmente, tendo a jornada das 8 horas como principal reivindicação.
No limiar do século XX, o clima entre os socialistas era optimista: o proletariado continuava a crescer em número, a avançar nos seus direitos, a elevar a sua consciência e organização.
Em 1899, o dirigente do Partido Social-Democrata Alemão, Eduard Bernstein publica o livro "O Socialismo Teórico e o Socialismo Prático", tornando visível o conflito entre revolucionários e reformistas. Sem romper formalmente com o marxismo, Bernstein pregava a revisão (donde o título de revisionismo) da sua essência revolucionária: afirmava que o capitalismo era capaz de superar as suas crises, que o socialismo seria fruto da acumulação gradual e pacífica de pequenas conquistas. O seu lema "O movimento é tudo, o objectivo é nada!" sintetizava as teorias reformistas no movimento operário.
As suas teses foram rechaçadas numa fase inicial, e duramente criticadas no próprio SPD por Rosa Luxemburgo, e no plano internacional, onde se destacou Lenine. Mas o desenvolvimento "pacífico" do capitalismo levara o movimento operário a uma certa acomodação, e quando a I Guerra inaugurou uma nova fase de crise revolucionária, dá-se a primeira grande divisão no movimento operário: entre revolucionários e reformistas.

No limiar do século XX, o mundo parecia relativamente tranquilo, mas ocorriam transformações económicas de grande vulto. O capital concentrava-se e centralizava-se. A livre-concorrência dava lugar a uma economia de monopólios. Com a fusão entre o capital industrial e a grande banca, surge o capital financeiro. Os monopólios actuam no mundo todo, e para garantir maiores lucros, necessitam do domínio político sob os países periféricos. Lenine caracteriza este capitalismo da época dos monopólios como Imperialismo .
Chegou o momento em que o mundo inteiro estava dividido entre as potências imperialistas. A expansão dos monopólios reclamava mais e mais domínios, mas a expansão já só era possível para áreas com "dono". Fruto das contradições inter-imperialistas, dá-se a I Guerra Mundial, que ceifaria 20 milhões de vidas.

O imperialismo e a guerra tiveram um enorme impacto no movimento operário e socialista. Ao lado da contradição entre capital e trabalho, duas novas contradições entravam na ordem do dia: a que opunha os países imperialistas aos restantes; e as contradições inter-imperialistas.
A II Internacional há muito que previa a guerra, e a debatia, assumindo uma postura internacionalista: os trabalhadores não se deveriam matar uns aos outros na defesa dos interesses das "suas" burguesias, mas sim opor-se à carnificina sob o lema "guerra à guerra".
Mas com o início da guerra, intensifica-se a pressão da burguesia sobre os "seus" trabalhadores. E os Partidos da II Internacional dividem-se em três tendências principais: A ala social-chauvinista (de chauvin, líder nacionalista francês reaccionário, cujo lema era "A minha pátria, boa ou má!"), a de centro e a internacionalista.
Em quase toda a parte a maioria dos sociais-democratas aderiu à febre belicista, cada um com a sua desculpa: os alemães alegavam a necessidade de combater o absolutismo russo; os franceses, a urgência de libertar os povos oprimidos pelos impérios austríaco e otomano.
Uma facção de centro, minoritária mas com nomes importantes como Kaustsky, pregava o regresso à paz, sem levar em conta as causas de fundo do conflito inter imperialista.
E por fim, a ala esquerda, também minoritária excepto na Rússia, que manteve o internacionalismo, propunha que os operários voltassem as armas contra os "seus" burgueses, e transformassem a guerra imperialista em guerra revolucionária.

A Rússia, um imenso império semi-asiático, atrasado mas em rápida industrialização, vivia sob a tirania dos czares. Em 1905 passara por uma grande revolução. O movimento operário e o partido marxista eram jovens, muito perseguidos, mas vigorosos. A esquerda do movimento operário era maioritária na Rússia, tanto que fora apelidada de bolchevique (maioria). Tinha ligação de massas, imprensa actuante, tradição de luta em condições difíceis, a experiência de 1905 e uma direcção muito firme, onde avultava a figura de Lenine. A luta entre reformistas e revolucionários seguira ali um caminho mais nítido e precoce. O choque de ideias já era aberto em 1902, quando Lenine escreveu "Que fazer?". Desde 1910 os bolcheviques tinham sua organização própria, separada dos mencheviques (minoria).
No início da guerra de 1914, os internacionalistas ficaram isolados. Uma ensurdecedora propaganda belicista embriagava as massas. Militantes bolcheviques foram linchados ao fazerem propaganda entre os soldados. Esse clima foi mudando conforme o conflito se arrastava, com seu cortejo de mortes e mutilações, fome e barbárie. A histeria dos primeiros anos transformou-se em cansaço e a seguir em revolta.
Em Fevereiro de 1917 uma revolução popular derrubou o czar. Suas forças motrizes foram os operários, camponeses e soldados (na maioria, camponeses fardados); as formas de luta, greve geral, protesto de massas, rebelião na tropa. A Rússia saiu da tirania czarista para uma fervilhante liberdade. Os exilados retornaram. O governo passou ao partido liberal-burguês e em Maio aos social-revolucionários e mencheviques.
Ao mesmo tempo, os trabalhadores criavam os sovietes (conselhos). Nascidos na Revolução de 1905, eles eram uma organização revolucionária de massas, ágil, desburocratizada, uma típica democracia directa, onde o trabalhador não só elegia representantes, mas participava. Agiam como verdadeiro poder paralelo. Os sovietes exprimiam a revolta dos trabalhadores com uma revolução que não resolvera seus problemas. Em especial, exigiam o fim da guerra. Após novas derrotas na frente, as enormes Jornadas de Julho mostraram que o ímpeto revolucionário russo estava longe do fim.
Após a Revolução de Fevereiro, os bolcheviques ainda eram minoritários. Essa correlação de forças inverteu-se com uma rapidez que só a crise revolucionária permite. Lenine voltou do exílio, e defendeu, nas Teses de Abril, que a revolução democrático-burguesa bem ou mal estava feita, era hora de passar à revolução socialista, sob o lema "Todo o poder aos sovietes". Outro lema, "Paz, pão e terra", exprimia as tarefas imediatas da revolução. Em Agosto, Leon Trotsky, recém incorporado aos bolcheviques, foi eleito dirigente do Soviet de Petrogrado. A ala esquerda dos social-revolucionários aliou-se aos comunistas. Eram sinais de que os trabalhadores aprendiam com sua experiência.
O general czarista Lavr Kornílov, chefe supremo do exército, rebelou-se em Agosto visando restaurar o velho regime, fracassando devido à deserção de suas tropas. O episódio da "kornilovada" desmoralizou de vez o governo, que passara ao social-revolucionário de direita Alexandr Kerensky. Estavam maduras as condições para transformar o lema "Todo o poder aos sovietes", de palavra-de-ordem de agitação em palavra-de-ordem de acção, e em realidade.
No dia 7 de Novembro (25 de Outubro no antigo calendário russo), os marinheiros rebeldes do cruzador Aurora deram o sinal (uma salva de tiros). Houve resistência na tomada do Palácio de Inverno, sede do governo, mas a insurreição triunfou nas maiores cidades com relativa facilidade, após poucos dias e uma centena de mortes. Seu primeiro decreto foi a reforma agrária entregando a terra aos que a trabalham. Em seguida, começaram as conversações de paz em separado com a Alemanha.
O verdadeiro enfrentamento veio depois: Kornílov e outros generais czaristas reuniram os brancos (anti-bolcheviques, inclusive mencheviques e social-revolucionários) e tropas de 14 países na Guerra Civil. Mas os trabalhadores e o novo Exército Vermelho, exaustos e famintos, dessa vez tinham por que lutar. Após três anos de sacrifícios e heroísmo, a revolução proletária consolidava o seu triunfo no mais vasto país da Terra.
Em 1919 é fundada a III Internacional, na sequência da traição da II Internacional, e impulsionada pela vitória na Rússia, e que viria a ter um papel relevante no desenvolvimento de Partidos Comunistas por todo o mundo.

O único Estado Socialista que vingou, com a situação revolucionária criada pela I Guerra Mundial, foi o soviético. A Revolução Alemã foi derrotada em 1919, com os traidores da II Internacional a assassinarem Rosa Luxemburgo e Karl Liebchnet. 
E em 1929 o capitalismo mergulha na Grande Depressão: falências em massa, colapso do comércio, desemprego massivo. Mas a resposta à crise foi o fascismo. O fascismo encontrou apoio de massas nas camadas médias empobrecidas pela crise e nos trabalhadores desempregados e desorganizados, e contou com o apoio decisivo das classes dominantes assustadas pelo fantasma do comunismo.
Três características fundamentais definem o fascismo: o chauvinismo, exacerbando os sentimentos nacionais e dando-lhes uma forte componente xenófoba e racista; o terrorismo, assente numa doutrina anti-democrática, exigindo obediência cega ao chefe e utilizando a violência de Estado contra toda a oposição; a sua ligação com os interesses das classes dominantes.
O 7º Congresso da Internacional Comunista (1935) traçou a linha geral para enfrentar esta ofensiva: a unidade anti-fascista, preconizando a frente única no movimento operário e a frente popular, e o fim da fase de enfrentamento entre comunistas e social-democratas, que facilitara a escalada fascista. Esta linha levou à vitória da Frente Popular em França e orientou a resistência nos países ocupados pelo fascismo depois de 39.

A Alemanha armara-se com o apoio de parte do capital financeiro da Inglaterra, França e EUA, na perspectiva de um esmagamento militar da União Soviética. Mas em 1939 lança os seus exércitos sobre a Europa, que rapidamente ocupa. As potências do eixo tratam de impor uma redivisão do mundo sob a sua hegemonia.
O movimento operário, os sociais-democratas e principalmente os comunistas eram o alvo principal da fúria nazifascista. Fora-o assim na Alemanha e na Itália, era-o agora nos países ocupados. Mas foram igualmente os primeiros, e os que mais decididamente, se lançaram na resistência.
Em 1941 o grosso dos Exércitos Alemães avança sobre a URSS. Inicia-se a Grande Guerra Patriótica, nome com que o Estado Socialista chamou ao combate toda a população soviética. No início de 1943, com enormes perdas, o exército alemão havia ocupado a parte mais rica e populosa da URSS, e encontrava-se às portas de Moscovo e Leninegrado. O seu corpo de elite, o 6º Exército, avança sobre Stalinegrado. Naquela que foi a maior, a mais sangrenta e a mais importante batalha militar da história, o Exército alemão é derrotado e dizimado. A correlação de forças mudara, e o nazifascismo entra na defensiva.
O Exército Vermelho e a Resistência por toda a Europa lançam a contra-ofensiva. As guerrilhas anti-fascistas ganham carácter de massas, principalmente na Jugoslávia, Albânia, Grécia, França e Itália, com um papel destacado dos comunistas.
Em 1944, os EUA intervêm na Guerra na Europa, para participar na vitória sobre uma Alemanha já derrotada, e em 1945 lançam a arma atómica sobre um Japão já derrotado.
O quadro que irá marcar os anos sequentes está definido: por um lado, um novo e formidável ascenso da luta pelo socialismo no mundo; por outro, as classes dominantes da Europa a cederem aos EUA a hegemonia no quadro capitalista, em troca da protecção contra o comunismo, e a lançarem as bases da Guerra Fria.

A União Soviética saiu do conflito como o grande responsável pela vitória. O Povo Soviético, o PCUS e Stalin conquistaram um enorme prestígio aos olhos das massas trabalhadoras e povos do mundo. Os comunistas haviam desempenhado, em cada país, o papel de vanguarda na promoção da luta e unidade anti-fascista. Estava aberto o caminho para um ascenso sem precedentes na luta pelo socialismo.
Na Europa Oriental surgiram os regimes de democracia popular sob hegemonia comunista. Transformações socialistas que beneficiaram sem dúvida da ajuda propiciada pela libertação soviética, mas só possíveis pela real (ainda que diferenciada de país para país) influência de massas dos comunistas e seus aliados.
Na China, a luta armada continuou até 1949, opondo o Exército Vermelho sob direcção comunista a Chiang Kai-Shek apoiado pelos EUA. O triunfo do Exercito Vermelho colocou a mais populosa nação da Terra rumo ao socialismo. No Vietname o povo prosseguiu em armas, lutando contra o colonialismo francês e depois contra o neocolonialismo americano até 1975. Na Coreia, as guerrilhas anti-nipónicas levaram a uma democracia popular na parte norte.
Criou-se assim o Campo Socialista. Um conjunto de países, com um terço da população mundial, assumia a experiência de construção de uma sociedade nova.
Nos países que permaneceram no campo capitalista, este ascenso fez-se sentir igualmente: O PC Itália atinge os 30%, o Francês 27%. Os sindicatos iniciam uma nova fase de expansão.
Em 1948 a imensa Índia sacode o domínio britânico. As lutas patrióticas ganham nova força em Africa e no Mundo Árabe. Ainda que os comunistas não fossem a força principal nestes movimentos, em todos se fazia sentir o impulso do ascenso socialista. A luta pelo socialismo e a luta anti imperialista convergiam num mesmo sentido

O discurso de Churchill contra a "cortina de Ferro" em Março de 1946 marca formalmente o inicio da Guerra Fria. Mas como vimos a sua preparação iniciou-se com a derrota da Alemanha Nazi em Stalingrado. As potências capitalistas, sob a hegemonia dos EUA, reagiram duplamente: por um lado lançam o Plano Marshall ajudando os regimes europeus que mantinham a opção capitalista, e por outro fustigam económica, politica e militarmente o campo socialista em formação. Em 1949 nascia a NATO.

No longínquo dia 1 de Maio de 1886 o sangue dos operários americanos que se manifestavam pacificamente em defesa dos seus direitos correu pelas ruas de Chicago.

Os seus dirigentes foram executados.

Em 1886 a II Internacional, no seu I Congresso, realizado em Paris, propôs que o dia 1º de Maio passasse a ser o dia da solidariedade dos proletários de todos os países, o dia em que "passariam em revista as suas forças". 

E desde 1890 que, em cada 1º de Maio, no mundo inteiro, milhões de trabalhadores saiem à rua para reivindicar e defender os seus direitos, fazendo deste dia a Jornada Internacional dos Trabalhadores.
I

A solidariedade internacional entre os operários nasceu muito antes dos trágicos acontecimentos de Maio do 1886 em Chicago. Surgiu ao mesmo tempo que o movimento operário, expandiu-se à medida que os operários de diferentes países iam tomando consciência da comunidade de interesses, da necessidade de se entreajudarem  na luta contra o inimigo comum.

Muito antes dos acontecimentos de Chicago, Marx e Engels no Manifesto Comunista haviam proclamado já que os operários de todos os países tinham um mesmo inimigo, o capital, e que a arma mais poderosa de que dispunham para o combater era a solidariedade, a unidade revolucionária do proletariado de todos os países. Foi preciso, porém, muito tempo e uma dura experiência para que a palavra de ordem que encerra o Manifesto "Proletários de todos os países, uni-vos!" se tornasse um dos princípios fundamentais das organizações operárias.

No Apelo inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores (I Internacional) Marx escrevia: "A experiência do passado mostrou que todo o desprezo pela aliança fraternal que deve existir entre os operários dos diferentes países e os deve incitar na sua luta para se libertarem, a estender as mãos uns aos outros, é punido pelo fracasso comum de todos os esforços dispersos".

Foi, de facto, a I Internacional que, pela primeira vez na história, associou estreitamente a força organizada da classe operária e o seu internacionalismo e mostrou a necessidade de unir estes dois elementos do movimento operário. Foi no quadro da I Internacional que se desenvolveu e aprofundou o princípio fundamental da actividade revolucionária do proletariado e do seu partido: a unidade numa base de classe, a unidade contra os exploradores. Foi assim que o internacionalismo foi penetrando profundamente no movimento operário e se tornou, simultaneamente, sua característica e parte integrante.

A jornada do 1º de Maio é assim, de certa forma, o símbolo desta transformação, um marco histórico, uma data que traz para primeiro plano o nível de consciência a que chegaram as forças mais avançadas da sociedade moderna.
("Onde estaríamos nós hoje - escrevia Engels em l887 - se, de 1864 a 1873, nós tivéssemos marchado sempre mão na mão unicamente com aqueles que se declaravam publicamente  partidários do  nosso programa? Toda a  nossa actividade prática mostrou, parece-me, que se pode trabalhar em contacto com o movimento geral da classe operária em cada etapa do seu desenvolvimento sem sacrificar nem dissimular a sua própria posição claramente expressa e conservando  mesmo  a  sua  organização".)

II

Sem dúvida que a unidade de acção da classe operária e dos trabalhadores à escala  intemacioal se tornou hoje mais complexa.

A tendência histórica para internacionalização da vida económica, da ciência e da técnica, adquiriu um desenvolvimento extraordinário.

Todos, homens e coisas, dependemos cada vez mais uns dos outros, condicionam-se e determinam-se reciproca mente.

Na hora da integração, quando surgem agrupamentos económicos como a CEE, com todas as consequências de order política e ideológica que daí decorrem, os capitalistas dos diferentes países são solidários apesar das contradições que possam existir entre eles. Os monopólio internacionais decuplicaram o seu poderio e apontam cada vez mais para criação de estruturas supranacionais que forneçam um quadro mais conveniente para as actividades das transnacionais. O conflito do Golfo veio comprovar, desfazendo algumas ilusões, que a intervenção militar continua a ser componente essencial da política internacional do imperialismo. E a desintegração da URSS operou uma brutal alteração na correlação de forças à escala mundial, a favor do imperialismo e das forças reaccionárias e de direita.

Muitas interrogações se colocam quanto ao futuro próximo. Está-se numa etapa de convergência mundial dos interesses do capital ou, antes pelo contrário, é previsível um acentuar das contradições imperialistas? Não exigirá a lógica da competição capitalista reordenamentos que poderão ser foco de novos conflitos? Em que medida a derrocada bloco socialista facilita esse processo?.

Na medida em que o avanço do capitalismo mundializa o seu domínio, ganham mais relevo as realidades internacionais.

A expansão das relações das multinacionais exige a interligação dos interesses entre os grupos capitalistas de diferentes países, a aceitação do domínio de uns por outros, a comparticipação minoritária nos lucros como contrapartida.

Em que medida se reflectem estas novas condições na luta dos trabalhadores de todo o mundo?
III

O internacionalismo proletário, a solidariedade internacional dos trabalhadores, traduz uma realidade objectiva do mundo capitalista: o antagonismo irreconciliável de interesses do proletariado e do capital em cada país e a plena identidade de interesses e objectivos dos trabalhadores de todos os países.

Mas o internacionalismo, hoje, tem de responder às novas questões que os acontecimentos actuais e a experiência histórica colocam e que ultrapassam uma reflexão que procurava dar resposta a um momento histórico diferente. Passou o tempo em que a correlação de forças a nível mundial pesava a favor das forças da paz e do socialismo e era determinada, antes de mais, pelo poderio económico, político e militar dos Estados socialistas. Hoje, em condições totalmente diferentes e  particularmente adversas,   sobre o movimento operário em geral e dos comunistas em particular recaiem pesadas responsabilidades: eles têm o dever de contribuir eficazmente para alterar uma situação que a história demonstrará, sem dúvida, ser transitória e coordenar todos os esforços que no mundo se desenvolvem no sentido do progresso e da  emancipação dos  povos.

A classe operária,  pela sua função estratégica na sociedade moderna, pela coerência do seu internacionalismo, pela sua experiência histórica e pela sua força organizada, está  em   condições de ser o promotor e o motor dessa luta.
("O  internacionalismo consiste na solidariedade fraterna dos operários de todos os países na luta contra o jugo do capital" Lénine em  "A crise amadureceu".)

Como já sublinhava Lénine, a condição económica (o assalariamento) da classe operária não é nacional, mas internacional. As condições da sua libertação são também internacionais.

A classe operária é internacionalista porque não usa o privilégio para si mesma, mas sim o fim dos privilégios de todas as classes.

Esta identificação da classe operária com o internacionalismo resulta da sua própria natureza e combina-se com o seu papel na luta de cada país. Para analisar o factor internacional em qualquer questão, a classe operária tem também de ser verdadeiramente nacional, tem de encabeçar em cada país a luta contra a exploração do capita! nas suas múltiplas formas, tem de integrar nessa luta a bagagem da luta operária internacional. O internacionalismo da classe operária não reduz, antes alarga, a unidade de todos os trabalhadores e a sua ligação às outras forças e sectores progressistas
de cada país.

Estará a classe operária em condições de continuar a desempenhar esse papel? A classe operária continua a estar no centro da época que vivemos. As modificações que se deram na sua própria estrutura, ao invés do que muitos propagandeiam, não lhe retirou e sim reforçou o papel que lhe cabe no curso das transfomacões históricas e de toda a evolução da vida da sociedade.

À classe operária, nas suas novas fronteiras e com as suas novas características, bem como a todos os outros trabalhadores, com a força dos seus movimentos organizados, cabe pois uma especial responsabilidade na articulação, na orientação e no desenvolvimento da luta contra a nova ofensiva geral do capitalismo.

Mas a crise do socialismo e as derrotas sofridas não afectam só o movimento operário. O desmantelamento da URSS foi, para todas as forças progressistas e os trabalhadores cie todo o mundo, mais importante retrocesso da nossa época. As suas consequências atingem todas as forças que têm como objectivo a emancipação dos homens.

Com o desaparecimento do contrapeso do campo socialista crescem a força e arrogância do capital e a sua pressão económica, política e cultural. O confronto com essa pressão e as suas consequências incorporam porém novos sectores na luta pela libertação social e nacional. A par das dificuldades presentes, não podem deixar de se ter em conta esses factores, para o renovamento da luta contra o domínio mundial do capital.
IV

O marxismo-leninismo não tem do initernacionalismo proletário uma visão estreita, sectária. Não considera o internacionalismo proletário como uma solidariedade de classe interna, fechada, excluindo a cooperação do proletariado com outras forças sociais e políticas que lutam contra o imperialismo, os monopólios, a exploração colonial e neocolonial, o progresso social, a democracia, a libertação nacional e social.

O nosso internacionalismo proletário, de comunistas, longe de excluir implica a vontade e o acto de alargar, no plano social e político, todos os movimentos internacionais solidários nas suas aspirações e nos seus objectivos democráticos e progressistas.

O conteúdo do internacionalismo proletário, para nós, é determinado pelo facto de se basear na concepção do mundo e numa política que são as da classe operária revolucionária, política que tem um objectivo bem definido: substituir o capitalismo pelo socialismo. Mas sempre no internacionalismo proletário os objectivos socialistas estiveram associados aos objectivos democráticos.

O intemacionalismo proletário enriqueceu-se consideravelmente nos nossos dias, as suas tarefas alargaram-se, devido precisamente à amplitude e dimensão crescentes das tarefas democráticas.

O   conteúdo   principal   do    internacionalismo proletário é, nas condições actuais, procurar a união de todas as forças revolucionárias e de libertação do mundo inteiro. É trabalhar para a criação de uma perspectiva comum e séria dos movimentos dos trabalhadores, em diálogo e convergência com todas as outras força e correntes de opinião que têm igualmente por objectivo a emancipação da humanidade e visando uma cooperação internacional capaz de promover um actividade prática solidária.
V

Será que, hoje, se toma necessário ainda demonstrar a necessidade e importância da solidariedade dos proletários de todos os países? Não será isso mais do que evidente?

Para responder a esta questão é preciso, antes de mais, ter em conta a gigantesca ofensiva desencadeada pelo imperialismo, pelas forças de direita e reaccionárias de todo o mundo contra o
socialismo, contra o movimento comumista e operário, contra a solidariedade proletária.

Nunca tanta energia, tantos esforços foram dispendidos pelos nossos adversários de classe, nunca tão agressivos ataques e calúnias foram lançado contra o socialismo, contra os ideais do comunismo, na tentativa de deter o avanço dos povos para uma sociedade mais justa e de progresso social. Um dos alvos desta ofensiva são, precisamente, os ideais internacionalistas.

Procura-se persuadir os trabalhadores que o internacionalismo proletário está ultrapassado, já não tem razão de ser, que a sua necessidade deixou de ter sentido.

Difundem-se ou aceitam-se teorias sobre desaparecimento da classe operária, e nessa base preconiza-se o apagamento da natureza de classe das organizações dos trabalhadores e a substituição da sua luta por concertações de topo que afastam os trabalhadores de uma participação directa na defesa dos seus direitos e interesses. A pretexto da mundialização da economia aponta-se para a transferência de poderes para estruturas supranacionais cada vez mais afastadas das suas bases de representação. Com a difusão da "cultura de consumo" capitalista, apoiada na crescente exploração dos países menos desenvolvidos e no agravamento das desigualdades à escala mundial, procura-se dar consistência ao domínio ideológico do capital. Proclamando o "fim do comunismo", a "falência do socialismo", pretende-se matar a esperança de uma alternativa à exploração capitalista.

Hoje, o internacionalismo proletário não pode ser apenas um princípio, uma palavra de ordem. Tem de assentar numa concepção do mundo actualizada, que dê resposta a inúmeros problemas cuja solução não é fácil. É por isso que, respondendo à propaganda inimiga e aos oportunistas dos nossos tempos, é fundamental aprofundar sem demora estes problemas, desenvolver a teoria do internacionalismo proletário na base consequente do marxismo-leninismo.

Para muitas das questões que se colocam pode não ser ainda possível dar resposta. Mas a própria formulação dos problemas é já uma contribuição para a resposta.
("Há um e só um internacionalismo de facto: o trabalho abnegado pelo desenvolvimento do movimento revolucionário e da luta revolucionária no seu próprio país, e o apoio (pela propaganda, a simpatia e a ajuda material) a esta luta, a esta linha, e só a esta, em todos os países sem excepção" Lénine em   "As tarefas do proletariado na nossa revolução")

In "O Militante" - N.º 277Julho/ Agosto 2005

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Revolução Russa, ano 100


Boaventura: Revolução Russa, ano 100
POR 
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS*
 ON 01/02/2017
Aventura soviética teve limites, contradições e misérias, mas ao menos um enorme mérito. Ela demonstrou que havia alternativa ao capitalismo e o obrigou a recuar
(Primeiro de uma série de ensaios do autor sobre o tema)

Assinalam-se este ano os 100 anos da Revolução Russa (RR)1 e também os 150 anos da publicação do primeiro volume de Das Kapital de Karl Marx. Juntar as duas efemérides pode parecer estranho porque Marx nunca escreveu em detalhe sobre a revolução e a sociedade comunista e, se tivesse escrito, é inimaginável que o que escrevesse tivesse alguma semelhança com o que foi a União Soviética (URSS), sobretudo depois que Stalin assumiu a liderança do partido e do Estado. A verdade é que muitos dos debates que a obra de Marx suscitou durante o século XX, fora da URSS, foram um modo indireto de discutir os méritos e os deméritos da RR. Agora, que as revoluções feitas em nome do marxismo ou terminaram ou evoluíram para… o capitalismo, talvez Marx (e o marxismo) tenha finalmente a oportunidade de ser discutido como merece – como teoria social. A verdade é que o livro de Marx, que levou cinco anos a vender os primeiros mil exemplares antes de se tornar um dos livros mais influentes do século XX, voltou a ser um bestseller em tempos recentes e, duas décadas depois da queda do Muro de Berlim, estava finalmente a ser lido em países que tinham sido parte da URSS. Que atração poderá suscitar um livro tão denso? Que apelo pode ter num momento em que tanto a opinião pública como a esmagadora maioria dos intelectuais estão convencidos de que o capitalismo não tem fim e que, se tiver, não será certamente seguido pelo socialismo? Há 23 anos anos publiquei um texto sobre o marxismo como teoria social.2 Numa próxima coluna indicarei o que desde então mudou e não mudou na minha opinião e procurarei responder a estas perguntas. Hoje debruço-me sobre a o significado da Revolução Russa.
Muito provavelmente os debates que durante este ano tiverem lugar sobre a Revolução Russa irão repetir tudo o que já foi dito e debatido e terminarão com a mesma sensação de que é impossível um consenso sobre se a RR foi um êxito ou um fracasso. À primeira vista é estranho que assim seja, pois quer se considere que a RR terminou com a chegada de Stalin ao poder (a posição de Trotsky, um dos líderes da revolução) ou com o golpe de Estado de Boris Yeltsin em 1993, parece evidente que fracassou. E, no entanto, tal não é evidente, e a razão não está na avaliação do passado mas na avaliação do nosso presente. O triunfo da RR reside em ter levantado todos os problemas com que as sociedades capitalistas se debatem ainda hoje. O seu fracasso reside em não ter resolvido nenhum. Excepto um. Em próximas colunas abordarei alguns dos problemas que a RR não resolveu e nos continuam a apoquentar. Hoje debruço-me sobre o único problema que ela resolveu.
Pode o capitalismo promover o bem estar das grandes maiorias sem que esteja no terreno da luta social uma alternativa credível e inequívoca? 

Este foi o problema que a RR resolveu e a resposta é não. A RR mostrou às classes trabalhadoras de todo mundo, e muito especialmente às europeias, que o capitalismo não era uma fatalidade, que havia uma alternativa à miséria, à insegurança do desemprego iminente, à prepotência dos patrões, a governos que serviam os interesses de minorias poderosas mesmo quando diziam o contrário. Mas a RR ocorreu num dos países mais atrasados da Europa e Lenine tinha plena consciência de que o êxito da revolução socialista mundial e da própria RR dependia de ela poder estender-se aos países mais desenvolvidos, com sólida base industrial e amplas classes operárias. Na altura, esse país era a Alemanha. O fracasso da revolução alemã de 1918-1919 fez com que o movimento operário se dividisse e uma boa parte dele passasse a defender que era possível atingir os mesmos objetivos por vias diferentes da seguida pelos operários russos. Mas a ideia da possibilidade de uma sociedade alternativa à sociedade capitalista manteve-se intacta. Consolidava-se, assim, o que se passou a designar por reformismo, o caminho gradual e democrático para uma sociedade socialista que combinasse as conquistas sociais da RR com as conquistas políticas, democráticas dos países ocidentais. No pós-guerra o reformismo dava origem à social-democracia europeia, um sistema político que combinava altos níveis de produtividade com altos níveis de proteção social. Foi então que as classes trabalhadoras puderam, pela primeira vez na história, planejar a sua vida e futuro dos seus filhos. Educação, saúde e segurança social públicas, entre muitos outros direitos sociais e laborais. Tornou-se claro que a social democracia nunca caminharia para uma sociedade socialista mas que parecia garantir o fim irreversível do capitalismo selvagem e a sua substituição por um capitalismo de rosto humano.
Entretanto, do outro lado da “cortina de ferro”, a República Soviética (URSS), apesar do terror de Stalin, ou precisamente por causa dele, revelava um pujança industrial portentosa que transformava em poucas décadas uma das regiões mais atrasadas da Europa num potência industrial que rivalizava com o capitalismo ocidental e, muito especialmente com os EUA, o país que emergira da segunda guerra mundial como o mais poderoso do mundo. Esta rivalidade veio a traduzir-se na Guerra Fria que dominou a política internacional nas décadas seguintes. Foi ela que determinou o perdão em 1953 de boa parte da imensa dívida da Alemanha Ocidental contraída nas duas guerras que inflingira à Europa e perdera. Era preciso conceder ao capitalismo alemão ocidental condições para rivalizar com o desenvolvimento da Alemanha Oriental, então a república soviética mais desenvolvida. As divisões entre os partidos que se reclamavam da defesa dos interesses dos trabalhadores (os partidos socialistas ou social-democratas e os partidos comunistas) foram uma parte importante da Guerra Fria, com os socialistas a atacarem os comunistas por serem coniventes com os crimes de Stalin e defenderem a ditadura soviética, e os comunistas a atacarem os socialistas por terem traído a causa socialista e serem partidos de direita muitas vezes ao serviço do imperialismo norte-americano. Mal podiam imaginar então o muito que os unia.
Entretanto, o Muro de Berlim caiu em 1989 e pouco depois colapsou a URSS. Era o fim do socialismo, o fim de uma alternativa clara ao capitalismo, celebrado incondicional e desprevenidamente por todos os democratas do mundo. Entretanto, para surpresa de muitos, consolidava-se globalmente a versão mais anti-social do capitalismo do século XX, o neoliberalismo, progressivamente articulado (sobretudo a partir da presidência de Bill Clinton) com a dimensão mais predadora da acumulação capitalista: o capital financeiro. Intensificava-se a guerra contra os direitos econômicos e sociais, os ganhos de produtividade desligavam-se das melhorias salariais, o desemprego voltava como o fantasma de sempre, a concentração da riqueza aumentava exponencialmente. Era a guerra contra a social-democracia que na Europa passou a ser liderada pela Comissão Europeia, sob a liderança de Durão Barroso, e pelo Banco Central Europeu.
Os últimos anos mostraram que, com a queda do Muro de Berlim, não colapsou apenas o socialismo, colapsou também a social-democracia. Tornou-se claro que os ganhos das classes trabalhadoras das décadas anteriores tinham sido possíveis porque a URSS e a alternativa ao capitalismo existiam. Constituíam uma profunda ameaça ao capitalismo e este, por instinto de sobrevivência, fizera as concessões necessárias (tributação, regulação social) para poder garantir a sua reprodução. Quando a alternativa colapsou e, com ela, a ameaça, o capitalismo deixou de temer inimigos e voltou à sua vertigem predadora, concentradora de riqueza, aprisionado na sua pulsão para, em momentos sucessivos, criar imensa riqueza e destruir imensa riqueza, nomeadamente humana. Desde a queda do Muro de Berlim estamos num tempo que tem algumas semelhanças com o período da Santa Aliança que, a partir de 1815 e após a derrota de Napoleão, procurou varrer da imaginação dos europeus todas as conquistas da Revolução Francesa. Não por coincidência e salvas as devidas proporções (as conquistas das classes trabalhadoras que ainda não foi possível eliminar por via democrática), a acumulação capitalista assume hoje uma agressividade que faz lembrar o período pré-RR. E tudo leva a crer que, enquanto não surgir uma alternativa credível ao capitalismo, a situação dos trabalhadores, dos pobres, dos imigrantes, dos aposentados, das classes médias sempre-à-beira-da-queda-abrupta-na-pobreza não melhorará significativamente. Obviamente que a alternativa não será (nem seria bom que fosse) do tipo da que foi criada pela RR. Mas terá de ser uma alternativa clara. Mostrar isto mesmo foi grande mérito da Revolução Russa.
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1 Quando me refiro à Revolução Russa refiro-me exclusivamente à Revolução de Outubro porque foi essa que abalou o mundo e condicionou a vida de cerca de um terço da população mundial nas décadas seguintes. Foi precedida da Revolução de Fevereiro do mesmo ano que depôs o Czar e que durou até 26 de Outubro (segundo o calendario juliano então em vigor na Russia), quando os Bolsheviques, liderados por Lenine e Trotsky, tomaram o poder com as palavras de ordem “ paz, pão e terra”, “todo o poder aos sovietes”, ou seja, aos conselhos de operários, camponeses e soldados.
2 Pela Mão de Alice, originalmente publicado em 1994. Pode consultar a 9ª edição revista e aumentada publicada em 2013 por Edições Almedina, p.33-56.


*Boaventura de Sousa Santos


Boaventura de Sousa Santos é doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale, professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, diretor dos Centro de Estudos Sociais e do Centro de Documentação 25 de Abril, e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa - todos da Universidade de Coimbra. Sua trajetória recente é marcada pela proximidade com os movimentos organizadores e participantes do Fórum Social Mundial e pela participação na coordenação de uma obra coletiva de pesquisa denominada Reinventar a Emancipação Social: Para Novos Manifestos.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Carta de Karl Marx a Abraham Lincoln



22-29 de Novembro de 1864

Senhor, felicitamos o povo americano pela sua reeleição por uma larga maioria. Se a palavra de ordem reservada da sua primeira eleição foi resistência ao Poder dos Escravistas [Slave Power], o grito de guerra triunfante da sua reeleição é Morte à Escravatura.
Desde o começo da titânica contenda americana, os operários da Europa sentiram instintivamente que a bandeira das estrelas carregava o destino da sua classe. A luta por territórios que desencadeou a dura epopeia não foi para decidir se o solo virgem de regiões imensas seria desposado pelo trabalho do emigrante ou prostituído pelo passo do capataz de escravos?
Quando uma oligarquia de 300 000 proprietários de escravos ousou inscrever, pela primeira vez nos anais do mundo, “escravatura” na bandeira da Revolta Armada, quando nos precisos lugares onde há quase um século pela primeira vez tinha brotado a ideia de uma grande República Democrática, de onde saiu a primeira Declaração dos Direitos do Homem (2) e de onde foi dado o primeiro impulso para a revolução Europeia do século XVIII; quando, nesses precisos lugares, a contrarrevolução, com sistemática pertinácia, se gloriou de prescindir das “ideias vigentes ao tempo da formação da velha constituição” e sustentou que “a escravatura é uma instituição beneficente”, [que], na verdade, [é] a única solução para o grande problema da «relação do capital com o trabalho” e cinicamente proclamou a propriedade sobre o homem como “a pedra angular do novo edifício” — então, as classes operárias da Europa compreenderam imediatamente, mesmo antes da fanática tomada de partido das classes superiores pela fidalguia [gentry] confederada ter dado o seu funesto aviso, que a rebelião dos proprietários de escravos havia de tocar a rebate para uma santa cruzada geral da propriedade contra o trabalho e que, para os homens de trabalho, [juntamente] com as suas esperanças para o futuro, mesmo as suas conquistas passadas estavam em causa nesse tremendo conflito do outro lado do Atlântico. Por conseguinte, suportaram pacientemente, por toda a parte, as privações que lhes eram impostas pela crise do algodão (3), opuseram-se entusiasticamente à intervenção pró-escravatura — importuna exigência dos seus superiores — e, na maior parte das regiões da Europa, contribuíram com a sua quota de sangue para a boa causa.
Enquanto os operários, as verdadeiras forças [powers] políticas do Norte, permitiram que a escravatura corrompesse a sua própria república, enquanto perante o Negro — dominado e vendido sem o seu consentimento — se gabaram da elevada prerrogativa do trabalhador de pele branca de se vender a si próprio e de escolher o seu próprio amo, foram incapazes de atingir a verdadeira liberdade do trabalho ou de apoiar os seus irmãos Europeus na sua luta pela emancipação; mas esta barreira ao progresso foi varrida pelo mar vermelho da guerra civil (4).
Os operários da Europa sentem-se seguros de que, assim como a Guerra da Independência Americana (5) iniciou uma nova era de ascendência para a classe média, também a Guerra Americana Contra a Escravatura o fará para as classes operárias.
Consideram uma garantia da época que está para vir que tenha caído em sorte a Abraham Lincoln, filho honesto da classe operária, guiar o seu país na luta incomparável pela salvação de uma raça agrilhoada e pela reconstrução de um mundo social.

Karl Marx



Notas
1 — A Mensagem da Associação Internacional dos Trabalhadores ao presidente Abraham Lincoln dos Estados Unidos, por ocasião da sua reeleição, foi redigida por Marx por decisão do Conselho Geral. No auge da Guerra Civil nos Estados Unidos esta mensagem teve uma grande importância. Sublinhou a enorme importância da guerra contra a escravatura na América para os destinos de todo o proletariado internacional. Apoiando todos os movimentos progressistas e democráticos, Marx e Engels educavam no proletariado e nos seus elementos de vanguarda na Internacional uma atitude verdadeiramente internacionalista em relação à luta dos povos oprimidos pela sua libertação.
2 — Trata-se da Declaração de Independência, adotada em 4 de julho de 1776 no Congresso de Filadélfia pelos delegados das 13 colônias britânicas da América do Norte; o congresso proclamou a separação das colônias norte-americanas na Grã-Bretanha e a formação de uma república independente: os Estados Unidos da A­mérica. Nesse documento fo­ram formulados princípios democráticos burgueses tais como a liberdade da pessoa, a igualdade dos cidadãos perante a lei, a soberania do povo, etc. Todavia, a burguesia e os grandes proprietários fundiários americanos violaram desde o início os direitos democráticos proclamados na Declaração, afastaram as massas populares da vida política e mantiveram a escravatura, que privava os negros, que constituíam uma parte importante da população, dos direitos mais elementares da pessoa humana.
3 — A crise do algodão foi provocada pela cessação do fornecimento de algodão vindo da A­mérica, em virtude do bloqueio dos Estados escravistas do Sul pela Marinha dos nortistas durante a Guerra Civil. Uma grande parte da indústria algodoeira da Europa ficou paralisada, o que se refletiu duramente na situação dos operários. Apesar de todas as privações, o proletariado europeu apoiou decididamente os Estados do Norte.
4 — A Guerra Civil na América (1861-1865) opôs, nos Estados Unidos, os Estados industriais do Norte e os Estados escravistas do Sul, que se rebelaram contra a abolição da escravatura. A classe operária da Inglaterra opôs-se à política da burguesia inglesa, que apoiava os plantadores escravistas, e impediu a ingerência da Inglaterra na Guerra Civil nos Estados Unidos.
5 — A Guerra da Independência das colónias inglesas na América do Norte (1775-1783) contra a dominação inglesa foi causada pela aspiração da nação burguesa americana, em formação, à independência e à supressão dos obstáculos que entravavam o desenvolvimento do capitalismo. Em resultado da vitória dos norte-americanos foi criado um Estado burguês independente: os Estados Unidos da América.


In  “Obras Escolhidas”, de Karl Marx, (Editorial Avante!/Edições Progresso Lisboa-Moscou, 1982, tradução de José Barata-Moura).
A carta foi escrita entre 22 e 29 de novembro de 1864, em plena Guerra Civil Americana. Foi publicada em “The Bee-Hive Newspaper”, nº 169, de 7 de janeiro de 1865.